12 janeiro, 2008

Não há consenso na derrota

Eu sou mesmo um sujeito sonhador, dizem meus amigos, acredito que a linguagem é uma ferramenta que oferece espaço para diálogo aberto e desinteressado entres partes conflitantes. Mas não há desinteresse, grande parte dos diálogos que se realizam nos mais diversos campos da vida humana tem conotação política e dissimula sob o véu da honesta conversação insidiosos projetos dos que, não podendo reagir, esperam o tempo necessário para a desforra. A paz é o prelúdio da guerra; se não vivemos em contínuo conflito é porque periodicamente algumas forças se esgotam e precisam reunir novas forças para voltar ao combate.

Tais afirmações vagas e categóricas são resultado da impressão causada por um ou dois períodos que destaco aqui:
Belluzzo afirma que o crescimento “pífio “ da economia cria um problema político, pois é “muito difícil conseguir o consenso na derrota.(...) Se — ao contrário — a economia começar a retomar e espalhar os efeitos dessa retomada na população, vamos criar as condições de sucesso que permitem construir o consenso”.
É até vergonhoso aprender o que alguns sabem intuitivamente desde cedo, mas não posso deixar de admitir. Que outra explicação poderia justificar a relativa paz que resta nos últimos tempos. Como entender a carta do editor, subscrita por Roberto Civita na Veja por ocasião da última edição do ano, senão como atestado de que a vitória confere novas formas e sobretudo novos valores de verdade às proposições brandidas pelos postos governistas. Montado em índices favoráveis, tudo lhes é perdoado e as antigas diferenças tornam-se pálidas até esmaecer por completo. A minha fé na autonomia do discurso, defendida com algum entusiasmo em outras publicações, cai por terra. Espero que possamos, ao menos, conservá-la em alguns domínios.

Feliz, quando menos, por encontrar vozes amigas. Leiam Bio-Renda e mobilização produtiva, artigo interessantíssimo de Giuseppe Cocco, de onde retirei o fragmento acima. E se tiverem muita curiosidade, procurem no blog do Nassif a carta assinada por Roberto Civita.

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