15 setembro, 2016

Nossas paixões ou nossas ações nos definem?

De maneira geral há dois tipos de pessoas: aquelas que se definem pelo que fazem (por suas ações) e as que se definem pelos que sentem, por suas paixões (independente do que façam). Há pessoas que se consideram corajosas porque agiram com coragem em muitas circunstâncias da vida e pensam que por isso a coragem é uma marca característica de suas ações. Outras, no entanto, pensam que uma pessoa pode ter ações corajosas sem necessariamente ser corajosa, pois a coragem seria uma espécie de paixão que inspira pessoas corajosas a agir tal como elas agem. Sendo possível que uma pessoa demonstre ou expresse coragem sem ser corajosa, a avaliação do carácter de alguém (ou de si mesmo) dependeria apenas da presença de algo que é interno, subjetivo, psicológico, chame como quiser: a presença de uma certa paixão ou sentimento. Pessoas corajosas são as que tem essa paixão.

Essas duas perspectivas parecem refletir filosofias inteiramente distintas. Por exemplo, por um lado as filosofias de Nietzsche e de Aristóteles definem as pessoas pelo que elas fazem. A rejeição nietzscheana de uma certa concepção moderna de sujeito — compreendido como um eu internalizado, como o articulador das experiências que se apresentam sempre como coisas exteriores, objetos a serem conhecidos — não deixa espaço para a ideia de auto-conhecimento, necessária para que possamos nos definir em termos do que sentimos ou pensamos. Se você quer conhecer a si mesmo, diz Nietzsche, olhe pra fora, para o que você faz, para as suas ações. Não para o que você pensa ou sente. A metáfora que ele usa é a seguinte:
O povo distingue o corisco do clarão, tomando este como ação, operação de um sujeito de nome corisco, do mesmo modo a moral do povo discrimina entre a força e as expressões da força, como se por trás do forte houvesse um substrato indiferente que fosse livre para expressar ou não a força.
A ideia de que existe de um lado uma força e de outro as expressões dessa força é correlata à ideia de que existe um eu (um sujeito) e também as ações desse eu. E as pessoas são livres para agir de outra maneira, uma vez que se admite que o eu e suas ações são coisas diferentes. O que Nietzsche faz então? Ele simplesmente apaga essa distinção, ou, de outro modo, ele rejeita que o sujeito possa ser compreendido em separado das suas ações. Não existe um eu, o eu é uma ficção filosófica. Graças a essa ficção sempre se pode pedir que o mais forte aja de outro modo, seja livre para ser cordeiro. Daí porque Nietzsche acredita que seja preciso proteger os mais fortes dos mais fracos. Mas esse tema é de uma complexidade sem fim. Aristóteles, por sua vez, recusa a perspectiva platônica segundo a qual a ética supõe o conhecimento. A ética é uma questão de hábitos, segundo Aristóteles. O hábito forma a virtude! — e mais uma vez a noção de ação ganha um carácter central. Nós não podemos controlar nossas paixões (em primeiro plano), mas nós podemos controlar as ações inspiradas por essas paixões não controladas. Com o tempo, um homem virtuoso passa mesmo a sentir de acordo com suas ações, ou seja, o hábito de agir de uma certa forma vai pouco a pouco modificando o próprio modo de sentir. Assim, as ações, que entraram na ética aristotélica com elementos incontrolados (razão porque os estoicos escolhem a apatia, a apátheia), passam a elementos ao menos domesticados pela força do hábito (como se domestica um animal cuja força não controlamos). Vê-se que a ética aristotélica resistiu ao tempo e ainda hoje é uma das reflexões mais interessantes sobre o tema.

Do outro lado estão as filosofias ligadas a uma definição que não se reduz, por assim dizer, às ações. A filosofia de Platão parece se encaixar nesse conjunto pela mera oposição à perspectiva de Aristóteles. E o que distingue a filosofia de Platão é o fato de que ela precisa confiar no conhecimento como uma espécie de instrumento ético. Ligando essas ideias às ideias iniciais sobre como as pessoas se definem, parece que há então uma oposição entre pessoas que pensam que definir-se é uma questão de conhecimento versus aquelas que pensam que definir-se é uma questão de como agimos. Paixões (que se conhecem) versus ações (que se expressam). (Eu acho que Kant estaria também nesse segundo grupo, a distinção entre uma ‘ação conforme o dever’ e ‘ação por dever’ denota isso, mas eu não quero entrar no vespeiro que é falar de Kant).

As duas perspectivas, no entano, talvez não se excluam. Não precisamos ver as coisas assim. Definir-se é uma ação simbólica, ligada à linguagem e, portanto, a um carácter público e social incortonável. Para mim, é por isso as ações parecem ter uma preponderância sobre as paixões (entendidas como elementos subjetivos e privados). Por isso também a ética aristotélica manifesta esse primado da ação (entendida como ferramenta de produção e destruição de hábitos), porque reconhece o carácter político da ética. Salvo engano, na primeira página da Ética a Nicomâco Aristóteles se refere ao homem como animal político. A política e seu carácter público estão no centro de tudo. Mas o inegável reconhecimento da centralidade da ética e da política — como reflexo do carácter público e social da linguagem — não precisa acompanhar uma negação da dimensão subjetiva. É verdade, toda dimensão subjetiva (privada) só tem sentido quando expressa numa linguagem pública.

(Pausa para digressão: não é esse o motivo pelo qual tantos poetas e filósofos se queixam de que a linguagem fracassa ao dizer o real? Não é por isso que parece como se a linguagem estivesse sempre condenada a desidratar a realidade que representa, e como se a experiência da mundo fosse algo intraduzível mesmo no melhor poema e algo que escapa à melhor e mais completa descrição da realidade? A diferença é que certos poetas ao menos já entenderam o desnível entre uma linguagem necessariamente pública e uma experiência do mundo híbrida [pública e privada], e usam esse desnível como uma ferramenta poética, ou pelo menos isso foi o que eu entendi sobre o que Leminski fala sobre “conteúdos” e sobre o “movimento interior”)

Mas nem tudo que constitui uma experiência do mundo é simbolismo. Nem tudo em nossa cabeça é símbolo articulado, nem tudo é linguagem. Embora a nossa luta diária seja a de traduzir sentimentos e outros elementos subjetivos num discurso articulado e inteligível, parte fundamental da nossa experiência privada, suponho, consiste em uma experiência não articulada. Daí o lugar das intuições, insights não articulados mas de algum modo já pré-articulados, que funcionam como passagens do inarticulado à linguagem. Levando tudo isso em conta poderíamos então voltar a dar importância à ideia de auto-conhecimento e a outras perspectivas filosóficas nas quais a definição do que somos depende de um olhar pra dentro, ao invés do olhar pra fora exigido pela publicidade da linguagem. O olhar para dentro, para uma experiência privada irredutível (solipsista), seria uma espécie de escrutínio pelo campo indeterminado do que ainda não está articulado simbolicamente. A força e importância disso que não está determinado, como se pode deduzir, não pode ser definida, mas me parece temerário negá-la apressadamente. A ideia de intuição atravessa campos os mais distintos: poesia, matemática, filosofia, física, etc. Se é verdade que o processo de criação depende de que possamos trazer aquilo que não está articulado (embora esteja de algum modo presente, falando numa linguagem quase heideggeriana) a uma linguagem pública, como negar a importância desse escrutínio que caracteriza o auto-conhecimento? Definir-se por meio de paixões talvez signifique, nesse contexto, busca entender aquilo que não está articulado e, portanto, aquilo ainda não se manifesta nas ações embora ainda esteja presente. Desconfiar, portanto, do que as ações podem dizer de nós mesmos (salvo os atos falhos, claro). É evidente que isso só pode se manifestar como um sentimento, porque não se pode comparar algo na linguagem (algo que além de ser público, é articulado) com uma experiência (que não necessariamente é pública). Bem, naturalmente eu não quero responder à questão, embora minhas inclinações já estejam evidentes, mas queria terminar indicando outra: não parece como se o reconhecimento da importância de uma dimensão não articulada da experiência (não mediada por símbolos e regras públicas) tem uma afinidade com método psicanalítico pelo qual o inconsciente (inarticulado, apesar de Lacan) é chamado a manifestar sua força num esforço de articulação simbólica?

PS. Eu suspeito — e isso não é mais que uma suspeita sem base — que Bergson seja um dos poucos filósofos capazes de dar alguma cidadania filosófica à ideia de algo inarticulado e irredutível. Irredutível, sobretudo, em termos de extensionalidade, em termos de fenômeno.

PPS. Não se pode comparar algo na linguagem com algo na experiência, porque tanto a linguagem quanto a experiência são articuladas. Claro, isso se a comparação visa uma justificação. Se o que se está buscando com a comparação é justificar um enunciado (“A neve é branca”) por meio de algum fato (o fato da neve ser branca), inevitavelmente nos metemos no pântano de discussões ligamos a temas que poderíamos ilustrar usando a expressão redutivismo radical (de Quine), o trilema de Fries (usando por Popper) e também por meio de algumas às objeções de Feyerabend contra o método.

