30 maio, 2016

Um golpe não positivista

Nesses tempos sombrios em que parecemos perdidos, Luis Eduardo Soares é um dos intelectuais que tem publicado regularmente textos interessantíssimos. Sou contra o impeachment porque penso no dia seguinte é um deles, publicado antes do afastamento de Dilma. Um texto que além de analisar o cenário político, oferece uma proposta que não se situa no campo binário das duas forças antagônicas que tragaram o país. A hora e a vez do pacto republicano, seu novo texto, tem essas mesmas características, uma abordagem conciliadora e propositiva (ele trata do pacto necessário para superar as dificuldades que enfrentamos), que além do mais ousa ao tratar algumas questões sob as lentes de recursos conceituais não ortodoxos. No entanto, o texto contém algumas posições das quais eu discordo e que creio servirem para ilustrar alguns temas e tensões que constantamente encontramos nas diferentes narrativas que tentam explicar o que tem acontecido no Brasil nos últimos tempos.

Golpe. Há muita gente seriamente empenhada em combater o uso da palavra. Não me refiro ao próprio Usurpador e seus asseclas, mas a pessoas de esquerda. E não sem razão, vale dizer. Nos últimos anos o PT reduziu sua capacidade de mobilização a um apelo ao medo e à chantagem, situando-se no lugar simbólico daquelas contra os quais o slogan "A esperança vencerá o medo" foi elaborado em 2002. É natural que as pessoas não aceitem serem meros instrumentos na luta pela manutenção do poder. O PT tornou-se o monstro contra o qual lutou. Entretanto, os argumentos de quem se recusa a empregar o termo não são tão fortes quantos as razões para suspeitar da instrumentalização que o uso não raras vezes denota. Luis Eduardo Soares diz: "Um erro não é um golpe". Talvez a mais forte objeção ao uso da palavra golpe seja uma definição do conceito que o caracteriza como ruptura institucional. No Twitter, Rafael fez um apanhado de autores e suas caracterizações de golpe. Nele vê-se que a coisa não é tão simples quanto parece e que muitos autores definem golpe de maneiras distintas. Por si só, isso já bastaria para enfraquecer o argumento que aponta a manutenção da ordem institucional como motivo da rejeição do termo. Mas continuemos a explorar a questão.

Como bom seguidor da Igreja Wittgensteiniana, sou inteiramente avesso a discutir palavras e termos. O padroeiro dizia: “Diga o que quiser, desde que isso não te impeça de ver como as coisas são”. Como as coisas são não é expressão de realismo, ninguém menos realista que Wittgenstein, é apenas um modo de manifestar uma precaução em relação aos encantos e feitiços da linguagem. Chamar ou não de golpe não deveria nos impedir de reconhecer que congressistas usaram a lei como instrumento para destituir uma presidente impopular, a fim de deter avanços de uma operação judicial que os ameaçava**. Não deveria também nos impedir de reconhecer que decretos de créditos suplementares são práticas comuns na administração pública brasileira e, mesmo que você não aceite essa objeção contra a denúnia que pesa sobre a presidenta, há que reconhecer que esse casuismo que passou estranhamente despercebido ante os olhos do STF, não deixa espaço a qualquer dúvida sobre as intenções daqueles que acusaram Dilma. E, paradoxalmente, nem mesmo Luis Eduardo nega as intenções dos congressistas. É o próprio Eduardo também quem crítica a visão dos que pensam a aplicação das leis em termos estritamente mecanicista, excluindo a dimensão de intencionalidade que lhe é própria. Se nós nos apegarmos ao conselho de levar em conta a dimensão de intencionalidade, como sugere Eduardo, fica evidente que chamar as ações de mero erro é inaceitável. Ninguém erra intencionalmente. Bem, na verdade poderíamos aceitar que as pessoas erram intencionalmente, mas um erro intencional revela o propósito a que ele serve. E é o propósito de usar leis segundo finalidades nada republicanas que caracteriza aquilo que muita gente chamada de golpe. André Singer preferiu um termo conciliador, golpe parlamentar. Talvez para conciliar a força do termo à objeção enunciado por Eduardo, sobre a manutenção da ordem institucional. De qualquer modo, a manutenção da ordem institucional é um argumento frágil para criticar o uso da palavra golpe. E no final do texto encontramos uma afirmação surpreendente:
(...) escapa à ordem constitucional quem organiza um governo buscando facilitar a salvação extra-judicial dos grandes operadores da corrupção.
A afirmação surprende porque ela contradiz o espírito da crítica ao uso da palavra golpe. Se quem organiza um governo buscando salvação extra-judicial escapa à ordem constitucional, por que não podemos falar em golpe? Apenas por que foi tudo feito de acordo com as leis? Luis Eduardo aqui sofre do mesmo viés positivista que julgava encontrar naqueles que acusam o golpe.

O erro. Outro ponto importante do texto é caracterização do impeachment como um erro. Ao meu ver essa questão é ainda mais frágil que a primeira. Tratar o impeachment como erro supõe além da diluição da complexidade do tema, uma redução de todo o emaranhado que o constitui a um simples ponto. Como se o impeachment fosse uma única ação (ou evento), passível de ser ou não qualificado como erro. Perde-se muita coisa ao tratar a questão assim, principalmente, como eu já indiquei, a dimensão de intencionalidade que nos leva a admitir quase inquestionavelmente o propósito dos congressistas (e do seu então presidente) ao pôr em marcha o processo de impeachment. Chamar de erro o processo permite que Eduardo critique os que consideram golpe o impeachment da presidente, alegando que eles não reconhecem “mediações interpretativas na aplicação de leis e normas”. É como se todas as possíveis interpretações tivessem que necessariamente situar-se numa escala gradativa entre o erro e o acerto. Quem denuncia o golpe não reconhece a escala, a despeito da preservação da ordem institucional. O que é inaceitável.
(...) parto do pressuposto de que isso não implica necessariamente a existência de uma ruptura político-institucional, passível de descrição como golpe de Estado. 
A pressuposição de que não houve ruptura institucional molda a própria noção de erro que ele apresenta. É como se ele tivesse dito: não houve ruptura institucional, então o impeachment só pode ser erro e não golpe. É argumento frágil porque a próprio noção de erro é subsidiária de outro aspecto questionável, a definição de golpe como ruptura da ordem institucional. E claro que definir como golpe o impeachment não implica “acusar todos aqueles que se posicionaram a favor do impeachment de golpistas”. Embora o ressentimento seja um dos afetos mais presentes em torno de toda essa novela, acusar alguém de qualquer coisa supõe não infrequentemente a defesa de uma hipótese sobre as intenções de quem quer que seja. Nesse caso, a acusação de colaborar com golpistas não é um corolário que se segue à defesa da ideia de golpe, é apenas a expressão de uma generalização tão comum quanto sintomática, não raras vezes acompanhada de um ressentimento cego e inexplicável, mas ela que pode ser usada como prova contra os que argumentam a favor do uso da palavra.

Não sendo positivistas, podemos reconhecer a intenção dos congressistas envolvidos no processo de impeachment e então fica difícil negar que o propósito que eles tinham em mente contaminou o processo e o conduziu pelas vias institucionais sem maiores vícios formais (embora os vícios abundassem). Mas não ser positivista não implica aceitar todas as mediações interpretativas, como se fossemos sujeitos constituídos a partir dos mesmos elementos, portanto perfeitamente capazes de encontrar soluções intermediárias para nossos dilemas, uma vez que estivéssemos dispostos a negociar e fazer política. Estou de acordo com a proposta republicana que Luis Eduardo Soares oferece, mas isso não implica aceitar a tese filosófica que parece fundamentá-la. “On est toujours l’irrationaliste de quelqu’un”, lembrava Bento Prado em seu livro Erro, ilusão e loucura (título mais que oportuno). É sempre tentador ver no outro um mero irracionalista ou, nesse caso, um positivista, alguém que insiste em negar os termos comuns da nossa construção simbólica. Acontece que nem sempre podemos restabelecer esse campo comum que poderia parecer a base para a estabelecimento de mediações interpretativas ou pelo menos o campo onde algo do gênero pode ser negociado. Como adverte o próprio Eduardo na seção 1 do texto, corresponde a uma ameaça mais preocupante que as diferenças inconciliáveis e irredutíveis o aplainamento de qualquer diferença por meio de um apelo a formas. Como se as formas determinassem o conteúdo. Como se a regra determinasse o caso. Isso não funcionou em filosofia (vide Kant, Wittgenstein, e tantos outros) e não funcionará tampouco em política. Vamos prestar atenção às formas, mas sem descuidar das intenções e das práticas. Se discordamos sobre sobre a avaliação das intenções dos atores envolvidos na coisa toda (os políticos, claro), bem, aceitemos que podem existir diferenças incontornáveis. Eu não tenho dúvidas.

** O golpe poderia então ser caracterizado assim: um “desvio de finalidade” de um recurso excepcional como o impeachment, em favor, como já se constatou, de interesses distintos aos alegados na acusação. No Twitter, Joaquim Barbosa fez algumas considerações sobre processos semelhantes que aconteceram na história americana, tentativas de impedir um presidente pretextando banalidades formais que eram mera cortina de fumaça pros reais interesses. Por preguiça, não localizei os tweets.

