20 janeiro, 2008

Nota sobre um dia de sol

Em Salvador os dias de sol são mais numerosos que os dias nublados. Entre um e outro dia ensolarado a diferença é sensível. O que motiva é essa nota é constatação de que não conseguimos determinar as diferenças. Hoje é um belo dia de sol, um dia lindo, no entanto ontem também o sol saiu e as condições do tempo eram idênticas. A impressão de um dia lindo contudo é mais forte que a de um dia normal -- não sei se vocês me entendem, mas ocasionalmente a gente ganha algum espaço aberto, ou nos aproximamos da janela, e temos a certeza de estar diante de um lindo dia. É admirável que estejamos habilitados a notar a diferença sem contudo ser capaz de determiná-la; como acontece quando observamos o movimento dos astros, podemos captar as mudanças sem flagrar a passagem de um espaço ao outro. Que espécie de faculdade é essa que oferece uma capacidade tão singular? Ela é decerto algo poética, pois ao esconder os elementos determinantes deixa a cargo da imaginação a tarefa coser a unidade da peça. Será, por acaso, que somente a estes eventos a imaginação empresta unidade? Talvez, ainda, a mudança seja determina por fatores internos. Bem, a resposta deixo a cargo dos estudiosos de Hume, Merleau-Ponty, Deleuze... para mim basta suscitar a reflexão sobre fenômenos semelhantes cuja diferença não se determina com clareza e que constituem uma base firme para reflexão poética. PS. Quantos problemas inscrevem-se na simples afirmação de que é possível notar a diferença sem poder determiná-la. Quantos problemas! Mas não parece verdadeiro?

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