23 agosto, 2017

Eficiência: o poder da verdade científica

“A coisa boa sobre a ciência é que ela é verdadeira se você acredita nela ou não” Neil deGrasse Tyson
Encontrei no Twitter essa frase atribuída a Neil deGrasse Tyson. É uma frase forte, porque ela enuncia o poder da ciência. É como se a verdade da ciência se impusesse mesmo sobre o seu descrédito. Não acreditar na ciência não faz dela menos verdadeira. Mas de onde vem esse poder? Pois muitas coisas podem ser ditas verdadeiras. Eu posso dizer que é verdade que 1) a sombra da lua passará por Idaho City no dia do eclipse solar, mas eu posso dizer também que é verdade que 2) nada pode ser mais rápido que a luz. A diferença entre as duas verdades é importante pra entender de onde vem o poder da ciência.

Crenças básicas (ou elementares) e crenças não-básicas: estrutura fundacionalista
Um epistemólogo fundacionalista poderia dizer que o poder da ciência se deriva de um sistema de justificação coerente baseado em crenças elementares verdadeira, isto é, crenças elementares verdadeiras apoiam crenças mais complexas que, por sua vez, apoiam outras ainda mais complexas, e assim por diante até que toda essa complexa série forme uma gigantesca estrutura que se apoia fundamentalmente sobre aquelas primeiras, elementares. Essas crenças elementares, na perspectiva fundacionalista, são tomadas como base de toda estrutura do conhecimento. Assim, em certa medida, a verdade pronunciada por Einstein de que nada pode ser mais rápido que a luz está apoiada nesse amplo conjunto de crenças compartidas, todas verdadeiras, que se apoiam sobre outras mais fundamentais até que se ancorem finalmente em crenças elementares. Escolhi o fundacionismo como modelo epistêmico, mas poderia ter escolhido coerentismo — que se distingue do fundacionalismo porque não pressupõe uma estrutura fundamental universalmente compartida. Meu propósito na verdade era apenas ilustrar que os modelos epistemológicos racionalistas acabam mascarando aquilo que é a premissa do meu texto: o fato de que o poder da ciência não deriva de suas verdades, mas sim da sua eficiência. Por limitarem-se a tratar da justificação (verdade é justificação), os modelos dão ares estritamente intelectuais, nobres, racionais, ao que em verdade é muito mais sujo, muito mais mundano do que se supõe.

Vejamos o que nos conta o outro exemplo de verdade, ligado à previsão científica sobre o trajeto da sombra da lua. O mesmo Neil deGrasse Tyson comentou esses dias no Twitter:
“O dividido Estados Unidos irá se unir hoje, acompanhando junto um evento cósmico previsto pelos métodos e ferramentas científicas”
Claro que a palavra chave aí é a “previsto” (predicted), um evento cósmico previsto pela ciência. A previsão cientifica dizia: olha, a sombra (eclipse total) vai passar por Dallas, por Ontario, por Idaho City, etc. No dia do eclipse a sombra estava lá, sobre todas essas cidades. Isso é poder num sentido concreto, o enunciado da frase de deGrasse diz isso mascarando essa concretude atrás da palavra verdade: não importa se você acredita ou não no que a ciência diz, a sombra estará lá. E quando ela passar sobre as cabeças daqueles que não acreditaram nas previsões da ciência, esses terão que se justificar de alguma maneira, porque o evento de fato aconteceu (ninguém vai negar essa banalidade). Você pode acreditar em muita coisa, inclusive que o mundo vai acabar por esses dias, mas se as suas profecias não se cumprem, não se mostram eficientes, você não terá poder sobre ninguém. Moral da história: não deixe que o quase misticismo envolvido no uso da palavra verdade te impeça de lembrar que é a eficiência científica que lhe confere poder, não suas verdades — eu posso fabricar um exemplo fictício de algo imensamente eficiente, embora irredutível a um sistema de verdades (conforme nossos modelos tradicionais). Imagine isso: se todo meu pedido a Deus (não importa se ele existe) fosse atendido, não importa qual fosse, você logo veria a ascensão de um poder igualmente eficiente, embora imensamente mais potente que o científicio, porque misterioso (isto é, porque não poderia ser explicado cientificamente). Poderiam testemunhá-lo não só aqueles que conhecem o complexo caminho da justificação epistemológica de um enunciado matemático apresentado no contexto da Física (poucos o conhecem e eu não estou entre eles), não apenas os iniciados na ciência, mas todo mundo, qualquer pessoa. Ou seja, da mesma forma com que qualquer um pode acompanhar a trajetória da sombra da lua num eclipse solar, mesmo que não acredite nos enunciados científicos que o predisseram. A diferença é que aqui não há explicação, cálculos e ferramentas, apenas o mistério. A base da minha perspectiva (pra quem quiser atacá-la) é a de que a força do mistério é imensamente mais abrangente e poderosa do que a do esclarecimento científico (por mais imensamente poderoso que este também seja).

(Essa é um dos pilares de uma série muito legal que eu vi nas últimas semanas: The Young Pope)

Se o caso fictício provocou incômodo, porque afinal de contas não é verdadeiro, eu pergunto: por que deveria ser? Não estou vendendo uma verdade (não sou cientista), estou vendendo um sentido, uma perspectiva. Estou mais próximo de um poeta que um cientista. As ficções de “Crime e castigo” me indicaram perspectivas e sentidos determinantes para minha vida (como a tanta gente, pelo que me consta). Aliás, sempre me refiro a um excelente texto de Rorty chamado The decline of redemptive truth and the rise of a literary culture que em certo sentido (e pelo que me lembro) tem algo que ver com tudo isso. Mas voltando ao tema: você poderia achar que esses eventos misteriosos não dariam lugar a um poder maior que o da ciência, é seu direito, como eu te disse, não estou vendendo uma verdade — portanto não estou acionando o mecanismo de coerção que constitui o segredo do racionalismo. Sobre isso, só posso falar (e convencer) quem já pensa como eu. Mas o sentido do meu caso fictício é mostrar (àqueles que em certo sentido pensam como eu) como seria possível construir um poder não baseado na verdade que, no entanto, fosse capaz de impor-se independente de nossas crenças. E, por isso, que o poder da ciência está baseada em sua eficiência causal e não em suas verdades.

PS. Que eu possa imaginar um caso fictício não significa que ele possa acontecer, é verdade, mas isso não importa. Às vezes a imaginação (a ficção) pode nos ajudar a entender a realidade melhor que a verdade. Um dos textos que eu mais gosto sobre Wittgenstein foi escrito por seu biográfo, Ray Monk. Nesse texto, Monk lembra uma das mais cortantes frases de Wittgenstein (que está em Cultura e valor):
As pessoas pensam, nos dias de hoje, que os cientistas existem para instrui-las, poetas, músicos, etc., para lhes dar prazer. A ideia de que estes tenham alguma coisa que ensiná-los, isso não lhes passa pela cabeça.
PPS. As verdades científicas e sua eficiência causal constituem uma mesma coisa. Suas verdades determinam sua eficiência causal. Pode ser, mas sem a eficiência causal, as verdades pouco importariam e é nesse sentido que meu exemplo bizarro (mais um), ao oferecer uma distinção fictícia entre eficiência causal e verdade, sublinha aquilo que já sabíamos: que é a capacidade instrumental da ciência que lhe dá poder. As pessoas querem construir, destruir... controlar, não importa por que meios, não por apego ou respeito à verdade, mas por apego ao poder, pela vontade de poder. Não convém perder isso de vista falando em verdades.

13 agosto, 2017

Convicção e Tendência à confirmação

“Se a única ferramenta que você tem é um martelo, você tende a ver todo o problema como um prego” — Abraham Maslow

O que determina a nossa tendência a fazer com que as coisas, as experiências e o sentido que lhes conferimos, sempre se ajustem a nossa visão de mundo? Uma resposta possível poderia ser: o fato de não termos alternativa e de não estarmos familiarizados com perspectivas diferentes da nossa. Como assim, não temos alternativa? Grande parte da nossa visão de mundo se constitui por inculcação, isto é, por meio do condicionamento (adestramento) que nos familiariza com certos conceitos, com certas ferramentas com as quais lidamos com o mundo. Não temos outras opções, os instrumentos que herdamos são os únicos com os quais podemos lidar com o mundo, de tal sorte que as coisas que ameaçam esse conjunto de instrumentos (que formam um sistema) correspondem a um perigo real. A mera repetição tem um papel fundamental na construção da nossa visão de mundo. O que se constitui por meio da repetição e do condicionamento — os conceitos, as ideias, as imagens — são as próprias lentes com que visamos toda a experiência possível, a moldura com que enxergamos a realidade. Essas lentes não são descartáveis, elas são a própria condição de toda experiência, tudo que pode acontecer, para que possa ter sentido, deve se ajustar a elas. Nada deve ficar do lado de fora. Assim, não ter alternativa significa não ser capaz de ver o mundo fora dessa moldura, de outra forma e segundo outra perspectiva.