15 maio, 2016

O rei nu e o medo de ser idiota

No conto de Christian Andersen “A roupa nova do rei” é uma criança quem desmonta a farsa. Claro, só uma criança está livre do circo de vaidades que impede os adultos de denunciarem o que supostamente seria sua própria idiotice, anunciando que não enxergam a roupa do rei. Assim, a verdade vem à tona não por meio de alguma virtude analítica, mas em razão da espontaneidade infantil. Alguns elementos dessa fábula podem servir de parâmetros comparativos para entender o que tem acontecido no Brasil nos últimos anos. Há tempos alguns personagens vendem a imagem de que política brasileira é uma farsa de proporções semelhantes àquela relatada no conto. Não por outra razão Bolsonaro lidera a corrida presidencial entre os mais ricos. No Brasil vigora um bacharelismo sem bacharéis, resultado da mistura de uma escravidão nunca curada, de uma desigualdade que se internalizou atravessando todas as classes sociais e de um modelo educacional historicamente fracassado. Nossos bacharéis (com ou sem diploma) estão sempre dispostos a reverenciar autoridades, títulos, ideias, especialmente se estes vem de fora, já que segundo eles o Brasil não é capaz de produzir pensamento. Disso resulta a ideia de que o país vive uma farsa que apenas os corajoso e iluminados são capazes de ver. A farsa do comunismo, do bolivarianismo e outros que tais, dissimulados, vejam só, por uma imprensa conivente, omissa quando não cúmplice.

A situação é semelhante a da fábula, com algumas diferenças significativas. Portanto, trata-se também de desmontar uma farsa. Nesse caso, porém, não é a virtude espontânea da liberdade infantil que revela a realidade que a farsa esconde, mas uma inteligência autoproclamada. Por isso é preciso deixar de ser um idiota. E como ensinam certos gurus, para deixar de ser idiota é preciso ter em conta alguns elementos básicos. O agente aliciador desse discurso, reparem bem, é a construção de uma dicotomia entre ‘idiotas que não sabem o básico’ versus ‘pessoas que se dispuseram a conhecer o essencial para não participar da farsa’. Ora, quem gostaria de ser visto como um idiota enganado? Na fábula, o receio de revelar a falta de inteligência levou adultos a fingir o que só uma criança não podia esconder: que o rei estava nu. No Brasil, o debate público parece cada vez mais ameaçado pela intransigência de pessoas que creem seriamente que, se abrirem mãos de alguns ideias dogmaticamente adquiridas, serão coniventes e cúmplices de uma farsa.

Em ambos os casos, a instrumentalização do medo de parecer idiota permite que as pessoas sejam enganadas. O medo de ser idiota e o poder de pertencer a uma classe que pode acusar outros de serem idiotas são elementos de uma estratégia de sedução e aliciamento. Mas quem pode culpá-los, não é mesmo?

PS. O livro do torturador Carlos Alberto Ustra se chama "A verdade sufocada". É uma variação do mesmo princípio: supor uma verdade escondida revelada apenas por corajosos. Quem não quer ser o corajoso enunciador de uma verdade sufocada?

31 março, 2016

Os paradoxos da autonomia em nossas sociedades

Nós nascemos autônomos ou nós tornamos autônomos? É possível que alguém seja autônomo e aja por influência de forças exteriores? A autonomia então diz respeito a ações e não há estados ou disposições?

Em nossas sociedades, é perfeitamente aceitável que estejamos expostos ao agenciamento do desejo pela publicidade (consumir ou não é nossa escolha), mas não somos livres para casarmos com quem quisermos, para usar a substância que desejemos ou para nos matar. A própria noção de autonomia parece já ameaçada pelo agenciamento do desejo pela publicidade, pois a compreensão do sentido de uma escolha depende do que se quer (e também revela o que queremos). Não é segredo algum que a publicidade estuda e desenvolve ferramentas de agenciamento de desejo e visa promover o estímulo de necessidades. Há décadas a publicidade (e as relações públicas, ambas associadas ao gênio maligno de Edward Bernays) se deu conta de que não devia limitar-se a promover um produto, precisava também estimular o próprio desejo dos consumidores. Se há uma instituição bem servida de recursos e empenhada em moldar os nossos desejos em nome da produção e do consumo continuados (precisamos crescer, não é mesmo?), como é possível pensar que seus clientes sejam ainda assim livres e autônomos?

O que vem primeiro: o desejo ou a escolha? Liberdade e autonomia são conceitos que se recobrem, embora não coincidam. Compreendida como livre arbítrio (e não como necesssidade), a liberdade parece ainda presente em nossas ações. Temos sempre escolhas e opções. Mas somos autônomos? Isto é, somos nós mesmos quem governamos nossas ações? A cadeia de causas e de intenções nas quais nossas ações estão inscritas encontra em nós mesmos o seu último ponto de determinação ou somos apenas um dos elos numa longa cadeia que recua até fontes de determinação exteriores? Pois bem podemos ser livres para escolher, sem que a escolha tenha como fonte de determinação nós mesmos. Somos livres e heterônomos. Mas esse diagnóstico de heteronomia traz complicações, porque alguém poderia com justiça perguntar como o definimos ou identificamos? Talvez uma resposta a essa pergunta não importe e estejamos apenas seduzidos por nossa predileção por soluções e objetividades. Talvez o que importe seja manter uma certa desconfiança saudável: se nós somos os que desejamos, como é possível que sejamos ainda autônomos apesar do esforço de uma indústria inteiramente projetada para moldar nossos desejos? Como podemos falar de indivíduos autônomos face à massiva influência da publicidade nos nossos desejos, sem definir dogmaticamente a autonomia como uma espécie de núcleo inabalável de todo sujeito? Em outras palavras, a única maneira de negar o caráter manipulador da publicidade é afirmar dogmaticamente que, por sermos autônomos, não somos manipuláveis (quase uma petição de princípio). E que todo o sujeito que deseja X, o deseja porque disse SIM a um desejo — mesmo que ele tenha como fonte uma peça publicitária. Portanto, não seríamos manipulados porque somos autônomos pra dizer sim ou não aos desejos que nos são oferecidos (pela publicidade, por exemplo, embora a questão seja naturalmente mais ampla). Nada, absolutamente nada pode nos destituir da condição de sujeitos autônomos. Tudo é escolha nossa, tudo é escolha livre e autônoma. Vê-se que há muito de uma metafísica algo duvidosa na maneira como pensamos (se é que pensamos) a nossa relação com nossos desejos. Esse primado da autonomia elide todos as críticas dirigidas à publicidade e por isso uma tradição de pensamento (ligada em grande parte à Escola de Frankfurt) pareceu perder fôlego e relevância.

O que é essa autonomia essencial que ninguém perde mesmo quando submetido durante toda a sua vida à forte injunção ao consumo (mesmo quando essa injunção constitui os traços essenciais de sua personalidade e sociabilidade) mas que ninguém parece possuir quando deseja comprar drogas ou quando quer se matar?

21 março, 2016

As decisões de Moro e seus efeitos

Levaremos décadas até formar um consenso sobre o que está acontecendo neste período. Aqui, não faço senão sugerir dois elementos que me parecem imprescindíveis em qualquer explicação:
  1. A condução coerciva foi determinante para o recrudescimento das tensões num contexto já bastante difícil. Após a divulgação do conteúdo do depoimento de Lula, ficou evidente que a decisão, além de não ter nenhum amparo jurisprudencial, também não tinha qualquer justificativa, pois as perguntas indicavam um procedimento de praxe e não dúvidas importantes e urgentes que “justificariam” a medida extremada.
  2. A divulgação das interceptações das conversas entre Dilma e Lula tampouco revelou-se justificada.
Ainda que se admita que o ponto (2) é discutível, pois há quem tenha visto nas conversas o indicativo de um desvio de função, os dois pontos são bastantes para afirmar a relação de causalidade entre as decisões do juiz Sergio Moro e a instauração consequente de um ambiente político extremamente perigoso no país. Ou seja, mesmo sem considerar quais foram as intenções do juiz, a relação entre suas decisões e o efeito político me parece inegável. (É inegável que o pedido de prisão solicitado pelo MP-SP teve também um papel importante.)

Se abandonarmos o terreno do que é meramente causal com o objetivo de tentar formar uma ideia das intenções do juiz veremos que as justificativas para suas decisões são precárias e suscitam dúvidas razoáveis. No primeiro caso, ele alegou que agiu em nome da segurança do próprio Lula. No segundo, disse que a sociedade deve fiscalizar governantes que agem nas sombras. Mesmo longe das apreciações jurídicas as duas justificativas parecem sólidas como um pudim. Não vem ao caso apresentar as críticas jurídicas que a segunda decisão enfrentou — e não me lembro de ter lido quem justificasse a condução coerciva —, o que me interessa é fazer considerações quase banais, tendo apresentados as razões acima.

