28 abril, 2008

O Nevoeiro


Aqui vai uma sugestão para vocês, O nevoeiro. O filme de terror não tem grandes méritos. Talvez seu único seja o de ter conseguido dar forma a um argumento aterrorizante num sentido muito peculiar. A sinopse vocês podem encontrar em muitos lugares. O trailer também é fácil de achar, mas o argumento é original. Antes de continuar leiam sobre o filme, em verdade o post só se completa depois de assisti-lo. Em linhas gerais ele trata do desenvolvimento de uma situação inescapável, onde a desesperança avança a passos largos. A condição das pessoas piora a cada momento até atingir o clímax pouco antes do final.

Meus amigos mais próximos -- por suas razões -- e leitores desavisados podem pensar que eu tenho o costume de, martelo em punho, ver pregos a torto e a direito. Na verdade o que penso é que alguns homens tiveram o mérito de descobrir elementos com os quais podemos mobilizar toda a arquitetura da experiência humana e reduzi-la a minguados componentes. Segurança e controle são alguns desses elementos e Nietzsche é fiador dessa descoberta. Além de ter destacado a característica das ideologias: seu poder justificador, isto é, sua capacidade de conferir sentido as mais inimagináveis situações, Nietzsche com isso encontrou desdobramentos incríveis. Em Genealogia da moral e em outro texto que não me recordo, ele inverte uma opinião geral sobre os ideais ascéticos e nos faz enxergar o traço conservador encerrado por trás da aparente negação:
O ideal ascético nasce do instinto de cura e proteção de uma vida que degenera, a qual busca manter-se por todos os meios, e luta por sua existência; indica uma parcial inibição e exaustão fisiológica, que os instintos de vida mais profundos, permaneci dos intactos, incessantemente combatem com novos meios e invenções. (...) O ideal ascético é um tal meio: ocorre, portanto, exatamente o contrário do que acreditam os adoradores desse ideal - a vida luta nele e através dele com a morte, contra a morte, o ideal ascético é um artifício para a preservação da vida. (...) Já me entendem: este sacerdote ascético, este aparente inimigo da vida, este negador - ele exatamente está entre as grandes potências conservadoras e afirmadoras da vida...

Genealogia da moral, Terceira dissertação, aforismo 13
É certo que esse fragmento não é tão ilustrativo quanto aquele cuja localização eu não lembro, no entanto aqui ele já nos convida a pensar uma continuidade onde aparentemente só enxergamos ruptura. Por meio dos seus artifícios o ideal ascético, e a religiosidade mais extrema, operam ainda em favor da vida na medida em que mobilizam esforços contra forças externas ou internas capazes de inibir o impulso vital. Assistam o filme e vejam se o extremismo que vigora durante boa parte não é uma tentativa de restabelecer internamente uma ordem externa já perdida. Notem como a religiosidade assume a função de um fator homeostático, afasta os homens do terror de viver num mundo imprevisível, desordenado, com o qual suas categorias já não podem lidar e os insere num plano que, a despeito das consequências imediatas, "lhes garante que uma Providência cuidadosa velará por sua vida e o compensará, numa existência futura, de quaisquer frustrações que tenha experimentado aqui" (FREUD, O mal-estar da civilização). Enfim, observem como a religião empresta significado ao non sense completo que é o cenário e a premissa do filme. Ora, isso é o mais trivial, difícil é imaginar uma situação adversa que pudesse escapar à mente engenhosa de um espírito ascético, que passasse sem que lhe fosse impressa a marca inegável de um sentido industriosamente elaborado para restabelecer uma ordem, para devolver o controle a quem nunca de fato o possuiu.

No final das contas o homem possui apenas um único inimigo: a contingência, a desordem, e tudo que o expõe a uma situação incontrolada e incontrolável -- e seu esforço completo, nos mais diversos campos de batalha e com os mais diferentes inimigos, que incorporam a imagem dessa desordem, consiste em conjurar da sua vida a irregularidade. Insetos gigantes, mulheres bonitas, ebriedade, são apenas máscaras de um mesmo oponente. O afinco com que lutamos contra ele e as armas de que nos servimos, isso é o que há de mais aterrorizante em O nevoeiro. Não concordam?

Um comentário :

Mateus Guedes disse...

não é um filme de terro mas é o melhor que eu ja vi tipo pra mim a lista éra

:
1-Condenados
2-Avatar
3-Lanterna verde

agora é

1-Condenados
2-O nevoeiro
3- Lanterna verde

vi na internet e não só fui eu como muitas pessoas gostaram do filme recomendo para todos!!!