05 agosto, 2007

Males geminianos

Certa feita um amigo declarou que eu sou um geminiano com ascendente em gêmeos. Problema dobrado! Vocês bem sabem que tais crenças não convém aos homens do pensamento, de quem se exige ceticismo implacável. Devem saber também que para a astrologia os elementos (terra, água, ar e fogo) cumprem papel indispensável na determinação da sorte do indivíduo. O caso é que diante do meu mapa astral foi sentenciada a ausência quase absoluta do elemento água (ou terra?), responsável por certa desenvoltura na expressão emocional.

Eu não lembro quando foi a última vez que conferi uma previsão astrológica para o meu dia, mas confesso que certas coincidências me intrigam. É claro que eu não me disponho a julgar tais coincidências suficientes para constituição de uma ciência, mas elas ainda sim me embaraçam.

Vejam por exemplo a sentença quanto ao manejo das coisas emocionais que me concerne. Eu invejo fervorosamente aqueles que se dispõe a escrever em seus blogs aspectos triviais do seu dia, da sua vida, com a simplicidade de quem descreve figuras geométricas. É domingo de manhã e esse post representa uma ruptura na continuidade das publicações anteriores, contudo, ainda sim, às expensas de um esforço sobrehumano. Quero dizer, salvo quando falei do amor e de seus jogos, nada mais se refere as minhas vivências senão para ilustrar um encadeamento de raciocínio. Os sentimentos estão sempre a serviço da razão e nunca o inverso. Agora mesmo me custou controlar o impulso de converter essa conversa informal, num discurso fechado, quer dizer, que não dê margens à análise crítica dos pressupostos e consequências (1). Portanto voltemos a trivialidade. Minha memória diz que quando foi revelada minha inépcia astrológica para a expressão das coisas emocionais eu ainda não havia entrado na faculdade. Portanto, antes de munir minha compulsão racional com os instrumentos filosóficos que iriam projetá-la a dimensões exorbitantes, já havia um abismo natural a me separar do discurso sentimental. Alargado até o desespero, o abismo tomou o horizonte e ao que fosse sentimental não deixou senão o terreno flutuante da poesia, da arte. Como se não pudéssemos falar nada sobre nossos sentimentos sem assumir posições racionais insustentáveis.

Consola-me Nietzsche:
Os acontecimentos maiores não são os mais ruidosos, mas as nossas horas mais silenciosas.

in Assim falou Zaratustra. "Os grandes acontecimentos"
Mas Nietzsche é uma putinha de confortos para quem vê nele apenas o que lhe convém. A verdade de sua afirmação se conserva e eu continuo aindo preso as minhas limitações. O problema é que parece tão imensamente terapêutica a atividade de escrever despretensiosamente, e talvez essa conduta nos una, como humanos, na rede desinteressada de experimentações que preludiam a arte, a literatura. Enquanto isso eu, quase robô, calculando proposições, preocupado em proteger cada aresta do meu texto contra os espinhos do ceticismo. Enfim...

Há ainda no relato das características geminianas a presença da comunicabilidade, do desejo de abraçar o mundo de uma só vez -- e eu sinto tão nítida a vontade de tudo que parece que o nada é o produto inevitável dos meus esforços. "Quem tudo quer, tudo perde". Falta-me concentração para terminar qualquer tarefa pois a cada instante surgem novas tarefas reclamando meu interesse. Céus! Com que esforço e satisfação eu concluo qualquer coisa. Será, pois, um laivo geminiano? Será Mercúrio lançando seus longos braços sobre minha miserável existência? Não é curiosa a coincidência?

Que a ambrosia tenha bem alimentado Hermes, pois eu estou disposto a mudar este cenário; logo estarei falando e escrevendo tantas trivialidades que será quase impossível recobrar a seriedade. Se esse for o caso, eu encontrei mais aforismos de Nietzsche para justificar a ausência de gravidade.

(1) Alguém poderia dizer, por exemplo, que minha posição parece insinuar que é possível tratar de sentimentos sem um lastro racional, o que demandaria a demora numa explicação indesejada. Pura paranóia!

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