O juiz Sérgio Moro foi o responsável direto pelo agravamento da crise política no país (causalidade), suas decisões funcionaram como gatilhos, foram gotas d'água num copo cheio — isso por si só já seria suficiente para que elas devessem ter sido pesadas com uma dose extra de cautela. E embora suas intenções não possam ser afirmadas conclusivamente (intencionalidade), dada a ausência de justificativas sólidas para decisões drásticas, é razoável suspeitar delas. Na ausência de justificações sólidas para medidas extremadas num cenário admitidamente inflamável, é razoável suspeitar que suas decisões foram guiadas não pelas regras que deveriam orientar um processo judicial, mas tendo em vista os efeitos políticos que elas geraram. Com os fatos que temos disponíveis até agora, esses dois pontos são indispensáveis.

PS. Já que estamos no terreno do razoável, convém também perguntar se Moro não era capaz de adivinhar o efeito de suas medidas. Se foi uma surpresa para ele que suas decisões tivessem provocado o que efetivamente provocaram.

Atualização: Moro diz que divulgação de grampos de Dilma e Lula não teve propósito político. Cada um que tire suas conclusões.

20 fevereiro, 2016

Viagens de ônibus e banhos de mar

É lugar-comum dizer que os europeus tem uma vivência do clima e da natureza muita diferente da nossa. E é natural que seja assim. Quando o sol sai, eles se esticam em qualquer lugar por onde se estendam os raios de sol e é verdadeiramente uma benção. Pensando nisso, esses dias lembrei o quanto nós mesmo às vezes não damos conta da nossa relação com o mundo natural. (Pra não deixar de falar de Wittgenstein, como convém, não posso esquecer quantas vezes ele afirmou que o é mais importante em geral escapa à nossa percepção justamente porque está diante dos nossos olhos o tempo inteiro). Há muito tempo eu fiz cursinho pré-vestibular num curso no Relógio de São Pedro. E à noite. As aulas terminavam mais de 22h e eu tinha que ir à estação da Lapa pra voltar pra casa. Não raras vezes o ônibus demorava mais de uma hora pra chegar. Não havia smartphones, apenas as baratas e ratos da estação da Lapa e eventualmente algum providencial livro emprestado na biblioteca. De resto, sobravam somente o tédio e a monotonia com as quais qualquer passageiro de ônibus de Salvador estava acostumado. Mas não era só isso. A verdade é que apesar dessa espera rotineira, cansativa e da qual naturalmente eu me queixava, havia algo mais. Algo que, depois de tanto tempo, eu posso dizer: foi o que ficou. Vir da Lapa até a Boca do Rio, de noite, numa Salvador anterior à lamentável explosão de crescimento dos carros (pré-2007) era uma experiência diária de prazer e deslumbramento. O ônibus descia a Avenida Centenário e a partir do Shopping Barra vinha todo o percurso pela orla. Não havia engarrafamentos, nem muitos passageiros. Não apenas porque eram bons e saudosos tempos, mas também pelo horário. Às vezes circulávamos pra lá das 23h. Eu elegia o melhor assento — na janela, claro — e passava a viagem inteira sendo bombardeado pela brisa da orla acelerada pelo movimento do ônibus. Eu lhes digo isso como alguém que sabe, hoje, mais do que nunca, o prazer que pode ser fruir de uma simples nesga de sol. E eram assim todos os dias. O aburrimiento (como dizem os espanhóis: me veio na cabeça assim e eu deixo assim) das aulas, o cansaço da espera e do dia eram simplesmente apagados por aquele cheiro do mar que invadia meu peito com a violência do vento que corria forte, porque o motorista andava rápido pelas ruas vazias. O vento não era frio, tampouco era quente. Nenhuma das duas palavras encaixa. Ele era apenas agradável, reconfortante e tranquilizador. Sabe-se lá quantos pensamentos loucos passaram na minha cabeça nesse trajeto. Quantos planos, quantas ideias, quantos sonhos. O caso é que ali, sentado na janela do ônibus que vinha até a Boca do Rio eu me perdia em pensamentos embalado deliciosamente por aquela temperatura agradável e por aquele vento quase familiar.

Pensando nisso eu lembrei também de algo similar. Da nossa (ou da minha, se for o caso) relação com o mar. Bem, a universalidade das nossas pretensões (políticas, sociais, racionais) muito frequentemente apaga a constelação de diferenças que existem mesmo entre pessoas imensamente afins. Digo isso porque a nossa relação com a natureza marca um universo inteiro de experiências e relações que muita gente em outras partes do mundo não conhece ou não entende. Eu mesmo, durante bons anos (vá lá, talvez meses, a essa altura nada é preciso na minha memória), tive o costume de ir andar ou correr na praia. Ora pela manhã ou início da tarde, ora pela noite. E lembro de que, às vezes, quando o dia estava muito quente, andar, correr ou se exercitar na praia e em seguida tomar um banho no mar era uma experiência resignificadora. Eu lhes digo: eu me sentia outra pessoa, com outra disposição. É claro que o sol é a fonte principal de vitamina D — e a ausência dela no organismo pode causar indisposição até psicológica, mas não se trata de encontrar explicações. O fato é que aquele banho que cortava um calor forte mas perfeitamente suportável quando se gozava do privilégio de estar perto do mar e poder frequentá-lo me tornava uma outra pessoa. Do mesmo modo eu me sentia quando, anos depois, morando já no Garcia, nós íamos no final da tarde tomar banho na água quente no Porto da Barra. A água quente, o sol se pondo — eu até escrevi sobre o melhor evento que eu já presencei em Salvador, lá no Porto, o Espicha Verão — são elementos e testemunhas de que a natureza, para quem não se fecha nos artifícios do concreto, tem papel formativo na cabeça das pessoas. Ainda que só hoje eu possa dizer, reconhecer e expressar a dimensão dessas experiências em minha vida, dar-lhes o tamanho devido, já então elas tinham intuitivamente toda a importância que agora eu comunico. As viagens de ônibus e os o banhos de mar me ensinaram mais do que a maioria dos livros que eu tive que ler. É incrível a quantidade de coisas que a gente pode aprender longe das fontes oficiais de aprendizado, quando estamos prestando atenção.

PS. Escrevi pelo menos mais dois outros posts sobre viagens de ônibus. Um perfeitamente legível e até recomendável, e outro que pode ser lido depois de um esforço para superar os primeiros parágrafos, mas que talvez tenha suas compensações.

27 janeiro, 2016

Duas maneiras de ver Birth


Recomendo que vocês o assistam antes de ler o texto, pois o filme está descrito quase integralmente na postagem.

Birth foi dirigido por Jonathan Glazer, diretor de Under the Skin e de Sexy beast, filme que muita gente tem em alta conta. O filme me encantou porque apresenta uma clara tensão filosófica. Bem, se não filosófica, ao menos algo que se deixa ver desse modo. Após assisti-lo pensei que havia dois modos gerais de compreendê-lo.

O primeiro modo é o mais convencional. Trata-se de aceitar a explicação proposta no filme. O menino, que supostamente seria a reencarnação de Sean (marido de Anna), na verdade era apenas alguém que encontrou as cartas de Clara, sua amante. A partir do conteúdo das cartas, o menino, em alguma espécie de surto psicótico, decidiu fazer-se passar pela reencarnação de Sean. Esse modo de compreender o filme, no entanto, está apoiado em premissas aparentemente frágeis. Essa perspectiva se apresenta quando Clara, amante de Sean, descobre que as cartas que ela enterrou no parque haviam sido roubadas. Clara então pressiona o garoto, que também se chama Sean e que nasceu no ano em que Sean morreu, a confessar que ele roubou as cartas. O que há de sintomático aparece nesse diálogo:
Sean — Quem é você?
Clara — Pensei que você tivesse dito que era o Sean. Sou sua amante (lover)
Sean — Anna é minha amante.
Clara — Anna é sua esposa. Eu sou sua amante.
Clara — Se você fosse Sean, e eu meio que tinha esperança que fosse, você teria vindo a mim primeiro.
Além do roubo das cartas, o que restaura a normalidade das nossas crenças (que não costumam abranger a reencarnação) é a hipótese apresentada por Clara de que se o garoto fosse mesmo Sean ele a teria procurado primeiro, pois Sean a amava, conforme demonstravam as cartas trazidas como prova de que ele a amava mais, apesar dele não poder deixar sua esposa, Anna. No diálogo, no entanto, Clara diz: “eu sou sua amante” — mesmo que supostamente não acredite no que Sean diz. Sem perceber, ela se dirige ao garoto como se ele fosse Sean, seu amante. Clara está obviamente defendendo sua narrativa. Uma narrativa na qual ela é a mais amada, apesar de Sean não haver deixado sua mulher. Sob essa perspectiva, parece razoável que ela esperasse ser procurada primeiro — que ela esperasse ser reconhecida. A gente procura primeiro quem é mais importante e a reação da suposta reencarnação de Sean não se ajustava ao seu próprio modo de ver as coisas. Mas essa é uma hipótese, como outra qualquer. O que lhe dá força é a incapacidade do garoto de conciliar o amor por Anna e a constatação de Sean tinha uma amante. Mas essa dificuldade é própria a um garoto. Secretamente, nem mesmo Clara está inteiramente convencida de sua hipótese.