Um exemplo bizarro talvez ajude a esclarecer o que quero dizer: imagine que você olha pro céu e vê uma baleia voando. Um exemplo menos extravagante não poderia dar conta do propósito do exemplo que é ilustrar o colapso de nossos paradigmas. Mesmo quem nunca estudou física e biologia sabe o dispare que é imaginar uma baleia voando. Os princípios e leis científicas não são nada mais do que o esforço para dar contornos nítidos à regularidade dos eventos naturais (por meio de leis naturais) que povoam nossa experiência. Uma lei como a lei da gravidade se reafirma cotidianamente, a cada a nova experiência, sempre que acidentalmente deixamos cair o pão ou a caneta. Se um evento francamente incompatível com essa lei pudesse acontecer — como no caso da baleia voadora — e não pudéssemos encontrar uma explicação razoável (um exemplo tão bizarro tem seus méritos), pareceríamos compelidos a revisar todo o marco de nossas explicações e nos veríamos numa situação difícil. As leis muito gerais da ciência, como a gravidade, mesmo que em tese sejam falsificáveis, como queria Popper, tem um papel tão importante na estruturação e no controle de toda a experiência que seu possível colapso nos levaria ao completo desamparo, isto é, a uma situação para a qual não estamos preparados e à qual aparentemente não saberíamos ao certo como reagir.

Mas o que isso tem a ver com a tendência à confirmação? Nossa visão de mundo é um sistema de crenças e sua estrutura é como a de um castelo de cartas no qual cada peça está direta ou indiretamente ligada às outras. Dentro desse sistema a possibilidade de certas mudanças implica transformações radicais em nossa visão de mundo e poderia nos levar de um mundo familiar, com o qual estamos acostumados, a um mundo estranho e imprevisível, com o qual ainda precisaríamos nos familiarizar. A tendência à confirmação é uma certa disposição diante da possibilidade de um desamparo epistêmico ou da falta de sentido, isto é, da possibilidade de estar diante de uma situação não familiar à qual não sabemos o que pensar e como agir. A convicção que caracteriza e acompanha essa tendência parece funcionar como um estabilizador de visões de mundo. Assim, tendemos as selecionar os fatos que salvaguardam nossa visão de mundo, pois não temos nenhuma outra para substitui-la caso aceitemos que algo possa de fato colocá-la em perigo. Mas isso não significa que a tendência a confirmação (e a convicção que a acompanha) seja uma tendência deliberada, voluntária e consciente para preservar a estabilidade de nossa visão de mundo, essa estabilidade é antes o resultado da falta de alternativas. Tendemos a preservar nossa visão de mundo porque, mesmo que alguma alternativa se apresente, ela será menos familiar que a nossa própria e a transição (a conversão) a uma nova perspectiva implicaria, no mínimo, algum desconforto, uma insegurança diante da experiência e a necessidade de uma readaptação. Nada pode nos compelir, nos obrigar a reavaliar as bases que estruturam nossa visão da realidade, por isso mesmo toda essa temática está estreitamente ligada à questão da vontade e de seu papel na manutenção de nossa perspectiva. Se é verdade que os fatos (a descoberta de fatos novos) estão no centro da perspectiva científica sobre o mundo e parecem poder determinar alterações substanciais na nossa percepção da realidade, é certo também que grande parte da nossa visão de mundo permanece surda aos apelos da razão (isto é, à pretensão racional de constranger e obrigar por meio de razões), estando antes ancorada na vontade, isto é, num dimensão imune a qualquer constrangimento causal ou racional (daí porque, nesse pontos nodais, falamos em persuasão e não em convencimento).

Tudo isso deveria nos levar a considerar mais cuidadosamente o papel da imaginação. Se a passagem a uma situação não familiar — portanto não controlável porque não sujeita às normas estruturantes que herdamos ao adquirir nossa visão de mundo — representa uma ameaça abertamente rejeitada pela nossa vontade (vontade e razão andam de mãos dadas), talvez a possibilidade de uma posição diferente diante do desamparo, das situações não familiares, de tudo aquilo que foge ao nosso sistema de convicções, possa resultar de um maior espaço concedido à imaginação. Naturalmente, a imaginação não pode criar familiaridade, quer dizer, levamos muito tempo para nos acostumarmos à nossa visão de mundo e a imaginação não pode, num piscar de olhos, converter uma perspectiva distinta em algo familiar, mas ela pode nos tornar mais abertos à mudança. A convicção não poucas vezes nos fecha às mudanças e, em termos éticos, nos fecha à diferença e à alteridade. A imaginação não é incompatível com a convicção, mas ela pode determinar uma atitude diferente diante daquilo que não se encaixa em nossa visão de mundo. O efeito mais danoso da tendência à confirmação é o isolamento e a impossibilidade de entender diferenças radicais, e esse parece um dos maiores desafios de um mundo globalizado (apesar dos efeitos homogeneizantes da globalização). Quer dizer, num mundo dominado pela ciência, é muito difícil não abraçar uma perspectiva na qual todas as diferenças podem ser reduzidas a um solo comum e universal. Diante disso, é natural que cada um acredite poder justificar suas perspectivas frente a outras — ciência é justificação. Assim, o apelo à imaginação reflete a compreensão de que, apesar dos muitos campos comuns da nossa experiência passíveis de serem arbitrados pela lógica da nossa linguagem, o sentido do nosso simbolismo comporta graus de inteligibilidade que não podem ser acessíveis senão por um esforço imaginativo de compreender as circunstâncias que conferem sentido à visão de mundo dos outros. E mesmo o mais importante cientista arrisca mostrar-se intolerante se a convicção em suas posições determinar um senso de universalidade que lhe impeça de compreender a pluralidade das visões de mundo possíveis e a singularidade que cada conjunto de circunstâncias engendra, a despeito do indeterminado número de aspectos compartidos (universais) entre as diferentes perspectivas.

PS. Apenas recentemente tomei conhecimento do tópico de investigação psicológica conhecido como confirmation bias, mas desde então o tema me interessa profundamente, embora eu não tenha encontrado ocasião para ler algo nada técnico a respeito. De todo modo, me parece que a questão pode ser aproximada à discussão sobre certeza, convicções e visões de mundo (num âmbito lógico, conforme o entendimento de Wittgenstein).
PPS. Não sem razão a lógica e a matemática sempre foram apresentados como modelos de racionalidade, isto é, da capacidade da razão de constranger, de conduzir-nos “por paredes muito rígidas”. A força do dever e da necessidade lógico-matemática. Razão é poder. — Mas essa força não se deriva da generalidade (universalidade) das suas leis, como pensavam os formalistas.

25 junho, 2017

O que é o mal e por que isso importa?

Pode parecer anacrônico perguntar pelo mal em pleno século XXI, mas não é. A questão está muito presente em nossa realidade, mascarada em diversas visões de mundo.

Por exemplo, o que vocês acham que está em questão quando uma associação de classe defende as ações indefensáveis de seus agentes alegando que não aceita a criminalização de policiais? O que está em jogo quando é pronunciada a já clássica sentença: "bandido bom é bandido morto"? Essas posições tem em comum o fato de não aceitarem abrir mão de uma perspectiva orientada fundamentalmente pela distinção entre bem e mal. Nesse sentido, o mal nada mais é do que uma parte constitutiva de um antigo e funcional sistema de referências. Nós lidamos com o mundo a partir de esquemas que tentam dar sentido à nossa experiência, o bem e o mal fazem parte de um marco de referências antigo e muito abrangente. Isso significa que ele permite organizar e, em certo sentido, explicar experiências as mais variadas. Mas o que é que isso tem a ver com "bandido bom é bandido morto" e com a reação da associação?

