17 julho, 2007

Amor, jogos e linguagem

Que fique claro que esse texto não é uma crítica a ninguém, tampouco uma doutrina sobre amor e relacionamentos. É apenas a expressão de minhas opiniões e idéias sobre tais temas e, naturalmente, essas idéias podem coexistir pacificamente com diversas outras. A possibilidade de coexistência, depende, como tantas outras coisas, do diálogo. A única força que pode oprimi-la é o silêncio, e a indisposição para conversas francas.
"Escolher a própria máscara é o primeiro gesto humano e solitário" Clarice Lispector
Alguns amigos me tomam por romântico. Talvez eu o seja. O que eles não sabem é o alcance do meu romantismo. Eu acredito que qualquer imbróglio amoroso pode ser resolvido pela disposição honestas das partes para o diálogo. Tudo pode ser minuciosamente formulado em expressões lingüísticas compreensíveis. Sou mesmo partidário do adágio feminino: “vamos discutir a relação”. É evidente que essa expressão ganhou fama por sua natureza pejorativa, mas, apesar dos abusos que ensejaram a má reputação, ainda resta um quinhão de sabedoria nessa sentença. O diálogo não é instrumento do sucesso, o que se garante ao praticá-lo é comunicação honesta, prática, eficiente, não a dissolução dos problemas e o retorno imediato ao estágio anterior de paz. Às vezes ele torna mais clara a incompatibilidade entre duas pessoas; contudo, quase sempre é melhor a certeza da inadequação do que a garantia fundada em desencontros, em ilusões engendradas por desentendimentos que se depositam tediosamente, sem se fazer sentir, no espaço cotidiano de uma vida comum. Permitam-me explicar a relação entre a epígrafe e essa concepção de relacionamento segundo a qual o diálogo tem papel tão importante. Incontáveis teóricos, escritores, intelectuais, emprestaram suas forças à tentativa de esclarecer o vínculo e as exigências impostas pela relação entre o indivíduo e a sociedade, ou a comunidade. Não sem alguma controvérsia poderíamos identificar um elemento comum a muitas dessas tentativas: a superposição de algumas premências da comunidade sobre o indivíduo. Em nome do bem comum abdicamos, ou melhor, polimos as arestas que tornam o trato social áspero, rude, e vestimos máscaras. Bem, o que acontece é que por essa razão podemos falar de atores sociais (conforme Erving Goffman), ou de máscaras da civilização (conforme Jean Strarobinski). Para o bem da comunidade nos comportamos de maneira relativamente regular e, quando agitados por interesses particulares, atuamos segundo padrões igualmente regulares através do quais podemos ter dos outros o que queremos. A literatura de Clarice Lispector pode, com alguns passos, extrapolar o limite de qualquer análise sociológica semelhante, mas no caso da frase em epígrafe, ela serve magnificamente para ilustrar o que se quer dizer quando se trata desses temas. Não sentimos tantas vezes que mesmo os desvios de conduta parecem orientados? Parecem seguir uma norma? Os rebeldes não aparentam ser tão “enlatados” quantos os “normais”? Ora, mas se talvez ainda não esteja clara a ligação entre a frase e os relacionamentos, perdoem-me. Na minha opinião o amor é pleno despojamento dessas exigências. Perto de quem amamos, sentimos a liberdade primeva anterior a todas as máscaras e naquele instante prosaico em que estão abraçados, deitados, compartilhando qualquer trivialidade, os amantes fruem de uma intimidade sem par e este nexo é a mais poderosa experiência do amor. Eis o primeiro forte traço do meu romantismo. Não sem preço essa abertura e liberdade se instalam. Freud, em O mal-estar da civilização, observou que o amor é uma via certeira para felicidade e por isso fonte segura de sofrimento. Quem já experimentou o amor pode testemunhar a verdade dessa afirmação. Assim identificamos o segundo traço do meu romantismo: a crença de que os instantes que o amor nos oferece quase sempre valem as dores que porventura ele cause. Esta herança é tributária a influência de Vinicius de Moraes na minha formação sentimental e ela se exprime por completo nos versos de um samba de Vinicius:
Quem já passou por essa vida e não viveu Pode ser mais, mas sabe menos do que eu Porque a vida só se dá pra quem se deu Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não Não há mal pior do que a descrença Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair Pra que somar se a gente pode dividir Eu francamente já não quero nem saber De quem não vai porque tem medo de sofrer Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não em Como dizia o poeta
Desse modo vocês têm uma demarcação frutífera das fronteiras do que eu compreendo por amor. Voltemos então aos aspectos práticos das relações, tendo em mente o que eu julguei ser importante. Tratemos, pois, dos jogos. Já enfatizei a importância do diálogo para resolução de problemas. Porém, no domínio da linguagem nem toda expressão se ajusta à idéia de que ambas as partes têm direito à palavra e deveriam estar abertas para ouvir o que cada uma tem a dizer, com total disposição para acatar o argumento do outro, quando fosse necessário. As palavras podem ser empregadas para fazer prevalecer uma posição sobre a outra, a serviço da conveniência de uma das partes. Quando duas pessoas que se amam propõem formas diversas para lidar com uma situação (um problema, uma adversidade qualquer), o que está em causa não é quem é melhor (mais inteligente, esperto, dinâmico, etc.), ou quem lida melhor com uma circunstância, mas qual é o caminho mais eficiente para se ver livre do problema que obstrui a relação. Quando a unidade entre duas pessoas, característica do amor, se converte em associação entre duas pessoas, estamos novamente no terreno das máscaras, onde cada gesto é calculado não mais em função do que é comum, mas do particular, num jogo plenamente identificável, com traços e semelhanças que podem, inclusive, ser ensinados. A autonomia, autenticidade daquele instante anterior no qual as máscaras haviam sido depostas, cede lugar à heteronomia dos jogos, dos instrumentos através dos quais manipulamos (consciente ou inconscientemente, diga-se de passagem) os outros. Aqui estamos na área fronteiriça do amor, dos relacionamentos, onde tudo que é valioso cai por terra, torna-se trivial e prosaico. Quando o bem de um é mais importante que o bem de dois, não há mais espaço para o amor. Gostaria ainda de me estender um pouco mais sobre manipulação, jogos, mas ando sinceramente fatigado por tudo isso. Essa agenda de debate já figurou exaustivamente nos últimos dias, por isso peço perdão aos meus amigos e argumentadores-combatentes. Talvez eu retome o tema mais adiante, noutro dia, quem sabe. Acrescento apenas e lamentavelmente mais algumas palavras de Vinicius, agora partilhadas pelo mestre Tom:
O amor é a coisa mais triste quando se desfaz em O amor em paz
PS. Essa letra, aliás, faz parte do repertório da minha constituição sentimental. Ela expressa integralmente algo tão significativo pra mim quanto Como dizia o poeta, só que num tom mais cadenciado, ao meu estilo.

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