Vejamos então o outro modo. O filme elabora muito bem a perplexidade de todos diante da situação. A atuação de Nicole Kidman é fantástica e a do garoto, Cameron Bright, não menos soberba. Todos os parentes de Anna se mostram quase paralisados diante da situação. A reencarnação, naturalmente, quebra os nossos padrões de ação e inevitavelmente conduz a uma reavaliação de valores e crenças, se a aceitarmos. Sob essa perspectiva, o filme narra a gradativa e não sem solavancos sedimentação da crença de que o garoto trata-se mesmo de Sean na cabeça de Anna — e também de seus parentes. O ápice dessa trama é a desistência do noivado que Anna acabara de celebrar logo no início do filme.

O garoto não apenas oferece informações que dificilmente imaginaríamos contidas nas cartas a que teve acesso, mas também demonstra uma convicção e uma postura eloquentes e persuasivas. Não se trata, obviamente, de defender uma inferência ao invés de outra. O que me fascina no filme não é que ele ofereça mais elementos para que aceitemos a reencarnação, de sorte que poderíamos facilmente deduzir ou inferi-la a partir do que nos foi dado. O que fascina é justamente que não haja um propósito de responder à incerteza que nos é apresentada. Essa tensão é aquilo que eu considero filosófica. Pois diante disso vê-se que o tema, a reencarnação, não é mais que um aspecto secundário. O filme trata da construção de narrativas e dos limites impostos por crenças gerais — o que Wittgenstein chama de sistema de crenças — às alterações possíveis de uma narrativa. O propósito do filme não é responder, senão tensionar cada vez mais a questão que apresenta. Se a solução do filme não basta para que aceitemos a explicação proposta (a restauração da normalidade), fica então mais evidente seu pendor filosófico e sua qualidade artística.

Na postagem anterior, quando apenas mencionei o filme e sugeri a vocês que o assistissem, disse que ele realizava melhor que meu artigo o propósito de provocar uma reflexão. No meu artigo ¿Hemos ido a la Luna? a temática é muito semelhante, embora, claro, eu não me contenha em provocar. A questão é saber: se as nossas crenças fundamentais forem ameaçadas, o que fazemos? Para quem ou ao que apelamos? Podemos apelar a razões quando os próprios alicerces de interrogações ou afirmações racionais se veem ameaçados?

PS. A primeira cena do filme, o diálogo (ou o monólogo) no qual se ouve apenas a voz de Sean (o marido, professor de física aparentemente avesso a toda sorte de explicações paranormais), é uma peça importante nesse quebra-cabeças.

19 janeiro, 2016

Preconceitos intelectuais

Umberto Eco é respeitado o suficiente para nos oferecer um tipo de honestidade rara, a de confessar o papel dos livros não lidos no quadro de ideias dos intelectuais. Ler essa confissão é algo quase libertador, em especial para alguém que como eu se vê incapaz de devorar livros com a voracidade com que tantos o fazem, para quem passa de um livro a outro numa morosidade embaraçosa. Quando não simplesmente os abandona parcialmente lidos.

Acho que há também outra confissão catártica a fazer: devemos admitir os preconceitos intelectuais. Bem, a verdade é que talvez essa confissão seja só minha, não tenho pretensão de que ela seja um sintoma geral. Tampouco creio que se trata de uma questão moral. Preconceitos podem tem papel epistêmico, como já escrevi há muito tempo. Portanto, não acho que ter preconceitos intelectuais seja o sinal de qualquer tipo de característica repreensível. Antes, tê-los testemunha o papel que desempenha a opinião de amigos, professores, parentes na organização das nossas ideias. Não raras vezes essas opiniões se cristalizam e passam a funcionar como uma paradigma pelo qual regulamos e/ou avaliamos outras questões. Mas vejamos um caso particular para entender como isso funciona.

É inegável minha admiração por Freud — e pela psicanálise, consequentemente. Mas devo confessar que sempre tive um preconceito quase osmoticamente adquirido por Lacan. (Também poderia incluir aí Jung, mas vamos nos ater a Lacan). É bem verdade que a escrita de Lacan não favorece, especialmente se comparada ao brilho sem par da prosa freudiana. Mas é verdade também que uma certa má vontade atuava sobre minhas ações. No entanto, uma série de circunstâncias me levaram a relativizar (maledictum) meu preconceito. Influências (nova) de toda sorte. Por exemplo, ao me deparar com a análise de Safatle sobre relação estabelecida por Lacan entre o sujeito cartesiano e o sujeito do inconsciente — análise que mobiliza até os argumentos analíticos de Hintikka como instrumento — tornou-se difícil recusar o interesse pelo tema mediante um simples preconceito. E o problema do preconceito é esse: ele é dogmático e não argumentativo. Safatle estudou Lacan no Mestrado e no Doutorado. No Mestrado, foi orientado por Bento Prado Junior, uma figura que não inspira senão respeito. Difícil manter uma dogmática recusa de Lacan neste cenário.

As novas influências sem dúvida dissiparam meu preconceito contra Lacan, mas essa confissão importa justamente por seu carácter profilático. Quer dizer, parece necessária uma reavaliação sistemática dos nossos “valores intelectuais” a fim de evitar que preconceitos enraizados e quase desconhecidos nos impeçam de desfrutar autores que talvez sejam capazes de oferecer muito mais do que supúnhamos. Mesmo que ao final encontremos diferenças radicais, o diálogo com essas diferenças pode ter papel determinante e insubstituível. Desfazer-me de preconceitos sincera e honestamente assimilados tem me feito um enorme bem intelectual. E antes disso eu nem havia me dado conta de que minhas relação com certos autores e certas ideias eram essas: puro preconceito.

PS. A construção do pensamento lacaniano se dá não sem diálogos interessantíssimos com figuras como Meyerson e o próprio Heidegger. Sua ênfase na desmedicalização interessa qualquer um que se sinta atraído pela historicidade e normatividade das categorias médicas com as quais a experiência da saúde mental tem sido manejadas. Sobretudo se podemos adivinhar os efeitos políticos e sociais da observância estrita dessas categorias patológicas.

15 janeiro, 2016

O louco fala sozinho

Li espantado o que Maria Rita Kehl chama de reconhecimento da lei. O reconhecimento de que há um limite para o gozo. Segundo ela, em todas as sociedades humanas essa renúncia toma a forma da interdição do incesto. Não sei como é possível aferir essa constatação, no mínimo, curiosa. Nem de onde vem a legitimidade dessa lei não codificada — dos próprios costumes? mas tantos costumes cairam pelo caminho. Mas eu acho existe outra lei semelhante, outra interdição: não falar alto sozinho ou simplesmente não falar sozinho.

Talvez por isso a gente escreva, ensine. Para falar aos outros o que não podemos falar sozinhos. Dizer sozinhos. Talvez seja a essa a função do diálogo. Talvez por isso os loucos, em sua liberdade radical, falem sozinhos. Definitivamente por isso eu gosto do monólogo inicial de Whatever works:


PS. Claro que eu não que eu gosto do cientificismo e do nihilismo de Boris, mas o personagem do Larry David e o roteiro do Woody Allen são engraçadíssimo. É um narcisista ferido pela sua incapacidade de ver sentido nos complexos de informações que ele coleciona. Imperdível!

30 dezembro, 2015

Salvador, Lisboa e o PDDU



Salvador é muito parecida com Lisboa, inclusive topograficamente. Lisboa é uma cidade cheia de ladeiras, mas que ainda mantém bondinhos circulando, além de ter acrescentado ao sistema de transporte veículos mais modernos, VLT, como em Berlim e Barcelona. Em Salvador nós já tivemos bondinhos, mas eles foram asfaltados no final dos anos 60 pelo ímpeto modernizante do então prefeito designado pela ditadura, ACM (ele mesmo, o avô). No centro ainda é possível ver os fósseis dos trilhos, salvo engano, na Carlos Gomes e na Avenida Sete, perto da Praça Castro Alves. Sem bondes, Salvador agora é moderna. Na certa porque Lisboa é que é retrógrada. Um dia quando olharmos pra trás e contemplarmos a bela obra que o prefeito ACM (o Neto) deixou para os soteropolitanos — e o aplauso caloroso com que muita gente recebeu os paralelepípedos que ele pintou — vamos ter a mesma impressão de que fomos enganados. Neto e a equipe de paulistas que elaborou o projeto do PDDU (isso mesmo, o prefeito chamou uma equipe de São Paulo para elaborar o projeto, provavelmente porque não tem gente competente na Bahia pra fazer isso, certo?) parecem mesmo preocupados é em fazer crescer imensas paredes de concreto na cidade. Quando os paredões estiverem impedindo a visão dos pontos centrais da Cidade Baixa vocês me contam o que acharam dessa (como é mesmo a palavra?)... gestão.