Nós vivemos numa sociedade que quer, pelo menos no discurso, fazer prevalecer sobre o marco de referência do bem e do mal uma perspectiva científica e racional, que explica a experiência a partir de fatos ordenados segundo causas e efeitos. A perspectiva científica do mundo não é exatamente plural (embora seja, em certa medida, internamente plural), ela não admite concorrência. A concorrência é, antes de mais nada, uma ameaça à sua eficiência instrumental e ao seu poder, mas não vem ao caso discutir isso agora. O fato é que quando a ciência toma a frente na interpretação do mundo, ela desloca todos os antigos sistemas simbólicos e suas perspectivas sobre a experiência para um terreno marginal. Vejamos tudo isso num caso concreto: um homem comete um crime e é linchado com a conivência de policiais. Os autores do linchamento são identificados e presos e os policiais afastados do serviço. Segue-se a isso o natural protesto daqueles que acham operou-se uma inversão: o criminoso foi vitimizado e os policiais, condenados. A palavra vítima aqui é central e não sem razão ela aparece com frequência no discurso contrário aos direitos humanos. A ciência não está ocupada em determinar quem é vítima, quem é culpado, essa é a função da justiça, ela pode auxiliar no processo judicial, mas seu papel aí é meramente instrumental (como sempre, aliás). Mas é verdade que ela desmobiliza uma certa perspectiva de poder ao complexificar um fenômeno e apresentar  alternativas pra interpretar um mesmo fato. Quem orienta sua visão de mundo a partir da distinção entre bem e mal está quase sempre em guerra e opera todas suas distinções segundo uma lógica binária que identifica bons e maus. Neste terreno estrito não raras vezes as pessoas consideradas boas agem incondicionalmente bem e pessoas más agem incondicionalmente mal. Cada grupo e cada papel social está incondicionamento instalado no lado do bem ou do mal, independente de suas ações. Por isso a associação de classe não aceita a mudança de papéis, nenhum ato de uma pessoa boa pode convertê-la numa pessoa má. O bem e o mal, nesse cenário, são estratégias de mobilização de afetos e de construção de poder — como o nacionalismo, em certa medida. Quando a ciência substitui essas amplas e gerais categorias por uma perspectiva instrumental multidisciplinar, ocupada fundamentalmente com fatos, ela pergunta pela causa e não pela natureza moral do agente. E o interesse da ciência é compreender para controlar. Nesse sentido, ela de fato atenua a força mobilizadora do combate ao mal, fazendo da manifestação do mal — do ato do homem que cometeu um crime — um efeito num quadro de causais possíveis e quase sempre determináveis.

E o que isso significa? Significa que a possibilidade de apontar o dedo para culpados perde sua força mobilizadora pela compreensão do ato maligno como uma ação que talvez pudesse ser evitada influindo sobre as suas causas. Percebam que em um sentido muito importante a ciência pode sim atenuar os efeitos de um crime, mostrando que as ações de um criminoso são parcialmente determinadas por causas comprováveis e que sofreram influências de variáveis ambientais ou endógenas. Num ensaio sobre as paixões, Gérard Lebrun lembrava que nosso ordenamento jurídico admite a possibilidade de atenuantes para crimes passionais. Isso quer dizer que nem é preciso estar patologicamente afetado, mas apenas temporalmente incapacitado, parar beneficiar-se da compreensão de que nem sempre temos pleno controle de nossas ações. É preciso insistir quantas vezes forem necessárias que isso não significa que a ciência converta culpados em vítimas, ela apenas apresenta um fato de tal sorte que possamos vê-lo como um ponto sobre o qual incidem inúmeras variáveis desconhecidas embora muitas delas sejam determináveis. Ao fazer ver essas variáveis, que muitas vezes tem naturezas distintas — social, psicológica, bioquímica —, a ciência converte-se também num instrumento político. Quer dizer, se você aceita compreender a violência, o crime, em termos de suas circunstâncias e causas, você está a um passo de questionar a adesão imediata e incondicional exigida por parte de quem está do lado do "bem". Não porque você deixou de reconhecer o bem e o mal, ou mesmo de distinguir entre vítimas e culpados, mas porque o entendimento dos fenômenos da vida se complexificou. Se os "guerreiros do bem" rejeitam essa complexificação a todo custo não é porque ela transforma heróis em culpados e criminosos em vítimas, mas porque uma perspectiva complexa erode o apoio incondicional que eles precisam para se manter como força política, capaz de moldar visões de mundo, investir contra ideias, direcionar e mobilizar pessoas contra alvos precisos.

E como é que a guerra contra o mal pretende combatê-lo? Os guerreiros do bem pretendem vencer o mal acabando literalmente com ele, daí o "bandido bom é bandido morto". Se traduzimos esse objetivo em termos teóricos, fica estampada a fragilidade da estratégia: não parece razoável esperar que os efeitos do mal (a violência, o crime, etc) acabem pela simples eliminação dos seus agentes (isso equivaleria a descartar por completo variáveis ambientais e sociais). Mas quem se recusa pensar a violência em termos de suas variáveis determinantes precisa exibir uma crença quase infantil no efeito pedagógico da punição. "Vamos matar e punir, assim os próximos pensarão duas vezes antes de cometer crimes". Como alguém pode justificar uma crença como essa? É bem verdade que o medo é uma ferramenta poderosa, mas isso não significa que ele seja eficiente em todos os casos. Alguém conhece algum país com taxas de criminalidade razoáveis que tenha atingido essa condição eliminandos todos os seus criminosos? Esse é o tipo de argumento que se constitui e se sedimenta por mero condicionamento, pela repetição de ideias que circulam e acabam transformando-se em verdades irrefletidas, admitidas quase como dogmas, e pelo apelo simplificador e sedutor do autoritarismo.

O perigo de comparar o ponto de vista científico com a perspectiva de quem não admite abandonar o bem e o mal como único parâmetro para enxergar o mundo é transformar o debate numa luta dos iluminados contra o obscurantismo e o atraso. Desde que Trump entrou na Casa Branca, o mundo se viu varrido por uma legião de seres iluminados que tem lutado bravamente para salvar a ciência e o conhecimento humano. Essa ideia reedita a luta binária do bem contra o mal em outro cenário, aplaina uma conjuntura complexa e enfraquece a nossa já combalida capacidade de criticar a ciência e de entendê-la como parte da solução, mas também do problema. (Acho que esse texto do New Yorker dá uma boa medida disso que estou falando).

Por fim, o bem e o mal seguem sendo referências fundamentais em todos os tipos de sociedade, embora já não seja a perspectiva explicativa primordial. Os filmes de terror exploram isso. Apesar de seu poder, a ciência tem limites e nem tudo pode ser determinado e explicado cientificamente. Quando um ato maligno não se explica segundo causas, mesmo depois de uma busca exaustiva, é naturalmente que as pessoas pensem que foi a maldade própria ao agente a responsável pelo ato. Esses dias eu li a história de um garoto que tentou matar os pais sem motivos aparentes, e pensei que essa história bem poderia ser explicada apelando a alguma força maligna. Nesse caso, fica evidente o poder explicativo desse sistema de referências tão antigo, isto é, sua capacidade de restituir o sentido onde nós já não podemos enxergá-lo. Mas converter todo ato maligno em expressão da maldade de seus agentes é apenas uma ferramenta para mobilizar pessoas na guerra contra outras pessoas, promover políticos e políticas autoritárias, fazer-nos esquecer das responsabilidades que todos nós temos como cidadãos, mascarando, por exemplo, o impacto que a desigualdade produz na vida dos outros. Não sem razão boa parte dos que acreditam cegamente na capacidade pedagógica da punição e na luta do bem contra o mal creem que nenhuma variável influencia nosso comportamento, que tudo é uma questão de vontade e que é por mera escolha que as pessoas se formam. Mesmo que suas próprias ideias sejam a expressão de que o condicionamento é muito mais forte que a deliberação, elas permanecem engajadas numa luta política contra qualquer tipo de pensamento que não admita que não somos meros resultados de nossas escolhas. E fazem propaganda de tudo que confirma sua perspectiva, de todos os casos que supostamente atestariam que somos apenas o resultado de nossas escolhas, independente de nossas circunstâncias. Nenhuma receita mais apropriada para conservar a eterna desigualdade de um país como o Brasil.

Se Vitor conseguiu, qualquer um pode conseguir.
Quem não consegue é porque não se esforçou o bastante, afinal somos todos iguais e tudo é possível, não é mesmo? Esse é o único momento em que conservadorismo se aproxima de uma perspectiva igualitária. 

PS. Essa bizarra manifestação de um juiz é a melhor expressão do "argumento" que mescla poder e religião.