10 setembro, 2016

Autoridade e conhecimento na sociedade digital

Não é possível saber tudo — mas é possível escolher boas autoridades. Quero dizer, a menos que você fale sobre poucos e restritos domínios, você não pode oferecer razões para todas as conclusões que você extrai, avaliando informações e verdades em distintos campos de saber. (Colocando de outro modo: você não tem como oferecer aquilo que se aceita como garantido para passar das premissas às conclusões de um argumento em todos os campos, isto é, as garantias argumentativas). Mas as pessoas se formam em matemática e naturalmente falam sobre política, física, literatura, etc. Cada pessoa tem seus interesses. Em certos momentos, se você quiser seguir utilizando os conceitos de outra área, mesmo que não tenha pleno conhecimento sobre ela e sem se dedicar intensamente a estudá-la — e supondo que você concorda que não é possível se dedicar a todas as áreas possíveis ao longo da vida — você deve confiar nas garantias argumentativas que um outro tem, mas que você não pode oferecer. Esse é o papel da autoridade. E não há melhor representação da autoridade do que Einstein.
FUGA

Está
Cada vez mais difícil
Fugir de mim!
Albert Einstein
Confesse, por um segundo o nome de Albert Einstein não ameaçou emprestar aos horrorosos poemas de Michel Temer algo do seu brilho? Se você não se deixou enganar, parabéns, mas nem todos nós estamos imunes à possibilidade de estar submetido a uma confiança cega na autoridade, uma vez que aceitemos querer saber de tudo. (Essa expressão boba é apenas um modo de representar o gosto pelas infinitas possibilidades que a capacidade simbólica humana oferece). “9 de cada 10 pessoas que citam Einstein estão certas”, pensamos. Mas o que empresta ao pensamento de Einstein essa autoridade que parece transcender o próprio domínio da física? Muitas vezes não sabemos, ou não sabemos tal como um professor de física poderia expor a questão. Isso porque em algum ponto dos argumentos que poderiam ser apresentados para justificar a autoridade de Eisntein seriam necessárias conhecimentos físicos que não temos. Alguém certamente poderia me enganar apresentando um conjunto arbitrários de notações usando variáveis e letras grega e me dizendo se tratar de um importante teorema de Gödel. Me enganar significa: eu não saberia avaliar a verdade do que essa pessoa diz. Mas o mais importante é: eu não preciso aceitá-la como autoridade. E voltamos mais uma vez a Einstein. A escolha da autoridade é importantíssima, portanto também a noção de credibilidade.

Mas essas ideias vieram apenas como preâmbulo de outro tema: lendo sobre mídias sociais, encontrei nesse texto a seguinte citação:
As pessoas são capazes de capturar, escrever, compartilhar notícias nas plataformas de mídias sociais, permitindo ao leitor tomar o controle, desafiar o conceito tradicional de notícias unilaterais (one-way news).
Sagan & Leighto,
The Internet & the future of news. American Academy of Arts & Sciences, 139(2): 119-125.
[Um metacomentário: eu não sou capaz de reconhecer a autoridade do pesquisadores, a bibliografia básica de um pesquisador dessa área pode ser gigantesca, mas eu tenho boas razões para acreditar no que ele diz, e isso já é o bastante para suscitar interesse e gerar confiança]

Nesses tempos de mídias sociais parece imprescindível ter uma relação mais flexível com as autoridades e com nossas próprias perspectivas e conhecimentos. Sob pena de não sermos capazes de utilizar as ferramentas que já estão disponíveis para aqueles que querem usar os recursos de uma sociedade digital. (Eu sou um crítico da lógica social que dirige o desenvolvimento tecnológico, mas não um tecnofóbico.) Por ocasião morte de Alvin Toffler, quem eu não conhecia, saiu um texto no Nexo com algumas de suas frases e uma delas chamou minha atenção:
O iliterato do século 21 não será aquele que não consegue ler e escrever, mas aqueles que não conseguem aprender, desaprender e reaprender
Nada mal pra um dito de um livro de 1970, Choque do Futuro. Esse é o caso! Mas dou um exemplo mais concreto. No Twitter, há poucos dias, saiu o indiciamento do presidente Lula e eu queria saber se o pedido da Polícia Federal era sustentável (razoável) e se Polícia havia mudado de posição, já que dias antes uma notícia em nota de rodapé dizia que a Polícia não havia indiciado nem Lula nem dona Marisa. Minutos depois me esclareceram que se tratava de um outro processo e fiquei até sabendo o pedido de indiciamento estava bem fundamentado. Decidi acreditar no que me disse alguém, porque não queria ler o relatório. Acreditar numa autoridade não precisa ser um bicho de sete cabeças, quando você tem boas razões e quando não se tem compromissos com (pelo menos parte das) suas crenças (ou alguma ferida narcísica que nos impeça de admitir erros). Nosso conhecimento, daqui pra frente, terá que saber articular fontes confiáveis (no modelo tradicional de pesquisa e produção de conhecimento) à capacidade de reconhecer autoridades (ainda que provisórias e locais) a fim de formar uma perspectiva da realidade (ou tomar uma decisão) com os dados que temos disponíveis, num tempo curto. Essa não é uma recusa à paciência do conceito, mas uma solução de adaptação e necessidade. Nesse cenário, a representação da realidade (para quem não está preocupado com o analítico) será menos inteiriça, mais fragmentária e indeterminada do que gostariam os intelectuais tradicionais, mas outro cenário me parece tecnologicamente inevitável, já que o fim do capitalismo não é uma opção (e o capitalismo exige inovação e inovação tecnológica). Teremos então muitas representações heterogêneas, perfeitamente falíveis e questionáveis, sem que isso desabone a capacidade de uma certa representação de comunicar um sentido que talvez deva ser examinado. Acho que esse é um dos novos modelos de representação/apresentação, e de argumento, de uma sociedade digital — uma sociedade que não tem como processar a quantidade exorbitante de dados que produz e que ainda assim precisa aprender a agir a partir dessa perspectiva provisória e indeterminada.

PS. Outra ideia ilustrativa: os dados coletados pelo Large Hadron Collider formam um enorme conjunto de dados a espera de teorias. Essa enorma quantidade de dados se transforma num mecanismo eficiente para descartar teorias, já que os dados, as independent of theory as possible, podem ser imediatamente comparados às previsões de futuras teorias. Acho que essa é uma boa imagem (junto com toda a ideia de Big Data) para representar a diferença de ritmo entre a nossa produção de informação e a nossa capacidade de conferir sentido a tudo que temos.

04 setembro, 2016

Mr Robot: entre a realidade e a loucura


O texto tem comentários sobre cenas da série.

Em muitas situações Elliott se viu aterrorizado por uma pergunta: “eu sou louco?”. Ter sólidas razões para acreditar que não é capaz de distinguir entre o que é real e o que é ilusório provoca um sentimento ambíguo. Por um lado, ainda continuamos capazes de reconhecer a incompatibilidade entre as nossas crenças e nossas atitudes. Por exemplo, quando Elliott se dá conta de ter beijado sua irmã (Darlene) sem saber, ele constata que suas crenças tem efeitos sobre como ele reage ao mundo. Certas habilidades cognitivas parecem ainda capazes de nos levar de determinadas informações (eu beijei minha irmã) até certos juízos (alguém que não reconhece sua própria irmã não tem condições de entender e distinguir o que é real do que não é). Por outro lado, no entanto, essas habilidades cognitivas parecem ainda insuficientes. A mera capacidade de reconhecer que há um descompasso entre as crenças que temos sobre o mundo e o mundo como ele funciona, a realidade do mundo por assim dizer, não é suficiente para nos oferecer um caminho de volta à realidade. Domínio psicológico em vias de colapso, a cabeça de Elliott é o sistema subjetivo que se entrecruza ao domínio objetivo dos sistemas de computação. A computação é essencialmente determinística e seus procedimentos são orientados por metas. Considerando esses ambientes tão distintos, o que há de realmente fascinante em Mr Robot é sua capacidade de apresentar de maneira tão espontânea e orgânica o cruzamento entre esses dois domínios tão díspares: o domínio subjetivo, mais abrangente, representado pelas lutas internas de Elliott com a realidade, e o domínio objetivo dos sistemas de computação, inevitavelmente subordinado à realidade fabricada pela sua cabeça.