Os dois mandatos de João Henrique foram simplesmente trágicos. Mas o maior dano que eles causaram à cidade, por incrível que pareça, foi ter incapacitado a maioria das pessoas de enxergar o que há de nocivo, conivente ou simplesmente paliativo nas ações do prefeito ACM Neto. Frente a tamanha incompetência e descalabro, até ACM Neto parece uma Ada Colau ou uma Manuela Carmena. Não que exista uma alternativa política em Salvador ao compromisso dogmático e irrefletido com a verticalização da cidade e ao descaso com o papel social do uso do solo. O PT no governo teria feito o mesmo, pois o objetivo dessas políticas, no fundo, não é o de expandir direitos, promover a cidadania dos moradores da cidade, tornar suas vidas mais confortáveis e incluí-los na dinâmica de crescimento da cidade. O objetivo dessas políticas parece o mesmo de sempre: favorecer empresários da construção civis e de outros setores — empresários que coincidentemente doaram (investiram?) grandes quantias para campanhas eleitorais de todos os partidos — enquanto as migalhas que caem da mesa onde é servido o banquete são alardeadas como enormes benefícios feitos em nome do povo. Não é em nome do povo e da modernização da cidade que o Mercado do Peixe foi posto abaixo?


Procurem nas fotos do centro de Lisboa prédio novos. Encontraram? Agora procure prédios novos que tenham mais de cinco andares. Encontraram? Se não encontrou é porque é difícil mesmo, são poucos e quase inexistentes. Há muitos telhados e construções antigas. Os prédios novos não estão no centro, porque o centro foi preservado. E a administração pública soube ordenar o espaço público de maneira a controlar as áreas de crescimento e determinar os espaços nos quais o garabarito de construção poderia exceder o limite do centro. A verticalização controlada é um indicador de planejamento e estratégia de crescimento. É um aspecto que, nas cidades planejadas, está consorciado também ao planejamento do transporte público, de sorte que as cidades diminuem a dependência do uso de carros e desafoguem o trânsito induzido pelo adensamento (quanto mais prédios e espaço comercial e/ou residencial, mais carros e mais trânsito). Mesmo a Parelela, uma região de Salvador que atabalhoadamente se transformou num foco de verticalização já não pode cumprir o papel estratégico de ser um canal de escoamento do potencial urbano, porque ela já está saturada. Mais prédios ali significará ainda maiores congestionamentos. O poder público precisa ser responsável, definir e criar condições para que novas áreas cumpram essa função. Além de organizar um sistema de transporte público de modo a substituir a inviável aposta num sistema privado de locomoção (carros, essa paixão nacional). Mas isso não pode acontecer enquanto a função da administração pública for simplesmente designar à iniciativa privada o papel de indutor e gerente do crescimento da cidade (a panaceia liberal: o mercado e a mão invisível resolvem tudo, resta saber onde esse conto de fadas é realidade). Como bem lembrava FHC (vejam só) numa entrevista à Piauí, o mercado sabe criar lucro, não valores. E a cidade precisa de valores. Salvador é uma forma de vida (com reflexos antropológicos, arquitetônicos, geográficos, culturais, musicais, etc.) que precisa ser preservada.

17 dezembro, 2015

Palpite pra eleição espanhola

Ontem pensei em deixar aqui registrado meu palpite pra eleição na Espanha. A votação será no domingo, dia 20. As pesquisas apontavam que o Partido Popular e o Ciudadanos juntos eram capazes de formar maioria. O PP aplicou a austeridade exemplarmente. Cortou tudo e em todos os lugares, mas não conseguiu tirar a Espanha de uma situação econômica delicada, apesar das melhoras recentes. As melhoras se devem mais à mudança do ambiente econômico europeu que aos efeitos salutares da austeridade, dizem alguns economistas. Apesar disso, o PP segue liderando as pesquisas de intenções de votos. As explicações se repetem: os conservadores são mais assíduos, dizem alguns — mas isso pode explicar resultado de um eleição, não de pesquisas. Há que considerar que o PP é um pouco como o nosso PP, herdeiro das tradições ditadoriais (franquista), e tem seus simpatizantes. E que ademais a Espanha é um país que ainda enfrenta problemas de natalidade e que tem uma população envelhecida (o que provoca, por consequência, problemas na manutenção no sistema de previdência social).

Bem, o caso é que o PP já faz parte do moldura política espanhola. O que surpreende é o Ciudadanos. Meu palpite para o domingo seria: acho que o Ciudadanos veio para renovar o ar viciado do PP, para emprestar um quê de novidade e juventude ao mesmo, ao de sempre. Isto é, Ciudadanos é um partido novo, com rostos novos, sem máculas (o PP está envolvido em inúmeros casos de corrupção), mais disposto a engajar-se em debates caros à juventude e às pessoas de mentalidade mais aberta (apesar de algumas cagadas, como essa). Assim, parte do eleitorado desencantado com o PP teria a opção de uma mudança sem muitas mudanças. O sonho de todo eleitor ordinário é promover uma mudança sem mudar absolutamente nada (o Brasil da "Carta ao povo brasileiro" que o diga, não é mesmo?). E o Ciudadanos é a mais perfeita representação desse projeto. É o PP rejuvenecido, penso eu. (Há que reconhecer que a figura do Alberto Rivera é mais simpática e mais aberta que qualquer uma das figuras do PP). A meu ver a posição do partido nas pesquisas eleitorais se deve não apenas ao desencanto e desgaste natural do PP, mas também à velha estratégia de orquestração do medo. No Brasil é assustador o número de pessoas que usam a luta contra o comunismo como argumento para apoiar discursos, partidos e figuras de caráter duvidoso. Na Espanha não é diferente. Quando é preciso inspirar medo em crianças o “bicho da cara preta” é uma figura empregada com frequência. Quando é preciso inspirar medo em adultos,  “bolivarianismo”, “comunismo” são as melhores opções. Também na Espanha a estratégia do medo foi usada à exaustão contra Podemos, especialmente porque parte da diretoria do partido trabalhou com governos latino-americanos e, principalmente, com Hugo Chavez. Medo, vontade de mudança (pero no mucho), desencanto, tudo isso parece contribuir para a ascensão do Ciudadanos e para a queda do Podemos registrada em pesquisas anteriores. As pesquisas na Espanha não são tão confiáveis. Não que as do Brasil sejam, mas me parece que as daqui flutuam demasiado. No entanto, nos últimos dias, quando se encerra o período em que é permitido fazer pesquisas, o quadro parece ter mudado. Podemos reapareceu como terceira força e o Ciudadanos caiu. Somado a este novo cenário, uma declaração recente de Alberto Rivera alterou meu palpite, o líder do Ciudadanos disse que “apoyar al PP o al PSOE tras el 20-D sería defraudar a la gente”.



Se Rivera estiver falando sério, o PP está em maus lençóis, porque sem maioria absoluta ele precisará do apoio de outros partidos se quiser continuar governando. O cenário, portanto, favorece Podemos. A coisa toda está aberta e não descarto nem mesmo, a julgar pelo enfrentamento de Podemos e Ciudadanos, que eles negociem um apoio para um eventual governo de Podemos — com ajuda do PSOE. Podemos apoiou o PSOE em muitas prefeituras da Espanha, embora não tenha participado em nenhuma delas. Do mesmo modo, PSOE ajudou a transformar Manuela Carmena em prefeita de Madrid — para desgosto de Esperanza Aguirre, do PP. Repito, a eleição continua aberta e acho que os palpites são ainda mais arriscados na política espanhola, sem o respaldo da sondagem constante das pesquisas, como acontece no Brasil, mas o cenário parece animador para Podemos e sobretudo para quem se ver livre do abominável Partido Popular. Como dizem os espanhóis: a ver!

14 dezembro, 2015

Birth

Escrevi um artigo tentando destacar um aspecto da obra de Wittgenstein. O artigo se chama ¿Hemos ido a la Luna?, mas Birth é muito mais feliz no intuito de provocar uma reflexão sobre os mesmos aspectos (embora, naturalmente, poucos tenham percebido o alcance do seu argumento). Aliás, o diretor Jonathan Glazer só fez filmaço. Lendo os comentários dos "especialistas" no Rottentomatos, impressiona que as pessoas se sintam a vontade para fazer juízos sobre o filme sem nem mesmo se perguntar se de fato o entenderam. Autocrítica é importante também para os críticos.

Outro dia escreverei um post chamado Duas maneiras de ver Birth. Recomendo que vocês assistam o filme antes de ver o vídeo abaixo ou de ler o post que escreverei.


03 dezembro, 2015

A cultura da influência

O post também poderia se chamar o paradoxo dos especialistas. Em filosofia, os especialistas, pesquisadores especializados em autores e/ou temas em certos autores, são muito importantes. Eles acabam estabelecendo leituras, quase como doutrinas ou jurisprudências. E naturalmente o recurso à leitura de especialistas acaba virando um aspecto importante da própria pesquisa acadêmica.