01 junho, 2017

As reformas e a Eleição Direta

Admitir a necessidade de reformas transformou-se num critério de responsabilidade política. Quem não aceita essa imposição da realidade só pode estar manipulando o interesse público em prol de uma agenda populista e irresponsável. Se as reformas são necessárias, como nos faz crer uma imprensa seriamente comprometida com uma certa agenda econômica, precisamos discutir que tipo de reformas são necessárias e quais são prioritárias. No entanto, hoje esse debate está claramente distante de um marco democrático. A relação entre o povo e as reformas é análoga à relação entre um médico (escolha a autoridade que preferir) e um paciente. O médico prescreve o que é necessário e o paciente bovinamente aceita a prescrição do médico como se fosse uma revelação divina, inquestionável e ininteligível ao intelecto de um mortal. Quando as ações políticas de um governo se determinam segundo prescrições teóricas que nem mesmo ponderam a vontade popular, a democracia perde qualquer significado e a tecnocracia triunfa. Nesse cenário, a reforma vira uma espécie de cheque em branco.

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Que reformas tem sido promovidas? O governo tem feito enormes concessões a empresas, perdoando dívidas bilionárias. O novo Refis é mais benevolente com empresas devedoras, diz hoje o Poder360. Enquanto isso, na previdência, o funcionalismo público e os militares não entraram na ciranda de avaliação da dívida da qual são proporcionalmente os maiores responsáveis. A reforma trabalhista, desenhada para estimular os job creators, vai dificultar ainda mais o problema previdenciário que nem sequer foi tocado em função da exclusão, por razões políticas, do funcionalismo público. A quem interessa esse tipo de reforma e quais são os seus resultados? Ora, a resposta é bastante óbvia, Rodrigo Maia já nem disfarça, apesar da seriedade com que especialistas os mais diversos tentam mascarar as intenções que a animam. Foucault nos lembrava com insistência que a verdade é utilizada invariavelmente como a chancela (a legitimidade de um saber) de alguma força política e de algum sistema de poder. Afinal, como um povo a quem já não mais se escuta pode questionar as verdades sabiamente demonstradas por todos os doutores que sustentam por A + B a necessidade dessas reformas?

Queiram ou não os ressentidos, o fato é que a institucionalidade da vida pública foi completamente erodida quando teve lugar o golpe parlamentar. E não apenas porque o relator do impeachment também já havia assinado créditos suplementares, como tantos outros governadores. Mas também porque o menino mimado que ficou em segundo lugar nas eleições de 2014 entrou com uma ação contra o PT no TSE só pra encher o saco. A legitimidade é uma construção simbólica frágil numa democracia tão jovem e instável como a nossa, quando o derrotado numa eleição tão apertada como a de 2014 inventa intrigas e levanta suspeitas quanto ao resultado eleitoral apenas por birra, ele estimula seus eleitores a não reconhecer a legitmidade do governo e parte desse precário arranjo se esfacela. Ninguém precisa concordar com as ações de um governo para o qual não votou, mas a própria força institucional depende de que se mantenha ao menos um certo respeito. Uma vez perdido esse respeito pelo papel institucional de um governo, as coisas se passam segundo a lógica dos “fins justificam os meios” e toda ação dirigida a destituir o governo parece (falsamente) ganhar legitimidade. Hoje em dia todos sabem que legitimidade da escolha popular foi revogada por dois motivos: para desindratar a Lava Jato, em favor da classe política, e para promover reformas favoráveis à classe empresarial que financia os políticos. É preciso reconstruir essa legitimidade. É difícil? Sem dúvida. Há muitos problemas, muita oposição, e nenhum partido parece especialmente interessado nessa possibilidade, em grande parte por motivos estruturais. Celso Rocha de Barros tem um bom texto sobre os riscos do Pós-Temer, vale a pena a leitura. De todo modo, apesar das dificuldades, a eleição direta tem que ser uma aposta na reconstrução da legitimidade das ações do governo, ela tem que acompanhar um compromisso supra-partidário de respeitar o resultado das eleições e a institucionalidade do governo, e um esforço para promover e estimular, entre os eleitores, o respeito à ordem institucional, mesmo no caso da vitória do adversário político. Do jeito que nós estamos hoje as pessoas só aceitariam a vitória dos seus escolhidos e assim nós não podemos escapar dessa crise.

Se o casuísmo prevalecer, como tem acontecido, a democracia naufragará e ficaremos reféns dessa ou daquela autoridade (dessa ou daquela força econômica) que, tendo meios, fará prevalecer sua perspectiva, a despeito da vontade geral. Não é uma saída simples, não há nada garantido, mas é menos pior, pra quem ainda acredita na democracia.

PS. Vale a pena ler essa perspectiva favorável às eleições indiretas e suas razões.
PPS. Encontrei um bom texto sobre o porquê da urgência na aprovação das reformas.

17 maio, 2017

Racionalistas sem razões: a cultura sem vitalidade de Ortega y Gasset

Traduzi esse pequeno fragmento de um ensaio de Ortega y Gasset chamado El doble imperativo. É uma crítica preciosa e precisa à falta de vitalidade das ideias e práticas daqueles que apenas defendem cegamente o que foram ensinados (adestrados) a acreditar (mesmo que seja a razão esse artigo de fé, ou a democracia). É uma observação que faz coro às críticas de Feyerabend aos cientistas adestrados. E como não poderia deixar de ser, vejo na quase oposição entre vida e cultura, algo semelhante à oposição entre prática e regra, em Wittgenstein. Isto é, a prática dá sentido às regras, às normas, às leis, tal como a vida dá ocasião à cultura. Uma regra que deixa de ser aplicada deixa de ter sentido — as regras gramaticais das línguas mortas ilustram bem esse caso, mas o exemplo que eu mais gosto é a ideia da Lei pra inglês ver: uma lei sem vitalidade, sem força coerciva, porque nunca praticada. Do mesmo modo, num ambiente objetificado, que cristaliza as suas leis e normas e faz com que os homens as sirvam, e não o contrário, a cultura perde sua vitalidade, sua espontaneidade, e sua capacidade de responder aos problemas da nossa vida.
As gerações inventoras do positivismo e do racionalismo consideraram amplamente, como coisa de importância vital para elas, as questões que esses sistemas agitam, e dessa enérgica colaboração íntima extraíram seus princípios de cultura. Do mesmo modo, as ideias liberais e democráticas nasceram do vivo contato com os problemas radicais da sociedade. Hoje quase ninguém trabalha assim. O trabalho característico do presente é o naturalismo que jura pelo positivismo, sem se haver dado ao trabalho de reconsiderar o tema que aquele formula; é o democrata que nunca pôs em questão a verdade do dogma democrático. Daí resulta a burlesca contradição de que a cultura europeia atual, ao tempo em que pretende ser a única racional, a única fundada em razões, já não é vivida, sentida por sua racionalidade, mas adotada misticamente. O personagem de Pío Baroja, que crê na democracia como se crê na Virgem de Pilar, é, junto com seu precursor, o farmacêutico Homais, representante titular da atualidade. (...) O tradicionalista está de acordo consigo mesmo. Crê nessas coisas místicas por motivos místicos. A todo momento pode aceitar o combate sem encontrar dentro de si vacilações nem reservas. Ao contrário, se alguém crê no racionalismo como se crê na Virgem de Pilar, significa que deixou, em seu fundo orgânico, de crer no racionalismo. Por inércia mental, por hábito, por superstição — em definitivo, por tradicionalismo — segue aderindo às velhas teses racionais, que já distantes da razão criadora, se enferrujaram, se engessaram (hieratizado) e se bizantinizaram.

El tema de nuestro tiempo

13 maio, 2017

Lula e a imprensa

Lula após o depoimento em Curitiba. Foto: Ricardo Stuckert
Seria bom que a esquerda tivesse uma alternativa que não fosse contar com a candidatura messiânica de Lula? Seria. Agora, como isso vai se dar? Tem gente de esquerda que, tendo em conta essa necessidade, tem visto com bons olhos a possível candidatura de Ciro Gomes. Tem gente que, mais à esquerda, foge de Ciro como o diabo foge da cruz. Saber o que não se deve fazer nem sempre nos ajuda a determinar como nós devemos agir. Na prática a teoria é outra.