Esse conflito entre dois domínios irredutíveis e em certo sentido inconciliáveis é o próprio mote do seriado. Elliott é não apenas cognitivamente funcional, ele é um prodígio. Alguém capaz de entender como funciona a complexa estrutura de software e hardware da qual depende o fluxo normal das operações financeiras que todo mundo faz cotidianamente sem entender como é possível. Ele não apenas entende, seu conhecimento do modo como o sistema funciona lhe permite identificar vulnerabilidades. Exploit é uma palavra mencionadas muitas vezes no seriado. Mencionada como algo inevitável: todos nós temos vulnerabilidades. (Exploit então funciona como um termo chave, que denota esse cruzamento entre dois sentidos da própria ideia de vulnerabilidade.) A questão para Elliott é: será que eu posso esconder minha vulnerabilidade? Será que eu sou capaz de não deixar que as pessoas vejam que eu não sei o que é real, o que não é? Mesmo que não possa ajudá-lo a resolver a questão subjetiva que é distinguir entre a realidade e a ilusão, o senso de objetividade de Elliott lhe permite identificar as vulnerabilidades de seus amigos e inimigos. A história de sua amiga Angela Moss se transforma completamente depois que, apressado para que ela fosse embora, Elliott lhe diz que ela precisa confiar mais em si mesma. Tudo muda depois disso. Elliott diz estritamente o necessário e ela reage adequadamente. Angela entende o sentido do conselho apressado de Elliott e sua vida vai pouco a pouco se adaptando às metas que ela secretamente aspirava sem nunca ter coragem para agir conforme as coisas que acreditava. A transformação na vida de Angela é só mais uma ocasião em que se representa uma espécie de irredutibilidade da vida a uma dimensão estritamente objetiva, orientada por ações que se dirigem a metas (como nos sistemas de computação). A medida que alcança suas metas, que se sente valorizada e reconhecida pela sua inteligência e capacidade, Angela se dá conta que suas metas haviam sido traçadas a partir de uma outra realidade na qual ela mesma não tinha valor e na qual os outros não reconheciam o valor que ela via em si mesma. Sua clareza e inteligência, o senso de objetividade que na série pouco a pouco vai ganhando força só comparável ao do próprio Elliott se mostram igualmente insuficientes para prover novas metas que lhe conduzam a um caminho que não seja o do cinismo. Angela vai se tornando cínica e insensível.

Os computadores (e a computação) são uma metáfora do nosso tempo e Mr. Robot é talvez uma das primeiras manifestações artísticas a entender e representar essa ideia de uma maneira assombrosamente fiel. A capacidade de processamento dos computadores nos fascina porque julgamos que tudo no mundo pode ser ajustado apropriadamente, uma vez que tenhamos informação suficiente e saibamos como tratar (processar) essa informação. Não é esse o fascínio que exerce a ideia de Big Data? Mas acontece que esse mundo objetivo de perguntas e respostas, por mais poderoso que seja, não é suficiente para prover os valores necessários para que saibamos que metas escolher. (Razão porque não apenas Angela, mas o próprio Elliott sofre). É por isso que Aristóteles afirmava (contra Platão) que a ética não é uma questão de conhecimento. Mas é o Wittgenstein que inspirou os positivistas lógicos (Wittgenstein do Tractatus Logico-Philosophicus) — aqueles que acreditavam piamente que o mundo era construção lógica feita a partir de elementos objetivos — quem oferece a ideia mais representativa dos problemas representados em Mr Robot, nos dilemas de seus personagens e no conflito entre as habilidades de um sistema cognitivo perfeitamente funcional e uma realidade cujas variáveis não estão inteiramente dirigidas por elementos objetivos:
6.52 Sentimos que, mesmo que todas as questões científicas possíveis tenham obtido resposta, nossos problemas de vida não terão sido sequer tocados. É certo que não restará, nesse caso, mais nenhuma questão; e a resposta é justamente essa.

01 setembro, 2016

Golpe: modos de usar

É possível usar múltiplos e incompatíveis critérios para definir um golpe. Eu entendo e concordo que a expressão se transformou numa arma de agenciamento irrefletido, feita pra mobilizar afetos sem provocar nenhuma meditação sobre a enorme responsabilidade do próprio PT em toda essa novela. Entendo e concordo que há um zilhão de especialista que estão de acordo sobre o fato de que para definir um golpe tem de haver uma ruptura institucional e todo um cenário que simplesmente não existiu no Brasil. O caso é que nada disso torna impossível uma revisão do conceito. Quem defende a palavra golpe pode bem estar argumentado que o traço essencial do conceito é a possibilidade de identificar no uso de meios institucionais legítimos a intenção articulada de instrumentalizá-los a fim de obter fins políticos, tal como nos golpes propriamente ditos. A diferença aqui é óbvia (e controversa): o núcleo da definição é a ideia de intenção.

(Você vai discordar do resto do texto se pensar: o impeachment é um instrumento legítimo, portanto, em qualquer circunstância possível (e nessa em particular) o impeachment não pode ter a equivalência funcional de um golpe. É a equivalência funcional que justifica a ampliação do conceito, além, naturalmente, de um questionamento sobre o processo e seus desvios funcionais promovidos em nome de intenções que são de amplo conhecimento público. A intenção vicia o uso dos dispositivos institucionais ao submeter um instrumento legítimo a um propósito diferente daquele para o qual foi concebido.)

A intenção não é entendida como um domínio objetivo, sobretudo se não pode ser aplicada a sujeitos concretos, mas a conjuntos indeterminados de sujeitos agindo de maneira articulada (o conjunto dos deputados e senadores aliados de Temer e Cunha, o conjunto dos empresários X ligados a FIESP, etc). Então nós temos um golpe caracterizado por fatos versus um golpe caracterizado por intenções. Quem vai provar as intenções de um conjunto de atores indeterminado? Já que não se sabe quem são os atores que trabalharam para realizar essa intenção. Pra que uma intenção se realize é preciso que certos atos sejam levados a efeito (a causalidade dos fatos).

Você vê alguma intenção?

Ora, mas talvez essa hesitação sugira o apego a uma noção de objetividade que precisa ser revista em seu propósito universalista (exclusivista, o que dá no mesmo). Será que alguém duvida que Eduardo Cunha tinha intenção de provocar danos a Dilma? Se você é advogado e se sentiu impelido a alegar que são meras circunstâncias, que nada disso necessariamente pode ser provado, bem, eu te concedo essa. O que isso muda? Você pode dizer que não aceita a expressão golpe porque não há critérios jurídicos suficientes para estabelecer a objetividade dos fatos. Ora, mas em certo sentido intenções não são fatos! E por que não são fatos são menos reais? A intenção dos animais, nós não a vemos? A intenção das outras pessoas? Elas são menos reais porque não podemos apontar pra elas? Eu gosto do exemplo de Wittgenstein, nas Investigações Filosóficas: “Qual é a expressão natural de intenção? Olhe um gato quando ele espreita um pássaro; ou uma fera quando ela quer escapar”. Sejamos mais simplórios, veja o GIF abaixo e me diga se você vê a intenção do gato.

Você vê alguma intenção?

Se as intenções não são fatos, dane-se a objetividade jurídica, eles são reais e as pessoas podem se sentir a vontade para usar a expressão golpe mesmo que não possam se justificar nos termos dos nobres e científicos critérios jurídicos (ou históricos, escolha a disciplina que preferir). Mas a coisa não é tão simples. Primeiro, porque alguém pode alegar que há objetividade nas intenções. Querer impor a ontologia jurídica universalmente é um recurso teórico legítimo (na batalha entre paradigmas, diria Kuhn) mas esse recurso não é capaz de anular o sentido de outros usos conceituais. Não é como se não pudéssemos falar de outras objetividades. Quando dizemos que as intenções são reais embora não possam ser objetivas o nosso propósito pode ser dizer que as intenções tem um registro de objetividade que não necessariamente se inscreve na objetividade dos fatos (embora se expresse nele). Vou ilustrar com um exemplo: imagine que você está andando na rua e vê alguém, a poucos metros, apontar uma arma pra você. Você não mostra o mesmo ceticismo em relação às intenções do sujeito: no mesmo instante você se esquiva ou coisa do gênero. O que estou dizendo é: a ação de erguer uma arma é a causa de uma reação — causas se inscrevem no domínio dos fatos, esse domínio objetivo da ciência e do direito — mas é também a razão da reação — e razões tem seu próprio domínio, que não necessariamente se reduz ao domínio objetivo. As intenções se expressam no corpo, nos gestos, nas palavras, nas ações, mas elas não se reduzem a essa dimensão objetiva, porque a intenção é um continuum lógico no tempo. (Uma partida de xadrez pode ser registrada e reconstituída causalmente por alguém que não sabe jogar xadrez, mas não pode ser analisada em termos da estratégia dos jogadores por essa mesma pessoa, em termos de razões). A reação testemunha que o ato de esquivar-se é o reconhecimento da intenção possível de atirar. Quantos assassinatos nós conhecemos dos quais se sabem as causas mas não as razões? É uma distinção difícil mas extremamente importante para quem se denomina racional.

Então, não importa quantos historiadores, cientistas políticos, filósofos, linguistas você mencione, é perfeitamente possível ver todo o cenário político brasileiro como um golpe — ainda que um golpe parlamentar, para sinalizar a ampliação conceitual. Se você não aceita que tenha existido golpe com essas características antes, pense ao menos se não há boas razões para ampliar o alcance do conceito. Mas quando pensar, esqueça o uso meramente manipulativo que o PT fez da expressão e se pergunte: as intenções dos atores envolvidos nessa novela, de Sergio Moro até Eduardo Cunha, são suficientes para levantar uma dúvida razoável sobre um possível desvio de finalidade dos instrumentos institucionais orientado ao mero propósito político de destituir Dilma do poder, além de outros fins mais? Se ainda assim você responder negativamente à pergunta, bem, não há saída, nós pensamos de modo diferente e talvez sejamos, como profetizou Emile Bréhier, cada um o irracionalista do outro. Mas isso não significa que as duas posições não possam coexistir e muito menos que uma delas tenha que ser falsa. Não há razões pra isso.