Quando o recurso ao especialista é usado como um dos critério para avaliação de um trabalho filosófico (exégetico ou não) ele se transforma numa espécie de chancela que corrobora certas interpretações. Naturalmente, como há muitas perspectivas, há diferentes normas e critérios que se ajustam em linhas interpretativas. Tudo isso funciona de maneira a formar uma colcha de retalhos: a comunidade filosófica abriga uma série de linhas e o trabalho avaliado tem tanto mais força quanto mais ele é capaz de dar suporte à sua leitura não apenas por meio do autor estudado, mas também segundo as linhas disponíveis. Vejamos um caso em concreto. Através desse recurso seria possível avaliar — mesmo não sendo especialista numa certa fase do pensamento de um filósofo — se um trabalho sobre Capitalismo e Esquizofrenia, de Deleuze, é capaz de mobilizar apropriadamente a obra em questão, mas também as leituras disponíveis nas linhas de interpretação consolidadas. (O exemplo não é dos melhores, escolhi Deleuze para ter que citar Wittgenstein ou Heidegger). Porque, naturalmente, há linhas diferentes, de acordo com perspectivas e ênfases diferentes. Contudo, ênfases diferentes podem levar um filósofo de crítico mordaz do antisemitismo a mentor intelectual de políticas antisemitas, como todos sabem. Claro que este último exemplo é um caso extremado, mas a escolha foi deliberada. O caso foi escolhido para destacar um aspecto. Há, no entanto, diferenças em menor grau.

O problema é: argumentativamente, isso não raras vezes funciona como uma garantia que pretende justificar a inferência que nos leva da constatação de uma diferença interpretativa (com a qual não concordamos) à conclusão de que a interpretação carece de força. "Eu confio nos especialistas". Mas há especialistas dizendo toda sorte de coisa. Confiar em consensos nem sempre é um bom argumento (embora em certos casos possa ser uma garantia suficiente). Portanto, a confiança ela mesma nem sempre substitui o argumento do especialista. E então surge o paradoxo às vezes comum. Quando usamos o confronto com uma bibliografia como critério, inevitável e até inconscientemente nós selecionamos uma leitura e a aceitamos como padrão. Se você usa uma certa leitura como critério, como padrão, obviamente economiza tempo (racionaliza tempo) ao cobrir uma área mais extensa do que seu campo de atuação ou interesse acreditando que outros já o fizeram. Ou simplesmente acreditando nos outros. O problema da autoridade não é exatamente simples, sobretudo quando se considera certas discussões sugeridas nos debate sobre teoria da argumentação — e em especial se considerarmos o vínculo que (acredito eu) essas discussões tem com a lógica paraconsistente e sua aplicação (ou seja, com as discussões a respeito do que se pode fazer quando se enfrentam contradições). O caso é que da aplicação desse critério, se o aceitarmos como critério, só pode resultar, no melhor dos casos, em dissidências controladas, nunca rupturas completas. A confiança no especialista e nas suas ideias, consagradas ao longo do tempo, só pode gerar o efeito psicológico da desconfiança em que não é. Ou pelo menos em quem não é especialita tal como "o especialista" ou "os especialistas". E esse é o caráter paralisante do que deveria ser um critério de seleção do melhor trabalho. Para o pensamento, há um perigoso componente de esterilidade quando o que era pra ser uma ferramenta auxiliar se converte num farol da atividade intelectual.

Curioso é que, creio, isso tem muito a ver com a desconfiança que alguns autores manifestaram contra a influência intelectual, autores como Nietzsche (contam, não sei) e Wittgenstein.

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É inexequível dar conta de tudo que já foi dito sobre um autor. Mas a pretensão de dar conta de uma bibliografia que, nos tempos de hoje, cresce a uma velocidade assustadora, só pode ser um grande entrave à própria capacidade criativa de quem se propõe a refletir. A força reflexiva fica engessada pela necessidade de enfrentar leituras já estabelecidas. A necessidade de definir critérios de rigor (aceitação de leituras, procedimento, métodos consagrados) que nos torne capazes de estabelecer uma comunidade (como a ciência pretensamente tem, embora a ciência seja mais fragmentária do que supõem os que a veem de fora) na qual o diálogo seja facilitador do "desenvolvimento de respostas" (outro contrabando da ciência) acaba por sufocar o próprio ânimo do pensamento, que exige, sobretudo, liberdade. A ideia de método, tal como a ideia de ordem, nos enfeitiçou. Acho que é preciso quebrar esse encanto.

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Toda comunidade (intelectual ou não) tem um pouco de clube. O recurso a especialistas é uma maneira dos outros membros da comunidade filosófica entenderem que o sujeito deu conta de uma série de problemas que podem ser encontrados no texto de determinado filósofo. Mas ele supõe que os problemas e consequências implicadas pelo pensamento de um certo filósofo já estão estabelecidos. O mais difícil de ver é o que está sempre diante dos nossos olhos.

25 novembro, 2015

Intimidação, democracia e argumentação


Democracia exige pluralidade de ideias. Exige argumento, exige debate, mas exige sobretudo vontade — algo que, na sua melhor expressão, produz generosidade (como nos lembrava Nietzsche). Exige não apenas produção, mas também circulação de ideias. Portanto, nada mais danoso à democracia do que a intimidação. Aliás, esse é o sentido da ideia e da luta pela liberdade de expressão. Que ela tenha um aspecto turvo em alguns pontos, sobre se devemos permitir que circulem certos tipos de discurso, não tira a luminosidade da proposta: deixemos que as pessoas produzam e circulem ideias a fim de que as outras possam repensar sua própria experiência (individual, coletiva, social, sexual etc.) à luz do que acharem conveniente, e a gente discute depois o que fazer sobre nossos acordos.

Acontece que esse pontos turvos não são desimportantes, porque não poucas vezes a liberdade foi usada para ferir, controlar, escravizar — a liberdade produziu vítimas (o que me lembra Camus: “Mas os campos de escravos sob a flâmula da liberdade, os massacres justificados pelo amor ao homem pelo desejo de super-humanidade anuviam, em certo sentido, o julgamento. No momento em que o crime se enfei­ta com os despojos da inocência, por uma curiosa inversão peculiar ao nosso tempo, a própria inocência é intimada a justificar-se” — sempre atual). Surgiram então vozes que muito justamente reivindicavam a presença no debate público. Presença importantíssima, uma vez reconhecido que grupos inteiros da sociedade continuam excluídos ou subrepresentados na composição de suas vozes. E continuam oprimidos. No entanto, é temerário, embora muito comum, crer que a opressão que ainda persiste será derrotada por uma ocupação topológica do espaço público, por uma espécie de conquista de território ocupado. E aí entra a intimidação. Pois o medo de produzir vítimas (ou o cuidado para não permitir isso) deu lugar ao poder vigilante que intimida o opressor [1]. E o caráter turvo de todo o cenário se complexificou com a reação que algumas pessoas tiveram ao se sentirem ameaças pela presença dessas novas vozes. Elas reagiram empregando os estereótipos geralmente utilizados para controlar essas vozes. O resultado foi aquela velha fórmula: “não sou X, mas ...”. O espaço público entendido territorialmente ficou assim ocupado de forma significativa não só pelas novas vozes, instaladas precária e recentemente neste espaço, mas também por antigas vozes ressentidas que denunciam o que enxergam como uma ameaça. E a classe heterogênea de pessoas que não fazem parte dos dois grupos se viu entre um fogo cruzado [1]. Mas acontece que as pessoas que não se sentem ameaçadas podem ter críticas a fazer à prática ou à teoria que orienta essas novas vozes, podem ter diferenças [1]. Aliás, chamo de novas vozes até pra dar uma dimensão da pluralidade interna dos próprios movimentos, pra que não seja necessário instanciar o caso. Dentro do marco democrático da liberdade de expressão, uma crítica pode ser uma ocasião para refletirmos sobre nossas próprias práticas e teorias. Ou pode ser apenas um mal entendido, pode ser muitas coisas. Entretanto, pra que possamos avaliar o que as pessoas dizem, elas tem que estar a vontade para falar. Um mal professor não é apenas um professor que não sabe que não é um depósito de conhecimento a ser despejado sobre os alunos, é também aquele que não cria as condições necessárias para o questionamento, para a reflexão — e para a expressão. O professor, penso eu, deve criar o ambiente necessário para que a liberdade da sala da aula prevaleça sobre a reação natural do aluno de se intimidar diante da autoridade do professor. Só assim podemos sentir o efeito real da liberdade de pensamento, seja na educação, seja na política.

