03 setembro, 2007

A Vale e as condições para o debate

Em Capitalismo de ouvir falar:
Eu me recuso a debater esse assunto pelo ângulo da ideologia. Ideologia demais emburrece. Eu quero discutir o caso da Companhia Vale do Rio Doce pelos critérios do management e do business na iniciativa privada.
Trocando em miúdos, Alon diz que a venda da Vale pode ser contestada mesmo sob o prisma das categorias que coordenam o mercado financeiro (ainda que na macro-esfera). Como bom jornalista, ele apressa-se em fugir à parte estritamente teórica e aos entraves que ela dispõe. No caso de Alon, que é uma exceção à regra, não é por falta de competência que as coisas assim se passam, mas por um sentido de praticidade que quase sempre se perde quando os debatedores se encaminham para uma contenda teórica.



Alijado dos compromissos jornalísticos, eu prefiro, ao contrário, repercutir o preterido. Deixem que eu torne claro meu ponto de partida: não sou favorável à estatização das empresas, nos moldes da mais fiel agenda comunista, mas, tampouco sou partidário da idéia de um Estado mínimo. Em verdade, minha posição no que respeita a esse dois conceitos não é outra coisa senão o resultado de um confronto entre suas formas e realidade histórica do Brasil.

Não me ocuparei com exposição das razões pelas quais a estatização é inadequada ao nosso Estado. Cada um parece dominar com destreza incomparável as armas para combater essa perspectiva. O que me transtorna é o açodamento com o qual se descarta qualquer tema relativo às empresas estatais. Tenho a impressão de que a Petrobrás é argentina, de que todas as experiências com empresas estatais malograram e que, portanto, desvincular-se desse fardo é um imperativo a ser realizado por cada governo.

Observem bem, admito e exijo que existam os que discordem tanto do meu posicionamento quanto daquele ostentado pelo mais sectário comunista. O que não tolero é a refutação gratuita e imediata de argumentos contrários baseada na certeza incondicional da impropriedade dessas posições.

(mesmo o falsificacionismo que contornando os problemas relativos à forquilha de Hume [Hume's fork], pretendeu dar à ciência um solo mais estável através da coordenação dos esforços científicos centrados num procedimento lógico necessário, a negação [modus tollens], sofreu críticas, pois se expunha a contingência da verdade das premissas que operava, ou seja, ainda que a conclusão preservasse a verdade das premissas necessariamente, ainda dependia da necessidade de que elas fossem verdadeiras. O falsificacionismo, desse modo, não poderia escapar da revisão histórica de suas premissas)

O falsificacionismo é fragmentado e meu adendo não pretende representar o pensamento de todos os seus componentes, portanto tomem-no somente como ilustração de que mesmo em ciência, o maior emblema da objetividade humana, as proposições não são estimadas necessariamente objetivas sem prejuízo.

Rechaçar antecipadamente o debate sobre a participação e relativização do Estado no domínio do empreendimento industrial é arrogar-se um direito que nem mesmo a ciência logrou ter para si. É conferir a um ponto de vista o estatuto de inquestionável. Que sejamos sensatos ao menos para nos manter atentos aos argumentos das partes interessadas e saibamos, a título de precaução, que as diferenças entre o Brasil e os demais paises exigem que os modelos políticos sejam revisados e adaptados as nossas necessidades. Repetir de maneira intransigente a cartilha de modelos internacionais, para mim, em nada difere de evangelizar em praças públicas. O dogmatismo de tais práticas desde sempre apresentou-se como o maior inimigo do desenvolvimento humano e da democracia.

É preciso guardar a possibilidade de que estejamos errados, como condição imprescindível para que o debate transcorra nos termos mais elementares não só do âmbito político, mas racional. Isso, aliás, eu digo sempre e nos mais diversos textos, seja quando falo de amor, seja de litetura, filosofia, etc.

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