PS1. O blog fez 10 anos em agosto. Durante todo esse tempo foi um instrumento de expressão, um repositório de ideias. Agora eu resolvi mudar um pouco o modo de conceber meu texto. E por isso resolvi transformar o espaço num experimento de um argumentação não linear, e também de um certo estilo. Além, claro, de desenvolver temas bem particulares (embora não necessariamente populares).

PS2. Essas ideias sobre conceitos e objetividade, ou conceitos e ontologia (se vocês me permitem o uso plástico do conceito [meus conceitos eu gosto assim, plásticos]) me fazem lembrar o modo como o Arthur Danto mostra que a crítica da arte, ao criar conceitos para tentar entender a experiência artística constitui novos objetos de arte e alarga assim o campo da experiência artística possível. Está no seu texto imperdível O mundo da arte.

PS3. A discussão sobre intenção é pantanosa pelo seguinte, vou tentar explicar com um exemplo. Numa cenário simplista, se alguém abandonar uma caneta e ela não cair no chão, a teoria da gravidade estaria falsificada. É simplista porque não funciona assim, mas o propósito do exemplo é mostrar que a objetividade da ciência supõe que se possa ter um grau de confiabilidade nas consequências futuras da sua teoria a ponto de poder fazer previsões. Quando se lida com intenções, o fato de um propósito intencional não se cumprir não necessariamente anula as intenções. O propósito de parar a Lava Jato, por exemplo, é uma intenção clara por trás das manobras para colocar Temer no Planalto, mas ainda que esse propósito não se realize, isso não significa que a intenção de quem colocou Temer lá não tenha sido essa. É espinhoso!

30 maio, 2016

Um golpe não positivista

Nesses tempos sombrios em que parecemos perdidos, Luis Eduardo Soares é um dos intelectuais que tem publicado regularmente textos interessantíssimos. Sou contra o impeachment porque penso no dia seguinte é um deles, publicado antes do afastamento de Dilma. Um texto que além de analisar o cenário político, oferece uma proposta que não se situa no campo binário das duas forças antagônicas que tragaram o país. A hora e a vez do pacto republicano, seu novo texto, tem essas mesmas características, uma abordagem conciliadora e propositiva (ele trata do pacto necessário para superar as dificuldades que enfrentamos), que além do mais ousa ao tratar algumas questões sob as lentes de recursos conceituais não ortodoxos. No entanto, o texto contém algumas posições das quais eu discordo e que creio servirem para ilustrar alguns temas e tensões que constantamente encontramos nas diferentes narrativas que tentam explicar o que tem acontecido no Brasil nos últimos tempos.

Golpe. Há muita gente seriamente empenhada em combater o uso da palavra. Não me refiro ao próprio Usurpador e seus asseclas, mas a pessoas de esquerda. E não sem razão, vale dizer. Nos últimos anos o PT reduziu sua capacidade de mobilização a um apelo ao medo e à chantagem, situando-se no lugar simbólico daquelas contra os quais o slogan "A esperança vencerá o medo" foi elaborado em 2002. É natural que as pessoas não aceitem serem meros instrumentos na luta pela manutenção do poder. O PT tornou-se o monstro contra o qual lutou. Entretanto, os argumentos de quem se recusa a empregar o termo não são tão fortes quantos as razões para suspeitar da instrumentalização que o uso não raras vezes denota. Luis Eduardo Soares diz: "Um erro não é um golpe". Talvez a mais forte objeção ao uso da palavra golpe seja uma definição do conceito que o caracteriza como ruptura institucional. No Twitter, Rafael fez um apanhado de autores e suas caracterizações de golpe. Nele vê-se que a coisa não é tão simples quanto parece e que muitos autores definem golpe de maneiras distintas. Por si só, isso já bastaria para enfraquecer o argumento que aponta a manutenção da ordem institucional como motivo da rejeição do termo. Mas continuemos a explorar a questão.

Como bom seguidor da Igreja Wittgensteiniana, sou inteiramente avesso a discutir palavras e termos. O padroeiro dizia: “Diga o que quiser, desde que isso não te impeça de ver como as coisas são”. Como as coisas são não é expressão de realismo, ninguém menos realista que Wittgenstein, é apenas um modo de manifestar uma precaução em relação aos encantos e feitiços da linguagem. Chamar ou não de golpe não deveria nos impedir de reconhecer que congressistas usaram a lei como instrumento para destituir uma presidente impopular, a fim de deter avanços de uma operação judicial que os ameaçava**. Não deveria também nos impedir de reconhecer que decretos de créditos suplementares são práticas comuns na administração pública brasileira e, mesmo que você não aceite essa objeção contra a denúnia que pesa sobre a presidenta, há que reconhecer que esse casuismo que passou estranhamente despercebido ante os olhos do STF, não deixa espaço a qualquer dúvida sobre as intenções daqueles que acusaram Dilma. E, paradoxalmente, nem mesmo Luis Eduardo nega as intenções dos congressistas. É o próprio Eduardo também quem crítica a visão dos que pensam a aplicação das leis em termos estritamente mecanicista, excluindo a dimensão de intencionalidade que lhe é própria. Se nós nos apegarmos ao conselho de levar em conta a dimensão de intencionalidade, como sugere Eduardo, fica evidente que chamar as ações de mero erro é inaceitável. Ninguém erra intencionalmente. Bem, na verdade poderíamos aceitar que as pessoas erram intencionalmente, mas um erro intencional revela o propósito a que ele serve. E é o propósito de usar leis segundo finalidades nada republicanas que caracteriza aquilo que muita gente chamada de golpe. André Singer preferiu um termo conciliador, golpe parlamentar. Talvez para conciliar a força do termo à objeção enunciado por Eduardo, sobre a manutenção da ordem institucional. De qualquer modo, a manutenção da ordem institucional é um argumento frágil para criticar o uso da palavra golpe. E no final do texto encontramos uma afirmação surpreendente:
(...) escapa à ordem constitucional quem organiza um governo buscando facilitar a salvação extra-judicial dos grandes operadores da corrupção.
A afirmação surprende porque ela contradiz o espírito da crítica ao uso da palavra golpe. Se quem organiza um governo buscando salvação extra-judicial escapa à ordem constitucional, por que não podemos falar em golpe? Apenas por que foi tudo feito de acordo com as leis? Luis Eduardo aqui sofre do mesmo viés positivista que julgava encontrar naqueles que acusam o golpe.

O erro. Outro ponto importante do texto é caracterização do impeachment como um erro. Ao meu ver essa questão é ainda mais frágil que a primeira. Tratar o impeachment como erro supõe além da diluição da complexidade do tema, uma redução de todo o emaranhado que o constitui a um simples ponto. Como se o impeachment fosse uma única ação (ou evento), passível de ser ou não qualificado como erro. Perde-se muita coisa ao tratar a questão assim, principalmente, como eu já indiquei, a dimensão de intencionalidade que nos leva a admitir quase inquestionavelmente o propósito dos congressistas (e do seu então presidente) ao pôr em marcha o processo de impeachment. Chamar de erro o processo permite que Eduardo critique os que consideram golpe o impeachment da presidente, alegando que eles não reconhecem “mediações interpretativas na aplicação de leis e normas”. É como se todas as possíveis interpretações tivessem que necessariamente situar-se numa escala gradativa entre o erro e o acerto. Quem denuncia o golpe não reconhece a escala, a despeito da preservação da ordem institucional. O que é inaceitável.
(...) parto do pressuposto de que isso não implica necessariamente a existência de uma ruptura político-institucional, passível de descrição como golpe de Estado. 
A pressuposição de que não houve ruptura institucional molda a própria noção de erro que ele apresenta. É como se ele tivesse dito: não houve ruptura institucional, então o impeachment só pode ser erro e não golpe. É argumento frágil porque a próprio noção de erro é subsidiária de outro aspecto questionável, a definição de golpe como ruptura da ordem institucional. E claro que definir como golpe o impeachment não implica “acusar todos aqueles que se posicionaram a favor do impeachment de golpistas”. Embora o ressentimento seja um dos afetos mais presentes em torno de toda essa novela, acusar alguém de qualquer coisa supõe não infrequentemente a defesa de uma hipótese sobre as intenções de quem quer que seja. Nesse caso, a acusação de colaborar com golpistas não é um corolário que se segue à defesa da ideia de golpe, é apenas a expressão de uma generalização tão comum quanto sintomática, não raras vezes acompanhada de um ressentimento cego e inexplicável, mas ela que pode ser usada como prova contra os que argumentam a favor do uso da palavra.