A intimidação nasce da autoridade semelhante a do professor em sala de aula. Mas ela é até mais intimidadora. Porque a autoridade do professor é essencialmente epistêmica, isto é, relativa ao conhecimento. A autoridade que se mobiliza como meio de intimidação é moral. Não há nada mais intimidador, para quem compreende a dimensão danosa da liberdade, do que ser acusado de ser opressor. Por questão de justiça é preciso destacar que apenas uma parte das novas vozes usa a tática da intimidação, mas os danos são reais — e em especial junto às pessoas que certamente apoiam suas ideias. Os verdadeiros alvos dessas críticas não se preocupam com elas, porque eles nem reconhecem a “autoridade” dessas vozes. Eles continuam a pronunciar o “não sou X, mas ...” porque eles não admitem que sejam X. A luta fica assim engessada entre alguém que não admite reconhecer-se como X, tenha dito ou feito o que for, e outro que vê em todo o fazer e dizer alheio um potencial dano e um potencial opressor (e também porque já compreendeu a dinâmica de poder embutida na capacidade de apontar opressores). Sendo assim, a intimidação já é um reconhecimento da auteridade, já é um “claro que não posso ser fazer parte dessa voz, claro que essa voz tem uma autoridade”. É certo que também um professor tem uma autoridade, mas a função mesma do professor é subordinar a autoridade àquilo que é o mais importante: o aprendizado. Do mesmo modo, na democracia, a autoridade das novas vozes é inegável. Mas ela deve estar subordinada à nossa crença mais fundamental no papel da produção e circulação da mais rica diversidade de ideias. E esta autoridade não pode nem deve ser instrumentalizada em nome da constituição de poderes de execução e legislação de tribunais morais. Não deve constranger o exercício da liberdade de pensamento — manipulando arbitrariamente o campo do repreensível e do censurável [2].

Podemos acreditar que essa intimidação beneficia alguém, na medida em que evitaria novos oprimidos e novos danos, mas a única vítima nesse caso é a democracia. Até porque, vigilância (e justiça) é algo diferente de intimidação.

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[1] O caráter turvo da questão repousa justamente sobre o fato de que se pode questionar seja o pertencimento da pessoa que faz uma crítica ao grupo dos “não ameaçados”, seja a autoridade de quem expõe uma crítica — supondo ou definindo critérios para aferir essa autoridade. E os abusos que disso resultam dependem da capacidade e da autoridade dos que podem dizer quem é o opressor. E nesse pântano no qual garantias argumentativas funcionam como axiomas, o curto circuito vira a própria regra de funcionamento do discurso na medida em que favorece a criação do poder que quase arbitrariamente faz os críticos transitarem do grupo de pessoas “não ameaçadas que tem uma crítica” ao grupo das “pessoas ameaçadas” que dissimulam sua ameaça. E elas então passam ao mesmo grupo das pessoas que dizem “não sou X, mas ...”. Só que são acusadas de mascarar o caráter opressivo das suas palavras por meio de uma sofisticação que os que dizem simplesmente “não sou X, mas …” não empregam. Assim nós entramos no redemoinho das intenções — e dos tribunais que se constituem para julgá-las. A estratégia da denúncia de intenções pode ser resumida assim: ela consiste na acusação de que o outro esconde seus desejos e interesses. Daí a necessidade de fazê-los aparecer na esfera pública na forma de denúncia, de acusação. O desejo e o interesse para quem os sentem são coisas dadas, mas para os outros são sempre expressões, daí o caráter pantanoso da discussão. O desejo e o interesse nem sempre se manifestam com a objetividade de um argumento. O que não significa que não se possa discutir intenções, mas não me parece razoável fazer dessa estratégia uma forma privilegiada de argumentação, porque ela depende essencialmente de um tribunal moral. O tribunal naturalmente não se limita a julgar os casos em que a expressão das intenções é clara, ele também se incumbe da responsabilidade de definir os critérios das expressões e interesses, portanto, ele se constitui também como poder de falar do desejo e do interesse alheio.

[2] Claro que ninguém acredita estar manipulando arbitrariamente os limites desses campos, todo mundo se crê justificado em afirmar o que quer que seja e em acusar quem quer que seja. E é a partir dessa tensão que se engendra o poder que nós devemos discutir no sentido de evitar o redemoinho das intenções, um caminho que não costuma nos levar a acordos. Há uma tensão aí que não apenas não precisa ser resolvida, mas que não pode ser resolvida. E não à toa Márcia Tiburi escreveu um livro sobre um caso limite que não poucas vezes é tratado como regra: Como conversar com um fascista.

PS. Ainda há muito a ser dito sobre o tema, mas por ora fico por aqui, para não me estender em demasiado.
PPS. Eu criei esse blog como um exercício de expressão, desde então são quase 400 posts. Agora decidi que ele deve se tornar um exercício sistemático de expressão, embora ainda relax, de modo que tentarei escrever pelo menos um post por semana, preferencialmente às quartas. O que não significa que não possa publicar também nos outros dias.

19 novembro, 2015

Passarinho: Anderson Bernardes Carneiro (Birdie)

Eu e o cinema nos reconciliamos. Por causas desconhecidas eu andei algum tempo sem poder assistir filmes. Simplesmente não conseguia. Talvez vocês saibam que tenho uma categoria sobre cinema aqui no blog e já confessei que filmes me ajudam quando é preciso falar de filosofia.

Hoje eu quero comentar uma espécie de documentário, um curta. Nem mesmo sei se deveria denominá-lo cinema, pois eu o conheci já na web e não sei se o formato cinema se aplica também a formatos dirigidos diretamente a web (e nem sei se este é o caso). Portanto, saltemos as indecisões e imprecisões e vamos direto ao filme. Recomendo que vocês o assistam antes de continuar a leitura.


Birdie me impressionou imensamente. Anderson Bernardes Carneiro me impressionou imensamente. Ele me pareceu alguém radicalmente capaz de viver, apto a isso. E assim como há uma longa tradição literária e filosófica consagrada a denunciar que a linguagem é insuficiente para dizer a realidade, há também uma sólida tradição artística dedicada a dar voz aos desajustados. Imediatamente me vem a cabeça, como exemplo ilustrativo, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de Clarice Lispector. Mas poderia citar também Fernando Pessoa — e embora me faltem recursos para seguir ilustrando casos, acredito que vocês já tenham entendido meu ponto. De modo nenhum quero reduzir a expressão desses pensamentos à confissão de um desajuste e de uma incapacidade para a vida, mas, ainda que involuntariamente, estes elementos ganham centralidade quando nos referimos a alguns escritores, pensadores e artistas. Birdie é o inverso disso.

Anderson, o Passarinho, parece alguém capaz de viver e aprender a viver. E ser capaz de aprender viver não é o mesmo que ser incapaz de cometer erros. Anderson cita alguns de seus erros e as consequências deles resultantes. A ideia de erro supõe a vigência de uma norma a partir da qual podemos determinar erro e também acerto. Sem norma não há erro. Mas alguns erros podem fazer ruir a norma. Façamos uma consideração mais concreta. Há muitas maneiras de ser feliz. Freud fez uma breve lista das fontes de felicidade para em seguida concluir que elas são incontáveis (e que lhe convinha então listar as fontes de infelicidade). No entanto, há alguns roteiros que funcionam quase como normas. A ideia de felicidade está quase inevitavelmente associada à realização profissional, ao estabelecimento de relações afetivas estáveis, à aquisição de certos bens, etc, etc. Essa lista é um enorme clichê do qual nos distanciamos apenas ocasionalmente, como se a própria vida social nos conduzisse a isso. Fracassar em todos esses setores parece o mesmo que fracassar na vida, ainda que nem sempre tenhamos controle sobre as condições necessárias para prosperar. E estamos tão imensamente absorvidos por este roteiro — e alguns em condições mais favoráveis — que não nos ocorre estabelecer novos padrões e normas. No entanto, quantas pessoas realizadas em todas as dimensões da vida costumeiramente escrutinadas pelos olhar alheio não se jogam literalmente pela janela, quem sabe, todos os dias?

Anderson parece alguém capaz de corrigir sua rota. Uma capacidade incrivelmente rara.

Eu posso querer ser um ator reconhecido, e fracassar em todos os meus intentos — ainda que falhe de novo e falhe melhor, como dizem que Beckett havia nos recomendado. Mas a plasticidade e diversidade dos meus esforços parecem contrastar com a rigidez do meu desejo e do meu propósito, congelados talvez pelas condições supostamente favoráveis. Desejo que talvez não consiga desejar senão isso, por falta de imaginação ou de coragem. Por outro lado, no mundo de pessoas invisíveis — que é o mundo da maioria das pessoas do planeta — mesmo o sonho de ter o que comer todos os dias parece muito, parece demais. E a capacidade que se lhes exige é maior do que a mera capacidade de falhar melhor, pois às vezes o que se lhes exige é um completo ajuste de rota (pensem em como vivem os refugiados sírios em países europeus e quantos refugiados há no mundo). E é isso o que Anderson faz de modo quase comovente. Ele não deixa de ter ambições, de querer ser e até ter mais do que é e tem, mas isso não o limita. Sua lucidez é muito maior do que eu espero ter um dia e mesmo sua articulação verbal e conceitual impressiona. Mas este espanto talvez seja apenas a expressão do meu pertencimento (involuntário, devo dizer em minha defesa, embora bravamente combatido) a este mundo que se orienta a partir de um quadro variável, apesar de estável, de normas. Quadro que cria não apenas o preconceito mas também a invisibilidade. (Lembro de ter lido coisas interessantes a respeito de estudos sociológicos e psicológicos sobre invisibilidade social). Do executivo (CEO, para não parecer antiquado) de uma grande empresa esperamos articulação verbal e clareza, moradores de rua nós mal os enxergamos, de sorte que nos espanta que se expressam numa linguagem clara, limpa e profundamente significativa. (Ademais, minha vivência indireta com o ambiente de CEOs e que tais tem me ensinado empiricamente que tudo isso é lenda).