O que parece é que tem muita gente disposta a admitir que a imprensa seja o catalisador dessa mudança necessária à esquerda e eu não consigo aceitar essa ideia. Vejamos as circunstâncias. São cinco os processos que pesam contra Lula. Certamente tem alguém melhor informado do que eu sobre os detalhes de cada processo, mas me parece que falta materialidade em todos eles. E o caso do triplex é exemplar. O monitor do debate político rastreou as notícias mais compartilhadas no dia do depoimento de Lula. Dentre elas estava uma matéria do site Spotniks que, como todos sabem, não esconde suas inclinações políticas. O título da matéria é: Se você ainda acha que não há provas contra Lula na Lava Jato, precisa ler esse texto. O texto joga com a ambiguidade da palavra prova (que tem um uso técnico no Direito e um uso cotidiano), não há nenhuma intenção de fazer uma avaliação técnica sobre o que se apresenta como “prova” e sobre como as coisas que estão ali alegadas podem verdadeiramente corresponder a provas. Li também um post de um blog da Gazeta do Povo que trazia uma confusão similar, o título do post era: Lula em Curitiba: dez pontos para você não cair na histeria (de nenhum dos dois lados), e lá dentro havia uma afirmação que também partia de uma perspectiva igualmente equivocada:
Pode muito bem acontecer de Lula ser culpado e de não haver provas suficientes para que ele seja condenado ou preso. Isso faz parte do regime democrático e querer que alguém vá preso se não houver culpa ou se não houver provas é o mesmo que defender um Estado de exceção.
Não, “não pode acontecer”. Ou você aceita os critérios da justiça, os seus ritos e processos — o que não significa que você precisa concordar com eles, já que “em nome da justiça” tem-se atropelado o processo penal — ou tudo que lhe sobra é um juízo moral sobre a culpabilidade. Ou seja, não há possibilidade de que exista um culpado se não há provas suficientes. Acho que se está formando um ambiente favorável à aplicação de um Domínio do Fato 2.0. O primeiro caso de aplicação também foi conveniente, já que parecia impensável que nenhum político fosse responsabilizado pelo escândalo do Mensalão. Mas acho que essa conveniência está se mostrando algo arbitrária.

Não se trata de defender Lula, que fique claro. As pessoas tendem a prestar atenção só no que lhes interessa. Trata-se apenas de analisar as circunstâncias num contexto mais amplo e à parte a narrativa que a imprensa tem adotado em uníssono. Por exemplo, Fernando Henrique Cardoso e o próprio Gilmar Mendes andaram defendendo a distinção entre caixa dois e corrupção. O motivo provável, livrar a barra de Aécio Neves. Logo depois do depoimento de Lula, onde até pedras puderam notar a tendenciosidade de quem deveria meramente julgar, o enfoque e a estratégia da imprensa mudou. (Lula saiu de lá fortalecido simbolicamente, a despeito dos links que circularam na internet, já que é evidente para qualquer pessoa atenta que Moro não tem presença e que não é um sujeito muito inteligente: uso sempre como parâmetro para ilustrar isso o encontro de Moro e Gilmar Mendes no Congresso; digam o que quiserem de Gilmar Mendes, mas ele é inteligente e sabe como falar e atuar, Moro diante dele parece uma criança perdida e balbuciante.) A despeito da capa deplorável da Veja e dos “coincidentes” enfoques das manchetes, a estratégia passou a ser explorar as delações dos marqueteiro do PT e de sua mulher. Eu acho que a delação premiada é um instrumento inadequado e perigoso, que tende a minar o próprio procedimento penal, mas vamos supor que há muitas verdades nessas declarações. Onde é que fica Lula na comparação com Michel Temer e seus ministros, Aécio Neves, José Serra, Geraldo “Santinho” Alckmin e outros? Como é que Lula se encaixa naquela distinção insistente e convenientemente sublinhada por Gilmar Mendes e FHC? Se a distinção serve pra alguma coisa, é difícil explicar a enorme atenção concedida a Lula pela imprensa, senão pelo propósito de desidratar sua possível candidatura em 2018.

Lula e a imprensa nem sempre estiveram em lados opostos. Todo mundo sabe que os interesses dos governos do PT e os da imprensa coincidiram não poucas vezes. E os petistas souberam se valer dessa força e desse apoio. A crítica à imparcialidade e à seletividade da imprensa, preocupada não em relatar fatos mas em mascarar opiniões com uma camada fina de verniz que mal disfarçava suas intenções, se reduziu à mera caricatura produzida pela pequena parte da imprensa adestrada e financiada pelos governos petistas. Se reduziu a caricatura sintetizada na palavra PIG (Partido da Imprensa Golpista). Mas isso não significa que a questão tenha deixado de existir. O caso é que quase impossível levantar um debate sobre o papel da imprensa na constituição do clima e das ideias que tem circulado no país sem se contaminar com as cores dessas caricaturizações, sem que alguém te tome como um crítico entusiasta do PIG. Assim o debate foi inteiramente escanteado.

E assim também nós chegamos a este cenário no qual a esquerda parece constrangida a renovar-se e a imprensa — em alguma medida, pro bem ou pro mal — parece ter um papel nessa renovação, já que pode frustrar os planos dos que (erroneamente, sob a perspectiva que eu estou apresentando) creem no plano salvacionista de Lula 2018. A gente fecha os olhos pro papel da imprensa na confecção das narrativas que tem circulado no país e assim em breve teremos um cenário no qual Lula não está, porque a pressão popular vai tornar impossível um outro veredito — talvez pensem (secretamente) alguns. Não se trata tampouco, diga-se de passagem, de constrager quem quer que seja a posicionar-se numa luta binária entre uma certa esquerda e a imprensa. Trata-se apenas de pensar se a necessidade de uma transformação e mudança no campo da esquerda deve contar com essa ajudinha. Se há algo de incompatível entre transformar as ideias e práticas de esquerda e exigir um jornalismo de qualidade, denunciar os abusos políticos e ideológicos de quem vive apontando ideologias em todo lugar. Não é segredo o apoio explícito do governo Dilma à atuação das polícias nas manifestações que tem lugar no país desde 2013, apoio que produziu entre muitas coisas a prisão de Rafael Braga. Esse é um dos pontos em que os governos petistas e a imprensa coincidiram alegremente. O caso é saber se esse lamentável acordo de interesses deve nos levar a pensar a relação da imprensa com o PT, agora, como uma espécie de justiça moral bem representada na expressão: bem feito! Isso parece traduzir mais ressentimento do que uma sólida proposta de transformação.

Não estou certo de que a imprensa tenha a força que supomos, ou de que algum dia tenha tido. Hoje em dia o Whatsapp e o Facebook parecem mais decisivos do que qualquer outra fonte de informação, e a eleição americana em alguma medida mostrou isso. Mas é certo que a imprensa continua investindo pesado para que sua agenda seja bem vista e há muitos números para aferir isso: a reforma da previdência é um bom índice. E ainda que a imprensa não seja tão poderosa quanto pensa que é, o Jornal Nacional ainda tem um forte alcance. Sua visilidade ainda causa estragos. E aquilo que o jornal elege como objeto privilegiado de crítica tem impacto nacional.

Lula tem que ser julgado com imparcialidade e ser condenado ou absolvido de acordo com as provas apresentadas, independente do imenso clamor alimentado por uma imprensa que mal esconde seu entusiasmo por projetos e agendas que não passam pela legitimidade da vontade popular (a única fonte de poder legítimo em uma democracia). Do mesmo modo, a transformação da esquerda tem que ser espontânea, do contrário não terá força para conseguir absolutamente nada. Essa transformação tem que ser conquistada, não dá pra escolher contra quem jogar. Se ela depender de que a (irônica) justiça cósmica puna Lula e o PT por terem se aproximado de tão execráveis aliados, ela já nasce abortada.

PS. Encontrei no Facebook um texto bem interessante no qual o sujeito, numa contradição performática engenhosamente planejada, crítica Lula ao tempo em que reconhece a perversidade da perseguição da imprensa.