Não sendo positivistas, podemos reconhecer a intenção dos congressistas envolvidos no processo de impeachment e então fica difícil negar que o propósito que eles tinham em mente contaminou o processo e o conduziu pelas vias institucionais sem maiores vícios formais (embora os vícios abundassem). Mas não ser positivista não implica aceitar todas as mediações interpretativas, como se fossemos sujeitos constituídos a partir dos mesmos elementos, portanto perfeitamente capazes de encontrar soluções intermediárias para nossos dilemas, uma vez que estivéssemos dispostos a negociar e fazer política. Estou de acordo com a proposta republicana que Luis Eduardo Soares oferece, mas isso não implica aceitar a tese filosófica que parece fundamentá-la. “On est toujours l’irrationaliste de quelqu’un”, lembrava Bento Prado em seu livro Erro, ilusão e loucura (título mais que oportuno). É sempre tentador ver no outro um mero irracionalista ou, nesse caso, um positivista, alguém que insiste em negar os termos comuns da nossa construção simbólica. Acontece que nem sempre podemos restabelecer esse campo comum que poderia parecer a base para a estabelecimento de mediações interpretativas ou pelo menos o campo onde algo do gênero pode ser negociado. Como adverte o próprio Eduardo na seção 1 do texto, corresponde a uma ameaça mais preocupante que as diferenças inconciliáveis e irredutíveis o aplainamento de qualquer diferença por meio de um apelo a formas. Como se as formas determinassem o conteúdo. Como se a regra determinasse o caso. Isso não funcionou em filosofia (vide Kant, Wittgenstein, e tantos outros) e não funcionará tampouco em política. Vamos prestar atenção às formas, mas sem descuidar das intenções e das práticas. Se discordamos sobre sobre a avaliação das intenções dos atores envolvidos na coisa toda (os políticos, claro), bem, aceitemos que podem existir diferenças incontornáveis. Eu não tenho dúvidas.

** O golpe poderia então ser caracterizado assim: um “desvio de finalidade” de um recurso excepcional como o impeachment, em favor, como já se constatou, de interesses distintos aos alegados na acusação. No Twitter, Joaquim Barbosa fez algumas considerações sobre processos semelhantes que aconteceram na história americana, tentativas de impedir um presidente pretextando banalidades formais que eram mera cortina de fumaça pros reais interesses. Por preguiça, não localizei os tweets.

15 maio, 2016

O rei nu e o medo de ser idiota

No conto de Christian Andersen “A roupa nova do rei” é uma criança quem desmonta a farsa. Claro, só uma criança está livre do circo de vaidades que impede os adultos de denunciarem o que supostamente seria sua própria idiotice, anunciando que não enxergam a roupa do rei. Assim, a verdade vem à tona não por meio de alguma virtude analítica, mas em razão da espontaneidade infantil. Alguns elementos dessa fábula podem servir de parâmetros comparativos para entender o que tem acontecido no Brasil nos últimos anos. Há tempos alguns personagens vendem a imagem de que política brasileira é uma farsa de proporções semelhantes àquela relatada no conto. Não por outra razão Bolsonaro lidera a corrida presidencial entre os mais ricos. No Brasil vigora um bacharelismo sem bacharéis, resultado da mistura de uma escravidão nunca curada, de uma desigualdade que se internalizou atravessando todas as classes sociais e de um modelo educacional historicamente fracassado. Nossos bacharéis (com ou sem diploma) estão sempre dispostos a reverenciar autoridades, títulos, ideias, especialmente se estes vem de fora, já que segundo eles o Brasil não é capaz de produzir pensamento. Disso resulta a ideia de que o país vive uma farsa que apenas os corajoso e iluminados são capazes de ver. A farsa do comunismo, do bolivarianismo e outros que tais, dissimulados, vejam só, por uma imprensa conivente, omissa quando não cúmplice.

A situação é semelhante a da fábula, com algumas diferenças significativas. Portanto, trata-se também de desmontar uma farsa. Nesse caso, porém, não é a virtude espontânea da liberdade infantil que revela a realidade que a farsa esconde, mas uma inteligência autoproclamada. Por isso é preciso deixar de ser um idiota. E como ensinam certos gurus, para deixar de ser idiota é preciso ter em conta alguns elementos básicos. O agente aliciador desse discurso, reparem bem, é a construção de uma dicotomia entre ‘idiotas que não sabem o básico’ versus ‘pessoas que se dispuseram a conhecer o essencial para não participar da farsa’. Ora, quem gostaria de ser visto como um idiota enganado? Na fábula, o receio de revelar a falta de inteligência levou adultos a fingir o que só uma criança não podia esconder: que o rei estava nu. No Brasil, o debate público parece cada vez mais ameaçado pela intransigência de pessoas que creem seriamente que, se abrirem mãos de alguns ideias dogmaticamente adquiridas, serão coniventes e cúmplices de uma farsa.

Em ambos os casos, a instrumentalização do medo de parecer idiota permite que as pessoas sejam enganadas. O medo de ser idiota e o poder de pertencer a uma classe que pode acusar outros de serem idiotas são elementos de uma estratégia de sedução e aliciamento. Mas quem pode culpá-los, não é mesmo?

PS. O livro do torturador Carlos Alberto Ustra se chama "A verdade sufocada". É uma variação do mesmo princípio: supor uma verdade escondida revelada apenas por corajosos. Quem não quer ser o corajoso enunciador de uma verdade sufocada?

31 março, 2016

Os paradoxos da autonomia em nossas sociedades

Nós nascemos autônomos ou nós tornamos autônomos? É possível que alguém seja autônomo e aja por influência de forças exteriores? A autonomia então diz respeito a ações e não há estados ou disposições?

Em nossas sociedades, é perfeitamente aceitável que estejamos expostos ao agenciamento do desejo pela publicidade (consumir ou não é nossa escolha), mas não somos livres para casarmos com quem quisermos, para usar a substância que desejemos ou para nos matar. A própria noção de autonomia parece já ameaçada pelo agenciamento do desejo pela publicidade, pois a compreensão do sentido de uma escolha depende do que se quer (e também revela o que queremos). Não é segredo algum que a publicidade estuda e desenvolve ferramentas de agenciamento de desejo e visa promover o estímulo de necessidades. Há décadas a publicidade (e as relações públicas, ambas associadas ao gênio maligno de Edward Bernays) se deu conta de que não devia limitar-se a promover um produto, precisava também estimular o próprio desejo dos consumidores. Se há uma instituição bem servida de recursos e empenhada em moldar os nossos desejos em nome da produção e do consumo continuados (precisamos crescer, não é mesmo?), como é possível pensar que seus clientes sejam ainda assim livres e autônomos?

O que vem primeiro: o desejo ou a escolha? Liberdade e autonomia são conceitos que se recobrem, embora não coincidam. Compreendida como livre arbítrio (e não como necesssidade), a liberdade parece ainda presente em nossas ações. Temos sempre escolhas e opções. Mas somos autônomos? Isto é, somos nós mesmos quem governamos nossas ações? A cadeia de causas e de intenções nas quais nossas ações estão inscritas encontra em nós mesmos o seu último ponto de determinação ou somos apenas um dos elos numa longa cadeia que recua até fontes de determinação exteriores? Pois bem podemos ser livres para escolher, sem que a escolha tenha como fonte de determinação nós mesmos. Somos livres e heterônomos. Mas esse diagnóstico de heteronomia traz complicações, porque alguém poderia com justiça perguntar como o definimos ou identificamos? Talvez uma resposta a essa pergunta não importe e estejamos apenas seduzidos por nossa predileção por soluções e objetividades. Talvez o que importe seja manter uma certa desconfiança saudável: se nós somos os que desejamos, como é possível que sejamos ainda autônomos apesar do esforço de uma indústria inteiramente projetada para moldar nossos desejos? Como podemos falar de indivíduos autônomos face à massiva influência da publicidade nos nossos desejos, sem definir dogmaticamente a autonomia como uma espécie de núcleo inabalável de todo sujeito? Em outras palavras, a única maneira de negar o caráter manipulador da publicidade é afirmar dogmaticamente que, por sermos autônomos, não somos manipuláveis (quase uma petição de princípio). E que todo o sujeito que deseja X, o deseja porque disse SIM a um desejo — mesmo que ele tenha como fonte uma peça publicitária. Portanto, não seríamos manipulados porque somos autônomos pra dizer sim ou não aos desejos que nos são oferecidos (pela publicidade, por exemplo, embora a questão seja naturalmente mais ampla). Nada, absolutamente nada pode nos destituir da condição de sujeitos autônomos. Tudo é escolha nossa, tudo é escolha livre e autônoma. Vê-se que há muito de uma metafísica algo duvidosa na maneira como pensamos (se é que pensamos) a nossa relação com nossos desejos. Esse primado da autonomia elide todos as críticas dirigidas à publicidade e por isso uma tradição de pensamento (ligada em grande parte à Escola de Frankfurt) pareceu perder fôlego e relevância.

O que é essa autonomia essencial que ninguém perde mesmo quando submetido durante toda a sua vida à forte injunção ao consumo (mesmo quando essa injunção constitui os traços essenciais de sua personalidade e sociabilidade) mas que ninguém parece possuir quando deseja comprar drogas ou quando quer se matar?

21 março, 2016

As decisões de Moro e seus efeitos

Levaremos décadas até formar um consenso sobre o que está acontecendo neste período. Aqui, não faço senão sugerir dois elementos que me parecem imprescindíveis em qualquer explicação:
  1. A condução coerciva foi determinante para o recrudescimento das tensões num contexto já bastante difícil. Após a divulgação do conteúdo do depoimento de Lula, ficou evidente que a decisão, além de não ter nenhum amparo jurisprudencial, também não tinha qualquer justificativa, pois as perguntas indicavam um procedimento de praxe e não dúvidas importantes e urgentes que “justificariam” a medida extremada.
  2. A divulgação das interceptações das conversas entre Dilma e Lula tampouco revelou-se justificada.
Ainda que se admita que o ponto (2) é discutível, pois há quem tenha visto nas conversas o indicativo de um desvio de função, os dois pontos são bastantes para afirmar a relação de causalidade entre as decisões do juiz Sergio Moro e a instauração consequente de um ambiente político extremamente perigoso no país. Ou seja, mesmo sem considerar quais foram as intenções do juiz, a relação entre suas decisões e o efeito político me parece inegável. (É inegável que o pedido de prisão solicitado pelo MP-SP teve também um papel importante.)

