02 setembro, 2007

A medida de um homem

Tomaz pensava consigo próprio que ir para a cama com uma mulher e dormir com ela são duas paixões não só diferentes como quase contraditórias. O amor não se manifesta através do desejo de fazer amor (desejo que se aplica a um número incontável de mulheres), mas através do desejo de partilhar o sono (desejo que só se sente por uma única mulher).

Milan KUNDERA, in A insustentável leveza do ser
Depois de aventar este tema, as duas paixões não só diferentes mas contraditórias, atinei para algo sobre o que resolvi escrever. Tenho a impressão de que o único meio que disponho para mensurar minhas mudanças é reler um livro que me marcou, que me inspirou pensamentos. O mecanismo que permite essa percepção está fundamentado no idéia de que só as mudanças nos oferecem oportunidades para flagrar o tempo. Observem, por exemplo, o seguinte caso: imaginem-se olhando para uma TV que reproduz o vídeo de um cenário estático; se não há movimento, como determinar se o cenário está mesmo estático ou se o aparelho que reproduz o vídeo congelou a imagem?¹ Para mim, não há meios para isso. O tempo é a cadência das mudanças, ele registra a duração e organiza assim o fluxo de fenômenos no mundo.

Bem, quero chegar no seguinte lugar -- imerso no eterno presente da consciência, é extremamente embaraçosa a tarefa de apontar e distinguir as mudanças que se operaram sobre mim. Nos outros entrevejo-as sem maiores dificuldades, posto que, com eles, a todo momento alternam-se presença e distância, atenção e descaso, e desse modo posso constituir referenciais pelos quais julgo as modificações que percebo ou mesmo as engendro. No que me toca, não posso contar com a distância e o descaso tampouco me afasta de mim -- se é que ele é possível. Talvez outro tenha melhor sorte, comigo as coisas se passam desse modo. Daí a função dos livros.

Ler o que se escreveu outrora é também uma forma válida de recuperar o passado, de contornar as mudanças. A escrita porém segue muitos padrões e a liberdade do pensamento não se restringe às normas estilísticas, sociais, nem morais -- na maior parte do tempo esconde-se o que há de mais vivo, os sentimentos mais contundentes. O que me faz lembrar, para não perder o costume, Fernando Pessoa e o pudor pela sua intimidade que o constringia ainda que os outros não pudessem advinhá-la:
Passo por uma rua e estou vendo na face dos transeuntes, não a expressão que eles realmente têm, mas a expressão que teriam para comigo se soubessem da minha vida, e como eu sou, se eu trouxesse transparente nos meus gestos e no meu rosto a ridícula e tímida anormalidade da minha alma.

Fernando PESSOA, in Livro do desassossego
Sempre acolhi mudanças, mudei muito ao longo da minha vida e surpreender o passado ainda constitui uma atividade prazerosa, terapêutica, quando não, didática. Mudei fisicamente, as fotos e pessoas que me conhecem podem testumanhar a esse respeito. As fotografias podem recuperar a velha forma, mas essa nunca foi esquecida por completo -- só o pensamento pode trazer de volta o coração.

As primeiras releituras que me trouxeram essa experiência envolviam livros de filosofia, Sartre, Nietzsche.. esses mestres em converter jovens rebeldes em sonhadores revolucionários. Não por demérito deles, pobres diabos, mas por inocência ou mesmo ignorância da maioria. Recuperei-me a tempo de corrigir os desatinos de minhas leituras. Depois, algo mais contundente, Dostoiévski. Pude então aferir meu modesto percurso intelectual, comparar a profundidade da leitura de outros tempos e identificar as consequências que me inquietavam naquela época. Propriamente reveladoras eram as leituras relativas às experiências corriqueiras, tanto quanto elas pode ser encontradas na literatura de Clarice Lispector e particularmente, de Kundera. Não está muito longe o tempo da leitura deste livro, A insustentável leveza do ser, e confesso que ainda não o reli, basta só a lembrança, porém, para que venha a mente uma série de imagens e situações que ilustram com exatidão o universo do qual fazia parte, os valores e sentimentos que então emprestavam calor a minha alma. Não vou ocupá-los com as minúcias demasiado íntimas, mas naquele livro vi esboçados traços firmes sobre aspectos fundamentais de um relacionamento entre um homem e uma mulher. Por exemplo, este que toca o desejo de partilhar o sono. Contava, salvo engano, 20 anos. Ó que pureza! E lembro que ele me foi sugerido por uma amiga que ainda conservo. Quanto coisa não terá mudado desde então? Estarei inclinado ainda a aceitar as premissas elementares do livro com o mesmo prazer de outrora? Há, logo no início, uma mediação filosófica estabelecida pelo exame dos conceitos de leveza e peso, não lembro senão da alusão, o conteúdo me escapa, será que tolerarei ainda o modo como o autor mobiliza a filosofia para manejar suas idéias no livro? No final Kundera ainda usa Nietzsche, numa bela imagem na qual ele abraça um cavalo açoitado por um cocheiro e pede perdão, em Turim, no dia em que ele supostamente sucumbiu por completo à doença. Chego a ânsiar a leitura, quanto de mim não se revelará nela?

Não é intrigante mirar a si mesmo com a curiosidade que costumamos endereçar aos outros? Se este eu do passado parece-nos às vezes tão distante, que elemento lhe dá unidade? Se os livros nos parecem caros talvez seja porque guardamos certa familiaridade com eles, o que chamamos de eu assemelha-se a um recorte arbitrário de pontos num universo ilimitado que constitui nossa vida, este recorte serve a um propósito, como servem os momentos indexados pelos livros -- as releituras restituem-nos a nostalgia, a cumplicidade do escritor diante da sua obra, não sem um certo desconcerto, dissimulado imediatamente pela segurança da opacidade dos gestos que entravam o acesso a anormalidade da alma.

¹ Pensem no filme O chamado. Naquela cena onde a menina endiabrada passa horas sentada na cadeira, imóvel. Se não houvesse um relógio computando as horas, no fundo branco e estático do quarto onde ela se encontrava, o absurdo dela não dormir por dias a fio não se consumaria, tampouco poderíamos saber se se tratava de uma imagem congelada no vídeo ou de um cenário efetivamente estático.

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