Anderson desafiou o universo normativo que o relegou ao lugar de ninguém. “As pessoas não me veem, elas dizem que sou mendigo, eu não ligo”, ele diz. Quem não tem casa, carro, um plano de vida razoavelmente estável e dorme na rua é ninguém, é invisível. Mas Anderson não é ninguém. Aliás, ninguém é um lugar neste quadro normativo. Ser ninguém é se reconhecer na condição de despossuído do que se deve possuir — ou de não ser o que se deve ser. Anderson é alguém que, sem ter tudo que costumeiramente desejamos, não age nem reage como ninguém. Sua presença é muito maior que força esmagadora que nos compele a ser este alguém dentro de um plano normativo. Quantas pessoas hoje não se sentem esmagadas pelo simples fato de ser mãe ou pai, quando no fundo talvez não quisessem sê-lo.

Há muitas razões para querer ser muitas coisas: rico, bonita, famoso, escritora, mãe, escafandrista, etc., mas há pouca clareza sobre as razões pelas quais somos quem somos. Passarinho tem a serenidade dos que tem clareza sobre o seu lugar — e ele diz isso, “onde quer que eu esteja, encontrarei o meu lugar”. A imagem do carrinho de frutas conduzido entre os carros é ilustrativa. Pelo seu tamanho, o carrinho impede que os carros dividam com ele a faixa ou que o ultrapassem. Os motoristas passam visivelmente irritados pela lentidão de Passarinho. Qualquer pessoa pode testemunhar a impaciência de um motorista que espera o sinal abrir ou de um motorista impedido de trafegar na velocidade que lhe parece conveniente. Neste cenário, Anderson passa de algo invisível a um simples estorvo. Uma passagem abrupta. Nem mesmo chega a se constituir como gente. A tentação da qual foge é a de retornar ao fluxo (representado simbolicamente pelo fluxo de carros) que consiste no adequamento à ordem normativa que nos prescreve o que ser e desejar. Passarinho mantem-se rebelde, no sentido mais forte do termo: dorme na rua, diz ter o que precisa, embora isso não signifique resignação. Aprecia o pouco que tem com mais honestidade que muitos milionários.

((Não há espaço nem mesmo para revolta. O tema do desamparo e da perdição, que tem me fascinado nos últimos tempos, explica até mesmo a violência da revolta. A pobreza condiciona não apenas as circunstâncias materiais da vida das pessoas, mas também sua condição subjetiva. Num mundo cada vez mais marcado pela ostentação e pelo imperativo do gozo, a carência não poucas vezes enseja a revolta e a violência. E a pobreza significa quase sempre também uma restrição do que James Baldwin chama de narrativas de possibilidades. Presos a uma condição desfavorável, sem ter o que se deve ter e sem nem mesmo perspectivas de consegui-lo, o crime parece uma opção razoável — e as compensações superam os riscos. A revolta contra os que tem é quase tão certa quanto a vontade de ter e ser tudo que não se tem e é [desculpa a linguagem quase heideggeriana]. Até nisso Passarinho surpreende.

Nada mais comum do que uma pessoa perdida. Por isso é fascinante encontrar Passarinho, alguém que, desassistido, foi capaz encontrar-se e de reestabelecer-se.))

14 novembro, 2015

Sejamos prudentes, tenhamos medo!


Não há espaço para discutir a responsabilidade dos EUA e da Europa nos atentados terroristas de ontem. Não é o momento, dizem. Ora, depois que se estabelece que não é o momento de se falar disso, todos que ousam desafiar a regra acabam mal vistos. São culpados, insensíveis ou o pior de todos — relativistas. (Não há palavra mais incompreendida no Ocidente). Mas dois podem jogar esse jogo. Sem pesquisar, alguém saberia dizer quantos morreram no atentado do ISIS ontem em Beirute? Não? Por que será? Milhares de pessoas continuarão morrendo diariamente — e uma imensa comunidade muçulmana sofrerá em consequência das ações de grupos minoritários, porque alguns acham que não é o momento de discutir. Essas pessoas também merecem viver, merecem paz. Aqueles que não querem discutir agora a responsabilidade pela criação dos contextos que fomentam e fortalecem grupos terroristas não apenas podem ser acusados da mesma insensibilidade que tentam lançar sobre os ombros dos que querem discuti-la, mas também de hipocrisia. Eles não conseguem assumir como variável de seus argumentos que vidas francesas valem mais que vidas de libaneses, sírios, iraquianos, etc. Não estou fazendo essa afirmação, mas apenas dizendo: no jogo político em que está envolvido o terrorismo, este é um fato. Ninguém sabe quantos morrem diariamente em razão das trapalhadas americanas e europeias fora da Europa ou do EUA, mas todos sabem o nome e a história de cada europeu ou americano morto pelos terroristas. É por isso que este é o melhor momento pra se discutir as responsabilidades desses países. Não apenas em respeito aos franceses mortos, mas, sobretudo, em respeito às dezenas, talvez centenas que morrem anonimamente toda a semana sem que notemos, pelo simples fato de não serem europeus.

Eu entendo que seja mais fácil lidar com duras constatações como essas acusando os outros de insensibilidade e relativismo. Mas isso não é um argumento, não importa quão capacitado você acredite estar para falar sobre tudo que concerne ao tema.

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Há que adicionar um outro ingrediente nesse caldo complexo: é muito provável que os terroristas sejam franceses.

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Há muitas obviedade esquecidas. É claro que o objetivo dos terroristas é causar terror, medo. Mas esquecemos que há também interessados em administrar politicamente o medo. Muitos espantalhos podem ser construídos a partir dessa obviedade, mas nem por isso ela deixa de ser verdadeira. Obama disse que foi um ataque aos valores da humanidade. Há poucas frases mais cínicas — e não porque não seja verdadeira, mas porque ela é diariamente verdadeira. O EUA ataca valores humanos diariamente com seus drones e nem por isso nos sentimos atingidos. Somos todos iguais, mas uns mais iguais que os outros.

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Solidariedade é uma palavra chave nessa questão. Por essa razão se recrimina os que querem discutir a responsabilidade dos EUA e dos países europeus. “Vamos tornar as vítimas culpados?”, pensam, na certa. Simplificações existem em qualquer cenário da vida humana. Acontece que a sensibilidade pela dor de cada família que receberá a notícia de um parente morto não é incompatível com a urgência em discutir a responsabilidade dos grandes atores políticos envolvidos na falida “guerra ao terror”. Se alguém acredita que a necessidade de discutir isso, nesse momento, é prova de insensibilidade, paciência! As pessoas acreditam no que querem. Mas não há razões para isso — e é perfeitamente possível que as duas coisas coexistam sem contradição.

Diante desses acontecimentos sentimos que devemos ter medo, mesmo que nossas vidas não estejam diretamente afetadas por eles. “Elas podem estar, nunca se sabe”. Terrorismo é isso: uma tática de difusão de um medo sistemático, amorfo e arbitrário. E é este caráter imprevisível que faz desse medo um dos piores que há, pois pensamos que ele pode estar em qualquer lugar, pode atingir qualquer um, inclusive nós mesmos. O sujeito que se sente ameaçado, age como alguém ameaçado e endossa políticas que refletem essa justificativa. Vocês acreditam que alguma política justa e democrática virá como resultado da gestão política desse novo foco de medo? Vocês acreditam que as verdadeiras causas do terror serão verdadeiramente discutidas e combatidas no encontro de líderes nos próximos dias?

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O medo é uma forma de solidariedade. Se nós tratássemos como se não fosse com a gente, como se, apesar da tragédia, a vida tivesse que seguir, é como se disséssemos: eles não valiam nada mesmo. Não! Podemos achar que tudo isso é importante e ainda assim seguir em frente. As notícias diárias sobre mortes no Oriente Médio nós as ignoramos sem solenidade (se é que nos inteiramos delas). É difícil lidar com a constatação de que a vida de quem está do nosso lado é mais importante para nós. Acho que isso não é um problema, desde que sejamos honestos para admitir que as coisas são assim e para agir de modo minimizar o efeito dessas perspectivas — o que não virá se evitarmos discutir o que deve ser discutido.

Parece necessário o esforço para recusar o medo oferecido pelo terrorismo — e alegremente administrado por líderes cujas ações são explicadas não raras vezes por analistas que bovinamente aceitam as regras impostas por esse jogo. “Não é o momento”. Creio que nós temos uma fixação quase patológica pelo medo. Nos agarramos a cada motivo para ter medo que se nos apresenta como se fosse uma questão de prudência considerá-los. Como se descartar algum deles ou esforçar-se por viver apesar deles fosse uma temeridade. Como se fossemos comandados por um mandamento: sejamos prudentes, tenhamos medo!