04 maio, 2017

O novo sempre vem

Belchior, o profeta do novo
Abro o Facebook e encontro professores debatendo velhas ideias com um entusiasmo comovente. Desço até a praça San Idelfonso e ela está cheia. Gente entre vinte e trinta anos se reune na praça pra escutar música dificilmente tolerada pelos doutos senhores do Facebook. Pode ser bobagem, mas alguma coisa chama minha atenção nesse passeio, nesse estar entre pessoas da minha geração. Daqui a trinta ou quarenta anos talvez nós sejamos velhos ensimesmados em nossas próprias ideias, mas agora minha impressão (e minha esperança) é outra. Minha impressão é de que há algo realmente interessante nesse modelo de cidadania forjado no espaço público, na convivência, e que se manifesta não só nos encontros festivos de bairros boêmios modernos (e gentrificados), como Malasãna, mas também em Lavapiés (bairro de imigrantes de Madrid) e seguramente em outros lugares no mundo. Algo difícil de entender, já que os encontros nas cidades brasileiras, moldadas pela lógica segragacionista do condomínio, são coisas meramente acidentais. No Brasil as pessoas de diferentes classes, de diferentes ideias, só se encontram e se frequentam por acidente — ou no carnaval, pensando em Salvador. Em tempos de camarotes, quem sabe nem mais aí. De qualquer sorte, há nesse encontros um magnetismo, uma abertura que se sente no ar, que me dá a confiança de que talvez possamos fazer algo diferente, quer seja em termos de ideias, quer seja em termos de uma abertura ao novo, de uma posição afetiva menos intolerante, receosa, acanhada e narcisicamente orientada.

Foi em Entrevista com Vampiro que me dei conta de algo curioso. Os vampiros mais velhos, no filme, se empenham para estar ao lado dos vampiros mais jovens. Eles precisam entender o espírito daquele novo tempo. Envelhecer é arriscar separar-se da própria humanidade, isolar-se num conjunto de referências que, no ritmo do nosso tempo, tornam-se velhas numa velocidade assustadora. (Às vezes eu mesmo sinto um certo distanciamento aprofundar-se.) Mais do que nunca é preciso entender e aceitar a profecia de Belchior, aquela contra qual os conservadores se debatem inutilmente: o novo sempre vem.

PS. Tudo isso dito por alguém que já pensou, vejam só, que não havia nada mais sábio do que o conselho dado por Nelson Rodrigues à juventude, em entrevista a Otto Lara Resende: “Jovens, envelheçam!”

27 abril, 2017

Cultura da iniciativa, mérito individual e empreendedorismo: é disso precisamos?

Nada mais nocivo do que a tendência lamentavelmente comum de apresentar uma discordância (radical ou pontual) como uma disputa entre o bem e o mal. E isso se faz de muitas maneiras e às vezes de modo bastante discreto. Como resultado, criam-se grupinhos — panelinhas, como os chamamos na Bahia — relativamente impermeáveis onde uma certa verdade (ou uma persona) é adorada.

Digo isso porque não são poucas as minhas diferenças com respeito às ideias de Mangabeira Unger, embora concorde com alguns pontos da análise que ele faz em entrevista à revista Época. Nossas perspectivas são radicalmente distintas. Mas eu não quero, agora, me demorar explicando detidamente essas diferenças. Queria apenas sublinhar e indicar en passant, a despeito dos nossos acordos, um aspecto que sugere o núcleo das nossas diferenças. Mangabeira começa a entrevista louvando uma revolução subjetiva e certas características que, segundo ele, tem despontado entre certo segmento social. Fala em cultura da iniciativa, do mérito individual e do empreendedorismo. Não é que não exista nada de interessante e prático nessas características, mas tendo em conta que estes são elementos que dão forma à própria subjetividade capitalista e neoliberal, aspectos profundamente enraizados no ethos de grande parte da humanidade, convém perguntar, com honestidade, se é isso mesmo o que nós precisamos? Responder negativamente essa pergunta exigiria justo aquilo que agora eu não quero apresentar, uma resposta demorada. No entanto, já dá pra ver que os planos de Mangabeira pro Brasil consistem em pouco mais do que adaptar ao Brasil parte do ideário predominante nos EUA e na Inglaterra. Eles tem dado certo por lá? Quer dizer, é isso o que o mundo precisa, dadas as circunstâncias meio-ambientais e políticas? Eu não tenho dúvida de que a receita funciona quando temos em vista a dinâmica produtiva de uma sociedade que precisa gerar empregos e “se desenvolver”, e que é isso o que os políticos tem que vender nas eleições, ou seja, essa perspectiva tem um forte apelo pragmático (e eleitoral). Mas esse roteiro já não é suficiente para enfrentar os novos desafios postos ao planeta e à própria democracia. O aprofundamento da colonização subjetiva que Mangabeira louva como revolução, no Brasil, irá apenas aplainar a especificidade da nossa existência tropical, da qual poderíamos, com um pouco de reflexão, extrair um modo de existência (uma forma de vida) verdadeiramente revolucionário, que substituisse o atomismo que contribue para o panorama que vemos no mundo de hoje. Eu aposto, entretanto, que o realismo dos que querem gerar empregos (mesmo que com boas razões, diga-se de passagem) prevalecerá e, alimentando a tendência já bem nutrida, seguiremos mais uma vez os passos das nossas metrópoles.

09 abril, 2017

Como tornar-se um vira-latas


A “razão” na linguagem: oh, que velha e enganadora senhora! Receio que não nos livraremos de Deus, pois ainda cremos na gramática... 
— Nietzsche, Crepúsculo dos ídolos

Ninguém precisa nos ensinar que os americanos, ingleses, franceses e alemães são bons, inteligentes e fantásticos. Tudo ao nosso redor nos conta e confirma isso. (Veja como mesmo nossas melhores mentes parecem fascinadas pelo teatro da política americana, não apenas pelo interesse estratégico que lhe é próprio, mas também como se ela contivesse algo de intrinsicamente significativo.) O valor de certas coisas é absorvido quase por osmose, sem que ninguém precise ensiná-lo. Mas aprender o valor das coisas brasileiras, ao contrário, exige um enorme esforço pela mesma razão: porque tudo no Brasil parece confirmar que somos desajeitados, mansos, acomodados, preguiçosos, etc. Tudo feito e pensado no Brasil é logo sombreado pelo espírito da quarta melhor prostituta do Cazaquistão que jénios como Diogo Mainardi não cansam de denunciar.

Não se trata de escolher um lado em nenhuma disputa nacionalista, patriótica, bairrista ou coisa que o valha. Trata-se apenas de reconhecer que as nacionalidades são elementos simbólicos que assumem o papel de eixo das nossas práticas: de pontos de articulação que estão sempre presentes como coisas a respeito das quais boa parte de nós estamos de acordo. Mas não estamos de acordo porque são verdadeiras, mas porque somos ensinados a agir assim (é o condicionamento, mais uma vez, mostrando sua importância). É nesse sentido que nossas práticas moldam nossas crenças mais fundamentais — e também o valor atribuído a cada nacionalidade (e a tudo o mais).

O importante é menos reconhecer o valor das coisas brasileiras e mais escapar das armadilhas e enfeitiçamento da gramática e de suas imagens, que fixam certas valores e moldam (às vezes indefinidamente) nossa maneira de ver o mundo.

02 abril, 2017

Dizer Sim!

Pode soar estranho, mas acho que o amor fati nietzscheano tem alguma afinidade com isso que eu considero uma certa perspectiva mística e religiosa. Claro, há diferenças significativas, mas tenho a impressão que uma atitude englobadora e abrangente é comum a ambas. Quer dizer, não estou seguro que toda experiência religiosa e mística seja meramente uma negação da vida e uma estratégia para dar sentido ao sofrimento. Às vezes também a religião pode ser uma forma de afirmação e celebração.

De qualquer forma, eis o famoso parágrafo 276 de Gaia Ciência:
Hoje a todo mundo é permitido expressar seu desejo e pensamento mais queridos: pois bem, também vou dizer o que desejava hoje mesmo de mim e qual foi o primeiro pensamento que esse ano passou pelo meu coração — que pensamento há de ser para mim doravante a razão, garantia e doçura de toda a vida. Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas. Amor fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!

28 março, 2017

O que a ciência e a religião nos contam sobre a experiência e a totalidade

Pilares da criação
6.52 Sentimos que, mesmo que todas as questões científicas possíveis tenham obtido resposta, nossos problemas de vida não terão sido sequer tocados. É certo que não restará, nesse caso, mais nenhuma questão; e a resposta é precisamente essa.
Acho que consegui formular uma ideia geral sobre aquilo que me atrai nesse aforismo de Wittgenstein que aparece inúmeras vezes aqui. É que aí fica evidente até onde podemos confiar na ciência, e pra quê. Vivemos numa sociedade que confia cegamente na ciência: nós a colocamos no lugar de Deus — pra usar uma imagem nietzscheana. E é fascinante que Wittgenstein, em Cambrigde, escrevendo um livro que iria inspirar o positivismo lógico, não tivesse pudores em exibir uma desconfiança tão aberta em relação à ciência.