Se abandonarmos o terreno do que é meramente causal com o objetivo de tentar formar uma ideia das intenções do juiz veremos que as justificativas para suas decisões são precárias e suscitam dúvidas razoáveis. No primeiro caso, ele alegou que agiu em nome da segurança do próprio Lula. No segundo, disse que a sociedade deve fiscalizar governantes que agem nas sombras. Mesmo longe das apreciações jurídicas as duas justificativas parecem sólidas como um pudim. Não vem ao caso apresentar as críticas jurídicas que a segunda decisão enfrentou — e não me lembro de ter lido quem justificasse a condução coerciva —, o que me interessa é fazer considerações quase banais, tendo apresentados as razões acima.

O juiz Sérgio Moro foi o responsável direto pelo agravamento da crise política no país (causalidade), suas decisões funcionaram como gatilhos, foram gotas d'água num copo cheio — isso por si só já seria suficiente para que elas devessem ter sido pesadas com uma dose extra de cautela. E embora suas intenções não possam ser afirmadas conclusivamente (intencionalidade), dada a ausência de justificativas sólidas para decisões drásticas, é razoável suspeitar delas. Na ausência de justificações sólidas para medidas extremadas num cenário admitidamente inflamável, é razoável suspeitar que suas decisões foram guiadas não pelas regras que deveriam orientar um processo judicial, mas tendo em vista os efeitos políticos que elas geraram. Com os fatos que temos disponíveis até agora, esses dois pontos são indispensáveis.

PS. Já que estamos no terreno do razoável, convém também perguntar se Moro não era capaz de adivinhar o efeito de suas medidas. Se foi uma surpresa para ele que suas decisões tivessem provocado o que efetivamente provocaram.

Atualização: Moro diz que divulgação de grampos de Dilma e Lula não teve propósito político. Cada um que tire suas conclusões.

20 fevereiro, 2016

Viagens de ônibus e banhos de mar

É lugar-comum dizer que os europeus tem uma vivência do clima e da natureza muita diferente da nossa. E é natural que seja assim. Quando o sol sai, eles se esticam em qualquer lugar por onde se estendam os raios de sol e é verdadeiramente uma benção. Pensando nisso, esses dias lembrei o quanto nós mesmo às vezes não damos conta da nossa relação com o mundo natural. (Pra não deixar de falar de Wittgenstein, como convém, não posso esquecer quantas vezes ele afirmou que o é mais importante em geral escapa à nossa percepção justamente porque está diante dos nossos olhos o tempo inteiro). Há muito tempo eu fiz cursinho pré-vestibular num curso no Relógio de São Pedro. E à noite. As aulas terminavam mais de 22h e eu tinha que ir à estação da Lapa pra voltar pra casa. Não raras vezes o ônibus demorava mais de uma hora pra chegar. Não havia smartphones, apenas as baratas e ratos da estação da Lapa e eventualmente algum providencial livro emprestado na biblioteca. De resto, sobravam somente o tédio e a monotonia com as quais qualquer passageiro de ônibus de Salvador estava acostumado. Mas não era só isso. A verdade é que apesar dessa espera rotineira, cansativa e da qual naturalmente eu me queixava, havia algo mais. Algo que, depois de tanto tempo, eu posso dizer: foi o que ficou. Vir da Lapa até a Boca do Rio, de noite, numa Salvador anterior à lamentável explosão de crescimento dos carros (pré-2007) era uma experiência diária de prazer e deslumbramento. O ônibus descia a Avenida Centenário e a partir do Shopping Barra vinha todo o percurso pela orla. Não havia engarrafamentos, nem muitos passageiros. Não apenas porque eram bons e saudosos tempos, mas também pelo horário. Às vezes circulávamos pra lá das 23h. Eu elegia o melhor assento — na janela, claro — e passava a viagem inteira sendo bombardeado pela brisa da orla acelerada pelo movimento do ônibus. Eu lhes digo isso como alguém que sabe, hoje, mais do que nunca, o prazer que pode ser fruir de uma simples nesga de sol. E eram assim todos os dias. O aburrimiento (como dizem os espanhóis: me veio na cabeça assim e eu deixo assim) das aulas, o cansaço da espera e do dia eram simplesmente apagados por aquele cheiro do mar que invadia meu peito com a violência do vento que corria forte, porque o motorista andava rápido pelas ruas vazias. O vento não era frio, tampouco era quente. Nenhuma das duas palavras encaixa. Ele era apenas agradável, reconfortante e tranquilizador. Sabe-se lá quantos pensamentos loucos passaram na minha cabeça nesse trajeto. Quantos planos, quantas ideias, quantos sonhos. O caso é que ali, sentado na janela do ônibus que vinha até a Boca do Rio eu me perdia em pensamentos embalado deliciosamente por aquela temperatura agradável e por aquele vento quase familiar.

Pensando nisso eu lembrei também de algo similar. Da nossa (ou da minha, se for o caso) relação com o mar. Bem, a universalidade das nossas pretensões (políticas, sociais, racionais) muito frequentemente apaga a constelação de diferenças que existem mesmo entre pessoas imensamente afins. Digo isso porque a nossa relação com a natureza marca um universo inteiro de experiências e relações que muita gente em outras partes do mundo não conhece ou não entende. Eu mesmo, durante bons anos (vá lá, talvez meses, a essa altura nada é preciso na minha memória), tive o costume de ir andar ou correr na praia. Ora pela manhã ou início da tarde, ora pela noite. E lembro de que, às vezes, quando o dia estava muito quente, andar, correr ou se exercitar na praia e em seguida tomar um banho no mar era uma experiência resignificadora. Eu lhes digo: eu me sentia outra pessoa, com outra disposição. É claro que o sol é a fonte principal de vitamina D — e a ausência dela no organismo pode causar indisposição até psicológica, mas não se trata de encontrar explicações. O fato é que aquele banho que cortava um calor forte mas perfeitamente suportável quando se gozava do privilégio de estar perto do mar e poder frequentá-lo me tornava uma outra pessoa. Do mesmo modo eu me sentia quando, anos depois, morando já no Garcia, nós íamos no final da tarde tomar banho na água quente no Porto da Barra. A água quente, o sol se pondo — eu até escrevi sobre o melhor evento que eu já presencei em Salvador, lá no Porto, o Espicha Verão — são elementos e testemunhas de que a natureza, para quem não se fecha nos artifícios do concreto, tem papel formativo na cabeça das pessoas. Ainda que só hoje eu possa dizer, reconhecer e expressar a dimensão dessas experiências em minha vida, dar-lhes o tamanho devido, já então elas tinham intuitivamente toda a importância que agora eu comunico. As viagens de ônibus e os o banhos de mar me ensinaram mais do que a maioria dos livros que eu tive que ler. É incrível a quantidade de coisas que a gente pode aprender longe das fontes oficiais de aprendizado, quando estamos prestando atenção.

PS. Escrevi pelo menos mais dois outros posts sobre viagens de ônibus. Um perfeitamente legível e até recomendável, e outro que pode ser lido depois de um esforço para superar os primeiros parágrafos, mas que talvez tenha suas compensações.

27 janeiro, 2016

Duas maneiras de ver Birth


Recomendo que vocês o assistam antes de ler o texto, pois o filme está descrito quase integralmente na postagem.

Birth foi dirigido por Jonathan Glazer, diretor de Under the Skin e de Sexy beast, filme que muita gente tem em alta conta. O filme me encantou porque apresenta uma clara tensão filosófica. Bem, se não filosófica, ao menos algo que se deixa ver desse modo. Após assisti-lo pensei que havia dois modos gerais de compreendê-lo.

O primeiro modo é o mais convencional. Trata-se de aceitar a explicação proposta no filme. O menino, que supostamente seria a reencarnação de Sean (marido de Anna), na verdade era apenas alguém que encontrou as cartas de Clara, sua amante. A partir do conteúdo das cartas, o menino, em alguma espécie de surto psicótico, decidiu fazer-se passar pela reencarnação de Sean. Esse modo de compreender o filme, no entanto, está apoiado em premissas aparentemente frágeis. Essa perspectiva se apresenta quando Clara, amante de Sean, descobre que as cartas que ela enterrou no parque haviam sido roubadas. Clara então pressiona o garoto, que também se chama Sean e que nasceu no ano em que Sean morreu, a confessar que ele roubou as cartas. O que há de sintomático aparece nesse diálogo:
Sean — Quem é você?
Clara — Pensei que você tivesse dito que era o Sean. Sou sua amante (lover)
Sean — Anna é minha amante.
Clara — Anna é sua esposa. Eu sou sua amante.
Clara — Se você fosse Sean, e eu meio que tinha esperança que fosse, você teria vindo a mim primeiro.
Além do roubo das cartas, o que restaura a normalidade das nossas crenças (que não costumam abranger a reencarnação) é a hipótese apresentada por Clara de que se o garoto fosse mesmo Sean ele a teria procurado primeiro, pois Sean a amava, conforme demonstravam as cartas trazidas como prova de que ele a amava mais, apesar dele não poder deixar sua esposa, Anna. No diálogo, no entanto, Clara diz: “eu sou sua amante” — mesmo que supostamente não acredite no que Sean diz. Sem perceber, ela se dirige ao garoto como se ele fosse Sean, seu amante. Clara está obviamente defendendo sua narrativa. Uma narrativa na qual ela é a mais amada, apesar de Sean não haver deixado sua mulher. Sob essa perspectiva, parece razoável que ela esperasse ser procurada primeiro — que ela esperasse ser reconhecida. A gente procura primeiro quem é mais importante e a reação da suposta reencarnação de Sean não se ajustava ao seu próprio modo de ver as coisas. Mas essa é uma hipótese, como outra qualquer. O que lhe dá força é a incapacidade do garoto de conciliar o amor por Anna e a constatação de Sean tinha uma amante. Mas essa dificuldade é própria a um garoto. Secretamente, nem mesmo Clara está inteiramente convencida de sua hipótese.

