28 agosto, 2007

Considerações sobre valor

Admitam as duas circunstâncias hipotéticas:

A) Um homem lê um exemplar da literatura ziniguistanesa e conclui em seguida: "A literatura do Ziniguistão¹ é imprestável".

B) Contando com a leitura de grande parte dos livros publicados no Ziniguistão nos últimos dois séculos, um especialista em literatura ziniguistanesa afirma: "A literatura do Ziniguistão é imprestável".

A diferença entre as duas afirmações parece saltar aos olhos, porém, ambas solicitam que sejam identificados critérios pelos quais se distingue o objeto a que se referem. Os critérios, ou o que chamarei de domínio de critérios, pelos quais se identifica a literatura ziniguistanesa fornecem o fundamento do seu valor. Portanto a constituição de um domínio de critérios é condição para atribuição de valor e a publicidade do domínio necessária para participação na linguagem.

O vínculo entre o valor atribuído e o domínio de critérios é sempre arbitrário -- pelo mesmo domínio poderíamos conceber um valor contrário. Com frequência, estabelece-se posteriormente uma relação estável entre o valor e o domínio de critérios através da qual essa ligação é tornada regra para apreciação do objeto referido. A regra é investida de autoridade oriunda dos mais diversos meios: tradição, eficácia relativa a um fim, etc. O valor, contudo, resta ainda como uma decisão pela qual nos habilitamos a manusear os objetos do valor de certo modo. As afirmações (de valor) não são consequências, tampouco respostas a um estímulo externo, a uma experiência, antes, são as condições pelas quais se negocia com as experiências, artifícios construídos para que se faça uso delas -- ou o assentimento a um domínio de critérios previamente ensinado e estabelecido (assentimento a uma regra). Não há causa empírica para valores.

O sentido (uso) das afirmações só se realiza pela pressuposição de que se partilhe um domínio de critério mediante o qual se pode chegar à conclusão². Por essa razão, podemos entendê-las de dois modos:

A') Através de uma afinidade anteposta (que realiza a exigência do partilhamento do domínio), pretende-se produzir no interlocutor reações relativamente iguais àquelas produzidas em quem a enuncia.

B') Nesse uso deve-se contar com o reconhecimento, por parte do interlocutor, das diferenças qualitativas e quantitativas dos domínios de critérios. Só por meio desse reconhecimento a antecipação da conclusão pode intimidar através da sugestão de um amplo domínio de critérios, de uma hierarquia. A estratificação do domínio de critérios e a legitimidade conferida a essa configuração é a fonte exclusiva de onde o valor extrai autoridade e força. A insinuação da posse de um domínio de critérios é um meio de imposição de força e expediente através do qual o debate cessa antes mesmo de começar (sobretudo quando ao locutor cabe o epíteto de especialista).

Apontar a contigência da configuração do valor nos proporciona as seguintes vantagens: Livra-nos da possibilidade de imposição de força, do uso subjetivo de recursos objetivamente constituídos; permite-nos conferir maior flutuação e dinamismo à constituição dos critérios operativos presos não às vantagens que proporcionam, mas às comodidades que oferecem aos que dominam os meios de manipulá-los segundo seus interesses, a um uso político e porque não, despótico.

Não se pretende com isso esgotar as intenções relativas a afirmação de valores, mas destacar dois uso ilegítimos que se seguem a uma imagem da operação valorativa -- que é válida e útil, porém, que deve ser escrupulosamente policiada.

¹ Por questões políticas preferi submeter às críticas fictícias o país hipostasiado por André Dahmer (nosso Tolkien), do que correr o risco de ser censurado por meras hipóteses.

² Se todos partilhassem o mesmo domínio de critérios a experiência de ler um livro ruim seria reduzida a níveis baixíssimos, porquanto poderíamos comunicar uns aos outros que livros devem ou não ser lidos com a certeza de que estaríamos transmitindo uma informação objetiva.

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