É claro que à ciência interessa a totalidade, o todo, a experiência entendida como um continuum sem partes, tal como a experimentamos cotidianamente, ao abrir os olhos. Entendida como um projeto ideológico racional, a ciência aspira responder a todas as questões científicas possíveis, mas isso não significa nada mais do que estabelecer um controle absoluto sobre os fenômenos. Por exemplo, gostaríamos de poder compreender e unificar as forças e leis quânticas (subatômicas) às leis clássicas, de sorte que todo fenômeno possível do universo pudesse ser determinado por um conjunto de leis relativamente homogêneo. A chave dessa perspectiva é: controle — e se olharmos mais de perto: segurança. O desejo de subsumir todos os fenômenos a leis muito gerais, leis que atravessam todo o campo do possível, não é senão o desejo de mapear todos os fenômenos de acordo com a cartografia científica, de determinar todo o campo do possível, de sorte que toda a expressão momentânea do desconhecido se traduza, pela aplicação dos nossos conhecimentos, num fenômeno imediatamente conhecido, explicado e, consequentemente, controlado. A ciência é ambiciosa, sua produtividade e eficiência são colossais, mas por sua própria característica ela está sempre pouco à vontade ante um fator importante da experiência e da experiência compreendida como totalidade: o desconhecido. Para a ciência, o desconhecido é aquilo que deve ser eliminado.

(Claro, o desconhecido não é mais que uma metáfora, um modo de designar algo que está necessariamente do lado de fora e que não pode ser excluído pelo esgotamento das questões científicas.)

O aforismo de Wittgenstein não faz mais do que enfatizar que o conjunto dos objetos (e questões) possíveis da ciência não coincide com o conjunto de questões que nos parecem importantes. A experiência do mundo transcende e transborda para além dos limites da ciência e do conhecimento. É um todo maior do que a soma das partes. Para mim, isso significa que de saída o projeto científico — de controle e segurança — tem algo de profundamente ingênuo e, em certo sentido, ineficiente. Quer dizer, nós moldamos nossa sociedade e nossos modelos de produção e de relação social em função de algo que não pode se dar. E aqui uma frase de Kafka, da sua Carta ao pai, talvez possa ajudar de alguma maneira: “A vida não comporta cálculo”. Quer dizer, a experiência do controle, da subordinação dos fenômenos a regras e leis definidas pela ciência não esgota o espaço total da própria experiência, a vida. E é assim que estamos sempre e inevitavelmente diante da vida: como quem não tem ferramentas suficientes para enfrentá-la. Então a questão talvez seja abandonar essa perspectiva predominantemente instrumental que é o sentido da própria ciência. Por sua vez, o que a religião nos oferece é uma perspectiva diferente. Claro, a própria religião se contaminou com o propósito produtivo da ciência, com seu poder, de sorte que suas próprias questões parecem exigir uma explicação (pra ilustrar uma outra ocasião em que o aforismo de Wittgenstein aparece). Mas a religião tem um sentido irredutível a esse enfeitiçamento pelo poder explicativo da ciência, um sentido que nos coloca diante da experiência (e do desconhecido) de uma outra maneira. Wittgenstein sempre manifestou enorme simpatia e respeito pela experiência religiosa (Dewi Zephaniah Phillips, conhecido wittgensteiniano, escreveu um livro que há tempos quero ler: Religion without explanation). Em certo sentido, esse estar à vontade diante de um universo pleno, não fragmentado analiticamente e cindido pela barreira intransponível do desconhecido, parece caracterizar a perspectiva religiosa e marcar sua diferença com respeito à ciência.

Quando não enfetiçada pelo poder que inevitavelmente engendra, a religião, ou pelo menos uma certa perspectiva mística, parece refletir um ethos mais ajustado a uma experiência que não pode elidir essa totalidade na qual o desconhecido se integra como componente inseparável. É bem verdade que esse ethos não tem como única fonte a religião e a mística (bem o sabia Nietzsche), mas convém reconhecer, nesses tempos em que a polarização entre os apoiadores da ciência e seus supostos detratores ganha evidência, que a experiência religiosa não é uma forma primitiva, proto-científica, mitológica, de lidar com a experiência. Ela tem algo de uma sabedoria que a própria ciência parece ignorar e que, por consequência, tem desaparecido do quadro das ferramentas com que lidamos com o mundo.

As duas perspectivas (científica e religiosa) não são incompatíveis, mas a ciência tem um quê de totalitário, o que significa que entre outras coisas lamentavelmente suas limitações são cada vez menos percebidas, ainda que hoje, mais do que nunca, uma perspectiva crítica em relação à ciência seja necessária. Precisamos não apenas desenvolver uma presença não instrumental no mundo, mas reconhecer o próprio papel dos cientistas na determinação do seu panorama atual — e reconhecer que embora a ciência possa nos ajudar a alcançar todas as metas postas pela humanidade, seu instrumental não tem privilégios quando se trata de estabelecer as próprias metas.

Por fim, deixo um outro comentário interessante de Wittgenstein:
Quando alguém que acredita em Deus olha ao redor e pergunta: “De onde vem tudo isso que eu vejo?” “De onde vem tudo?” ele não está pedindo uma explicação (causal); e o propósito de sua pergunta é que é a expressão de um tal pedido. Assim, ele está expressando uma atitude com respeito a todas as explicações. Mas como isso se manifesta em sua vida? É uma atitude que toma certa questão com seriedade, mas então em determinado ponto já não lhe trata seriamente, e declara que outra coisa é ainda mais séria. Nesse sentido uma pessoa pode dizer que é muito sério que fulano tenha morrido antes de terminar um certo trabalho; e em outro sentido não tem nenhuma importância. Aqui nós usamos as palavras “em um sentido profundo”. 

Essa atitude com respeito a todas as explicações dá muito o que pensar.

PS. A ideia era comentar uma impressão causada pelo aforismo de Wittgenstein, e não o aforismo ele mesmo. Ainda que meu comentário tangencie aspectos vinculados ao aforismo, minha pretensão não era analisá-lo.
PPS. A ideia da psicanálise como uma ética (mais que uma ciência, como as psicologias comportamentais, por exemplo) me parece interessante porque ela não tem como objetivo uma cura, no sentido em que uma ciência busca uma resposta, mas uma certa atitude. Em alguma medida, apesar de tudo, essa atitude parece guardar alguma afinidade com certas questões religiosas e místicas.

03 março, 2017

A doença de um tempo

A forma de vida capitalista
Pra variar, não tenho conseguido cumprir a promessa de escrever mais por aqui. Pelo menos tenho conseguido escrever a tese. E, bem, na falta de algum assunto mais desenvolvido, achei mais um fragmento de Wittgenstein que convém comentar.

Há tempos me parece que o capitalismo não é mais um modelo econômico, mas uma forma de vida. O capitalismo apropriou-se de todos os extratos da vida, estendendo universalmente o domínio da concorrência, impondo a lógica do empreendedorismo como modelo subjetivo e intersubjetivo, enfim, colonizando todos os espaços possíveis e afirmando-se como eixo central e único modelo da experiência humana. Assim sendo, qualquer esforço de mudança requer armas apropriadas, não meramente a alteração do modelo econômico e produtivo, mas a transformação total de nossa forma de vida. E alguma medida é isso que está insinuado nesse comentário de Wittgenstein que, além do mais, sugere um exemplo fictício apropriado e profético.
A enfermidade de um tempo é curada pela alteração no modo de vida dos seres humanos, foi possível obter a cura para a enfermidade dos problemas filosóficos apenas por meio de um modo transformado de pensamento e de vida, não mediante o remédio inventado por um indivíduo.
Pense no uso do carro a motor produzindo e estimulando certas doenças, e a humanidade sendo assolada por tal doença até que, por uma causa ou outra, como resultado de algum desenvolvimento ou outro, abandone o hábito de dirigir.
— Observações sobre os fundamentos da matemática, i, § 23
Vamos torcer para que essa causa não seja o colapso.