Vejamos então o outro modo. O filme elabora muito bem a perplexidade de todos diante da situação. A atuação de Nicole Kidman é fantástica e a do garoto, Cameron Bright, não menos soberba. Todos os parentes de Anna se mostram quase paralisados diante da situação. A reencarnação, naturalmente, quebra os nossos padrões de ação e inevitavelmente conduz a uma reavaliação de valores e crenças, se a aceitarmos. Sob essa perspectiva, o filme narra a gradativa e não sem solavancos sedimentação da crença de que o garoto trata-se mesmo de Sean na cabeça de Anna — e também de seus parentes. O ápice dessa trama é a desistência do noivado que Anna acabara de celebrar logo no início do filme.

O garoto não apenas oferece informações que dificilmente imaginaríamos contidas nas cartas a que teve acesso, mas também demonstra uma convicção e uma postura eloquentes e persuasivas. Não se trata, obviamente, de defender uma inferência ao invés de outra. O que me fascina no filme não é que ele ofereça mais elementos para que aceitemos a reencarnação, de sorte que poderíamos facilmente deduzir ou inferi-la a partir do que nos foi dado. O que fascina é justamente que não haja um propósito de responder à incerteza que nos é apresentada. Essa tensão é aquilo que eu considero filosófica. Pois diante disso vê-se que o tema, a reencarnação, não é mais que um aspecto secundário. O filme trata da construção de narrativas e dos limites impostos por crenças gerais — o que Wittgenstein chama de sistema de crenças — às alterações possíveis de uma narrativa. O propósito do filme não é responder, senão tensionar cada vez mais a questão que apresenta. Se a solução do filme não basta para que aceitemos a explicação proposta (a restauração da normalidade), fica então mais evidente seu pendor filosófico e sua qualidade artística.

Na postagem anterior, quando apenas mencionei o filme e sugeri a vocês que o assistissem, disse que ele realizava melhor que meu artigo o propósito de provocar uma reflexão. No meu artigo ¿Hemos ido a la Luna? a temática é muito semelhante, embora, claro, eu não me contenha em provocar. A questão é saber: se as nossas crenças fundamentais forem ameaçadas, o que fazemos? Para quem ou ao que apelamos? Podemos apelar a razões quando os próprios alicerces de interrogações ou afirmações racionais se veem ameaçados?

PS. A primeira cena do filme, o diálogo (ou o monólogo) no qual se ouve apenas a voz de Sean (o marido, professor de física aparentemente avesso a toda sorte de explicações paranormais), é uma peça importante nesse quebra-cabeças.

19 janeiro, 2016

Preconceitos intelectuais

Umberto Eco é respeitado o suficiente para nos oferecer um tipo de honestidade rara, a de confessar o papel dos livros não lidos no quadro de ideias dos intelectuais. Ler essa confissão é algo quase libertador, em especial para alguém que como eu se vê incapaz de devorar livros com a voracidade com que tantos o fazem, para quem passa de um livro a outro numa morosidade embaraçosa. Quando não simplesmente os abandona parcialmente lidos.

Acho que há também outra confissão catártica a fazer: devemos admitir os preconceitos intelectuais. Bem, a verdade é que talvez essa confissão seja só minha, não tenho pretensão de que ela seja um sintoma geral. Tampouco creio que se trata de uma questão moral. Preconceitos podem tem papel epistêmico, como já escrevi há muito tempo. Portanto, não acho que ter preconceitos intelectuais seja o sinal de qualquer tipo de característica repreensível. Antes, tê-los testemunha o papel que desempenha a opinião de amigos, professores, parentes na organização das nossas ideias. Não raras vezes essas opiniões se cristalizam e passam a funcionar como uma paradigma pelo qual regulamos e/ou avaliamos outras questões. Mas vejamos um caso particular para entender como isso funciona.

É inegável minha admiração por Freud — e pela psicanálise, consequentemente. Mas devo confessar que sempre tive um preconceito quase osmoticamente adquirido por Lacan. (Também poderia incluir aí Jung, mas vamos nos ater a Lacan). É bem verdade que a escrita de Lacan não favorece, especialmente se comparada ao brilho sem par da prosa freudiana. Mas é verdade também que uma certa má vontade atuava sobre minhas ações. No entanto, uma série de circunstâncias me levaram a relativizar (maledictum) meu preconceito. Influências (nova) de toda sorte. Por exemplo, ao me deparar com a análise de Safatle sobre relação estabelecida por Lacan entre o sujeito cartesiano e o sujeito do inconsciente — análise que mobiliza até os argumentos analíticos de Hintikka como instrumento — tornou-se difícil recusar o interesse pelo tema mediante um simples preconceito. E o problema do preconceito é esse: ele é dogmático e não argumentativo. Safatle estudou Lacan no Mestrado e no Doutorado. No Mestrado, foi orientado por Bento Prado Junior, uma figura que não inspira senão respeito. Difícil manter uma dogmática recusa de Lacan neste cenário.

As novas influências sem dúvida dissiparam meu preconceito contra Lacan, mas essa confissão importa justamente por seu carácter profilático. Quer dizer, parece necessária uma reavaliação sistemática dos nossos “valores intelectuais” a fim de evitar que preconceitos enraizados e quase desconhecidos nos impeçam de desfrutar autores que talvez sejam capazes de oferecer muito mais do que supúnhamos. Mesmo que ao final encontremos diferenças radicais, o diálogo com essas diferenças pode ter papel determinante e insubstituível. Desfazer-me de preconceitos sincera e honestamente assimilados tem me feito um enorme bem intelectual. E antes disso eu nem havia me dado conta de que minhas relação com certos autores e certas ideias eram essas: puro preconceito.

PS. A construção do pensamento lacaniano se dá não sem diálogos interessantíssimos com figuras como Meyerson e o próprio Heidegger. Sua ênfase na desmedicalização interessa qualquer um que se sinta atraído pela historicidade e normatividade das categorias médicas com as quais a experiência da saúde mental tem sido manejadas. Sobretudo se podemos adivinhar os efeitos políticos e sociais da observância estrita dessas categorias patológicas.

15 janeiro, 2016

O louco fala sozinho

Li espantado o que Maria Rita Kehl chama de reconhecimento da lei. O reconhecimento de que há um limite para o gozo. Segundo ela, em todas as sociedades humanas essa renúncia toma a forma da interdição do incesto. Não sei como é possível aferir essa constatação, no mínimo, curiosa. Nem de onde vem a legitimidade dessa lei não codificada — dos próprios costumes? mas tantos costumes cairam pelo caminho. Mas eu acho existe outra lei semelhante, outra interdição: não falar alto sozinho ou simplesmente não falar sozinho.

Talvez por isso a gente escreva, ensine. Para falar aos outros o que não podemos falar sozinhos. Dizer sozinhos. Talvez seja a essa a função do diálogo. Talvez por isso os loucos, em sua liberdade radical, falem sozinhos. Definitivamente por isso eu gosto do monólogo inicial de Whatever works:


PS. Claro que eu não que eu gosto do cientificismo e do nihilismo de Boris, mas o personagem do Larry David e o roteiro do Woody Allen são engraçadíssimo. É um narcisista ferido pela sua incapacidade de ver sentido nos complexos de informações que ele coleciona. Imperdível!

30 dezembro, 2015

Salvador, Lisboa e o PDDU



Salvador é muito parecida com Lisboa, inclusive topograficamente. Lisboa é uma cidade cheia de ladeiras, mas que ainda mantém bondinhos circulando, além de ter acrescentado ao sistema de transporte veículos mais modernos, VLT, como em Berlim e Barcelona. Em Salvador nós já tivemos bondinhos, mas eles foram asfaltados no final dos anos 60 pelo ímpeto modernizante do então prefeito designado pela ditadura, ACM (ele mesmo, o avô). No centro ainda é possível ver os fósseis dos trilhos, salvo engano, na Carlos Gomes e na Avenida Sete, perto da Praça Castro Alves. Sem bondes, Salvador agora é moderna. Na certa porque Lisboa é que é retrógrada. Um dia quando olharmos pra trás e contemplarmos a bela obra que o prefeito ACM (o Neto) deixou para os soteropolitanos — e o aplauso caloroso com que muita gente recebeu os paralelepípedos que ele pintou — vamos ter a mesma impressão de que fomos enganados. Neto e a equipe de paulistas que elaborou o projeto do PDDU (isso mesmo, o prefeito chamou uma equipe de São Paulo para elaborar o projeto, provavelmente porque não tem gente competente na Bahia pra fazer isso, certo?) parecem mesmo preocupados é em fazer crescer imensas paredes de concreto na cidade. Quando os paredões estiverem impedindo a visão dos pontos centrais da Cidade Baixa vocês me contam o que acharam dessa (como é mesmo a palavra?)... gestão.