15 fevereiro, 2017

Razões e causas: o chiste em Freud

Wittgenstein tem uma reflexão muito interessante sobre a diferença entre razões e causas. Uma das ocasiões em que se pode notar a aplicação dessa distinção é num comentário sobre Freud. Traduzi   joke por chiste imaginando se tratar de uma referência a um texto que eu li e que usava a mesma expressão.
Outra questão que Freud trata psicologicamente mas cuja investigação tem o carácter de uma investigação estética é a natureza do chiste. A questão, “Qual é a natureza do chiste”, é como a questão, “Qual é a natureza do poema lírico?” Eu gostaria de examinar de que modo a teoria freudiana é uma hipótese e de que modo não é. A parte hipotética da teoria, o subsconsciente, é a parte insatisfatória. Freud pensa que é uma parte essencial do mecanismo do chiste mascarar algo, digamos, o desejo de difamar alguém, e assim é possível que subconsciente se expresse. Ele diz que as pessoas que negam o subsconsciente realmente não podem lidar com a sugestão pós-hipnótica, ou com a ideia de despertar em um momento inusual segundo seus padrões (or with waking up at an unusual hour of one's own accord). Freud alega que usando a psicanálise nós podemos descobrir o porquê nós rimos sem saber. Eu vejo uma confusão aqui entre uma causa e uma razão. Ter clareza sobre porque você ri não é conhecer uma causa. Se fosse, então o assentimento à análise proposta como explicação sobre o porquê você ri não seria um meio de detectar a causa. O sucesso da análise deve se mostrar pelo assentimento (concordância) da pessoa. (Wittgenstein's Lectures, AWL)
Uma causa tem uma dimensão hipotética, mas não uma razão. Você pode descobrir experimentalmente uma causa, mas não uma razão. Daí que a razão porque alguém ri só possa se expressar no assentimento (na confirmação) do paciente de que a análise é verdadeira (na falta de uma melhor expressão). Causas e efeitos pertencem ao domínio empírico, da experiência. Razões e motivos pertencem ao domínio da lógica de um jogo de linguagem. Eu posso achar que sei a causa porque alguém fez alguma coisa e posso provar experimentamente a relação entre a causa e o efeito de uma ação, mas pra saber a razão porque alguém fez algo eu preciso que a pessoa a expresse — ou que confirme aquilo que eu exponho como sendo a razão.

Enquanto as causas estão relacionados com fatos que podem torná-las verdadeiras ou não, numa hipótese, razões estão relacionadas à expressão de um agente racional. A expressão manifesta a razão (como o grito manifesta a dor) ou, no caso do analista, confirma, verifica (por assim dizer) a análise proposta — não os fatos.

PS. A tradução foi feita nas coxas, apenas com o propósito de apresentar a ideia.

Imagem: a questão do nosso tempo?

Qual é o papel da imagem e do outro na constituição de nossa identidade? Essa é uma questão antiga e uma das que salta aos olhos de qualquer pessoa que frequente os meios digitais. O que significa essa explosão narcisista refletida na necessidade obsessiva de controlar o modo como os outros nos percebem? O que isso nos diz sobre nós e sobre o nosso tempo?

Narciso refletido na tela do Instagram

08 fevereiro, 2017

Marketing e liberdade


Descobri por acaso que estava seguindo este perfil no Instagram. A melhor explicação que encontrei foi: alguém que eu seguia vendeu seu perfil pro sujeito, que herdou seus seguidores. Mais um dia normal de negócios no Instagram.

Isso me lembrou a matéria que li recentemente sobre a Cambridge Analytica (achei o texto em português), empresa que cria modelos psicométricos a partir de dados que circulam (e que são negociados) na internet. Qual é a exatamente o problema disso? Bem, talvez vocês tenham notado meu recente interesse pelo behaviorismo. Parte significativa do que nós somos é determinada por condicionamento (ou em outras palavras, por adestramento). Isso significa que somos também (embora não apenas isso) como uma máquina: apertando certos botões (causa) produzimos certos comportamentos (efeito). Claro, a coisa não é tão simples, mas a imagem tem fins pedagógicos. Se isso é verdade, então se soubermos que botão apertar podemos levar as pessoas a agir segundo nossa expectativa. Os perfis oferecidos pela Cambridge Analytica não são nada mais do que isso: um conjunto de informações tais que permitem aquilo que a matéria chama de comunicação dirigida por dados (data-driven communication). O marketing dirigido aos potenciais eleitores levava em conta algumas de suas características mais particulares. Mesmo sem examinar as informações sobre a eficiência real desse tipo de estratégia já dá pra prever um forte impacto tendo como base apenas a premissa behaviorista: grande parte do que somos é determinado por condicionamento.

Mas o que existe para além do condicionamento? Existe a liberdade (para quem acredita nela, claro). Para quem não acredita em liberdade, somos apenas efeitos de causas diversas, em sua maioria desconhecidas. Cada ação de nossa vida, cada escolha, seria o resultado de algum complexo feixe de causas determinadas pela miríade de estímulos a que estamos continuamente expostos desde que nascemos. Nesse contexto, as análises e perfis propiciados pelo uso de Big Data não fazem mais do que escandir essas causas.

(Se puderem, assistam ao documentário The human face of Big data — há um caso muito interessante e ilustrativo apresentado no filme. Um pai (pesquisador de Big Data) decide instalar câmeras em todos os cômodos de sua casa para analisar como seu filho recém nascido adquiriu suas primeiras palavras. 200Gb de informações diárias por 2 anos, façam os cálculos. Cada palavra aprendida — como “água”, por exemplo — é analisada em função das precisas circunstâncias e contextos que determinaram o surgimento da palavra. Tudo é traduzido em números, em análise incansável de movimentos, em projeções algorítmicas produzidas pelo uso de Big Data. É isso, nós somos dados!)

Enfim, se podemos agora, com ajuda de algoritmos e do estoque inesgotável de dados que produzimos diariamente, conhecer, registrar e analisar uma constelação de causas antes inacessíveis, então talvez não reste nada para além dessas causas. E o determinismo terá vencido o longevo debate contra a liberdade. Embora a noção de liberdade ainda careça de uma revisão, não acho que seja o caso. Sobretudo porque não há incompatibilidade entre a determinação causal resultante do condicionamento e a ideia de liberdade. Em termos estritamente negativos, a liberdade seria nada mais do que espaço lógico determinado pelo fato de que o condicionamento não gera necessidade. Uma pessoa condicionada não necessariamente agirá conforme seu condicionamento. A cegueira gerada pelo condicionamento tem limites e os limites apontam para a reflexividade. Ainda que isso seja o bastante para resgatar a ideia de liberdade, não é suficiente para evitar os abusos que podem resultar do uso dessas informações determinantes.

Quando nós lidamos com pessoas a partir de um ponto de vista no qual elas são compreendidas como um conjunto de informações determinantes para atingir um dado objetivo, nossa ação com respeito a elas se torna meramente instrumental. Isto é, aquele espaço de autonomia que compreendemos como determinante para a ideia de liberdade é posto de lado em favor de uma estratégia preocupada apenas com o efeito desejado. Vejamos um exemplo contrário: numa relação amorosa, às vezes nós chegamos ao ponto de conhecer muito bem uma pessoa, nós sabemos o que dizer e quando dizer aquilo que nos parece apropriado em vista de um certo objetivo. Mas é claro que esse conhecimento sobre as peculiaridades de uma pessoa não é meramente instrumental porque em geral nos parece importante levar em conta o que ela pessoa quer, o que ela deseja. Nossa ação é quase sempre uma negociação, dialética, um ajuste entre nossos próprios objetivos e o reconhecimento da autonomia dessa pessoa. Nesse contexto, a ideia (considerada em pensamento ou exposta em diálogo) de que o objetivo que visamos não favorece ou interessa a outra parte pode deter as ações que eventualmente poderiam executar para atingir nossos objetivos. Aliás, tudo isso aponta a uma diferença ilustrativa: o que distingue uma pessoa considerada manipuladora de outra meramente atenciosa?

As ações de uma estratégia de marketing orientada por perfis psicométricos não tem compromisso com a autonomia do sujeito — é claro que alguém poderia alegar a própria autonomia como defesa, afinal, as pessoas são livres para reagir como quiserem. São mesmo? A liberdade é um belo escudo quando estamos explorando massivamente os flancos determinísticos da alma humana. Mas é preciso compreender que, se não temos opção senão admitir que somos parcialmente determinados por circunstâncias estritamente causais, como bem sabem aqueles utilizam esse tipo de estratégia, então a liberdade não pode ser uma desculpa para o uso indiscriminado de certas informações. É preciso uma séria reflexão ética sobre efeitos desse tipo de estratégia.