Os dois mandatos de João Henrique foram simplesmente trágicos. Mas o maior dano que eles causaram à cidade, por incrível que pareça, foi ter incapacitado a maioria das pessoas de enxergar o que há de nocivo, conivente ou simplesmente paliativo nas ações do prefeito ACM Neto. Frente a tamanha incompetência e descalabro, até ACM Neto parece uma Ada Colau ou uma Manuela Carmena. Não que exista uma alternativa política em Salvador ao compromisso dogmático e irrefletido com a verticalização da cidade e ao descaso com o papel social do uso do solo. O PT no governo teria feito o mesmo, pois o objetivo dessas políticas, no fundo, não é o de expandir direitos, promover a cidadania dos moradores da cidade, tornar suas vidas mais confortáveis e incluí-los na dinâmica de crescimento da cidade. O objetivo dessas políticas parece o mesmo de sempre: favorecer empresários da construção civis e de outros setores — empresários que coincidentemente doaram (investiram?) grandes quantias para campanhas eleitorais de todos os partidos — enquanto as migalhas que caem da mesa onde é servido o banquete são alardeadas como enormes benefícios feitos em nome do povo. Não é em nome do povo e da modernização da cidade que o Mercado do Peixe foi posto abaixo?


Procurem nas fotos do centro de Lisboa prédio novos. Encontraram? Agora procure prédios novos que tenham mais de cinco andares. Encontraram? Se não encontrou é porque é difícil mesmo, são poucos e quase inexistentes. Há muitos telhados e construções antigas. Os prédios novos não estão no centro, porque o centro foi preservado. E a administração pública soube ordenar o espaço público de maneira a controlar as áreas de crescimento e determinar os espaços nos quais o garabarito de construção poderia exceder o limite do centro. A verticalização controlada é um indicador de planejamento e estratégia de crescimento. É um aspecto que, nas cidades planejadas, está consorciado também ao planejamento do transporte público, de sorte que as cidades diminuem a dependência do uso de carros e desafoguem o trânsito induzido pelo adensamento (quanto mais prédios e espaço comercial e/ou residencial, mais carros e mais trânsito). Mesmo a Parelela, uma região de Salvador que atabalhoadamente se transformou num foco de verticalização já não pode cumprir o papel estratégico de ser um canal de escoamento do potencial urbano, porque ela já está saturada. Mais prédios ali significará ainda maiores congestionamentos. O poder público precisa ser responsável, definir e criar condições para que novas áreas cumpram essa função. Além de organizar um sistema de transporte público de modo a substituir a inviável aposta num sistema privado de locomoção (carros, essa paixão nacional). Mas isso não pode acontecer enquanto a função da administração pública for simplesmente designar à iniciativa privada o papel de indutor e gerente do crescimento da cidade (a panaceia liberal: o mercado e a mão invisível resolvem tudo, resta saber onde esse conto de fadas é realidade). Como bem lembrava FHC (vejam só) numa entrevista à Piauí, o mercado sabe criar lucro, não valores. E a cidade precisa de valores. Salvador é uma forma de vida (com reflexos antropológicos, arquitetônicos, geográficos, culturais, musicais, etc.) que precisa ser preservada.

17 dezembro, 2015

Palpite pra eleição espanhola

Ontem pensei em deixar aqui registrado meu palpite pra eleição na Espanha. A votação será no domingo, dia 20. As pesquisas apontavam que o Partido Popular e o Ciudadanos juntos eram capazes de formar maioria. O PP aplicou a austeridade exemplarmente. Cortou tudo e em todos os lugares, mas não conseguiu tirar a Espanha de uma situação econômica delicada, apesar das melhoras recentes. As melhoras se devem mais à mudança do ambiente econômico europeu que aos efeitos salutares da austeridade, dizem alguns economistas. Apesar disso, o PP segue liderando as pesquisas de intenções de votos. As explicações se repetem: os conservadores são mais assíduos, dizem alguns — mas isso pode explicar resultado de um eleição, não de pesquisas. Há que considerar que o PP é um pouco como o nosso PP, herdeiro das tradições ditadoriais (franquista), e tem seus simpatizantes. E que ademais a Espanha é um país que ainda enfrenta problemas de natalidade e que tem uma população envelhecida (o que provoca, por consequência, problemas na manutenção no sistema de previdência social).

Bem, o caso é que o PP já faz parte do moldura política espanhola. O que surpreende é o Ciudadanos. Meu palpite para o domingo seria: acho que o Ciudadanos veio para renovar o ar viciado do PP, para emprestar um quê de novidade e juventude ao mesmo, ao de sempre. Isto é, Ciudadanos é um partido novo, com rostos novos, sem máculas (o PP está envolvido em inúmeros casos de corrupção), mais disposto a engajar-se em debates caros à juventude e às pessoas de mentalidade mais aberta (apesar de algumas cagadas, como essa). Assim, parte do eleitorado desencantado com o PP teria a opção de uma mudança sem muitas mudanças. O sonho de todo eleitor ordinário é promover uma mudança sem mudar absolutamente nada (o Brasil da "Carta ao povo brasileiro" que o diga, não é mesmo?). E o Ciudadanos é a mais perfeita representação desse projeto. É o PP rejuvenecido, penso eu. (Há que reconhecer que a figura do Alberto Rivera é mais simpática e mais aberta que qualquer uma das figuras do PP). A meu ver a posição do partido nas pesquisas eleitorais se deve não apenas ao desencanto e desgaste natural do PP, mas também à velha estratégia de orquestração do medo. No Brasil é assustador o número de pessoas que usam a luta contra o comunismo como argumento para apoiar discursos, partidos e figuras de caráter duvidoso. Na Espanha não é diferente. Quando é preciso inspirar medo em crianças o “bicho da cara preta” é uma figura empregada com frequência. Quando é preciso inspirar medo em adultos,  “bolivarianismo”, “comunismo” são as melhores opções. Também na Espanha a estratégia do medo foi usada à exaustão contra Podemos, especialmente porque parte da diretoria do partido trabalhou com governos latino-americanos e, principalmente, com Hugo Chavez. Medo, vontade de mudança (pero no mucho), desencanto, tudo isso parece contribuir para a ascensão do Ciudadanos e para a queda do Podemos registrada em pesquisas anteriores. As pesquisas na Espanha não são tão confiáveis. Não que as do Brasil sejam, mas me parece que as daqui flutuam demasiado. No entanto, nos últimos dias, quando se encerra o período em que é permitido fazer pesquisas, o quadro parece ter mudado. Podemos reapareceu como terceira força e o Ciudadanos caiu. Somado a este novo cenário, uma declaração recente de Alberto Rivera alterou meu palpite, o líder do Ciudadanos disse que “apoyar al PP o al PSOE tras el 20-D sería defraudar a la gente”.



Se Rivera estiver falando sério, o PP está em maus lençóis, porque sem maioria absoluta ele precisará do apoio de outros partidos se quiser continuar governando. O cenário, portanto, favorece Podemos. A coisa toda está aberta e não descarto nem mesmo, a julgar pelo enfrentamento de Podemos e Ciudadanos, que eles negociem um apoio para um eventual governo de Podemos — com ajuda do PSOE. Podemos apoiou o PSOE em muitas prefeituras da Espanha, embora não tenha participado em nenhuma delas. Do mesmo modo, PSOE ajudou a transformar Manuela Carmena em prefeita de Madrid — para desgosto de Esperanza Aguirre, do PP. Repito, a eleição continua aberta e acho que os palpites são ainda mais arriscados na política espanhola, sem o respaldo da sondagem constante das pesquisas, como acontece no Brasil, mas o cenário parece animador para Podemos e sobretudo para quem se ver livre do abominável Partido Popular. Como dizem os espanhóis: a ver!

14 dezembro, 2015

Birth

Escrevi um artigo tentando destacar um aspecto da obra de Wittgenstein. O artigo se chama ¿Hemos ido a la Luna?, mas Birth é muito mais feliz no intuito de provocar uma reflexão sobre os mesmos aspectos (embora, naturalmente, poucos tenham percebido o alcance do seu argumento). Aliás, o diretor Jonathan Glazer só fez filmaço. Lendo os comentários dos "especialistas" no Rottentomatos, impressiona que as pessoas se sintam a vontade para fazer juízos sobre o filme sem nem mesmo se perguntar se de fato o entenderam. Autocrítica é importante também para os críticos.

Outro dia escreverei um post chamado Duas maneiras de ver Birth. Recomendo que vocês assistam o filme antes de ver o vídeo abaixo ou de ler o post que escreverei.