05 Fevereiro, 2010

João Ubaldo e a ponte da Ilha de Itaparica


Imagens da minha parte preferida Ilha, ao lado do Forte São Lourenço
Galeria de fotos da Ilha

Como ilustre itaparicano, João Ubaldo endereçou crítica frontais à proposta de construção da ponte Salvador-Itaparica. Sua causa ganhou a simpatia de outras figuras ilustres como Chico Buarque, Cacá Diegues, Luis Fernando Veríssimo, entre outros. O caso virou briga familiar quando seu irmão mais novo, engenheiro da OAS, manifestou-se a favor da ponte. João Ubaldo tem o direito de estar ressentido com a classe política
As estatísticas são outro instrumento desses filibusteiros do progresso que em nosso meio abundam, entre concorrências públicas fajutas, superfaturamentos, jogadas imobiliárias e desvios de verbas.
mas não podemos perdoar a superficialidade dos seus argumentos. Aliás, por isso mesmo o governador classificou, num gesto político, talvez, precipitado, como besteirol a linha de argumentação do escritor.

João Ubaldo defende uma causa justa. Ninguém quer ver Itaparica exposta à sanha carniceira de empreteiros e empresários do setor imobiliário. Mas um dia, todos concordam, João Ubaldo há de morrer e a proteção da Ilha não pode estar atrelada à vigilância atenta do escritor. Daí que, embora sua causa seja justa e mesmo que a proposta de construção da ponte precise ser interditada, ele perdeu uma ótima oportunidade de transformar a questão numa discussão mais elevada sobre políticas de ocupação do solo.

Há décadas Salvador é saqueada pela especulação imobiliária sem que ninguém levante a voz para protestar contra as constantes agressões ao espaço público. O próprio Ubaldo admite em seu texto:
(...) que vem transformando as cidades brasileiras, inclusive e marcadamente Salvador, em agregados modernosos de condomínios e shoppings acuados pela violência criminosa que se alastra por onde quer que estejamos enfurnados, ilhas das quais só se sai de automóvel, entre avenidas áridas e desertas de gente.
Aliás, nesse domínio o único lance foi favorável aos exploradores: um Plano Diretor vergonhoso, aprovado na calada da noite, que endossa as práticas predatórias das empreiteras, elevando o gabarito dos edifícios em trechos antes limitados, dentre outras coisas. O problema envolvendo políticas de ocupação do solo não está nem mesmo restrito a Salvador, São Paulo também sofre com questões semelhantes.

Apesar das dificuldade de estabelecer políticas públicas eficientes e reguladoras dos diversos interesses envolvidos no uso do solo, é preciso privilegiar a via política (Itaparica tem menos de 100 mil habitantes, não é obrigada a ter um PDDU, mas a questão pode e precisa ser discutida). É preciso constituir mecanismos políticos e institucionais capazes de articular o desenvolvimento urbano e comercial responsável, aos interesses de preservação ambiental, cultural, de uma região rica em beleza e potencialmente atrativa ao turismo. Apesar da justa causa, não podemos aceitar o freio de mão como o único instrumento disponível para barrar o avanço de práticas irresponsáveis e descomprometidas. Não podemos tampouco, a fim de justificar o impedimento da construção, simplificar as coisas transformando todo interesse comercial em predatório e incompatível com a preservação de valores urbanísticos. Há sim um pressuposto inaceitável, e algo ofensivo, na argumentação de João Ubaldo, não é de se estranhar por isso a postura de Pinheiro -- ainda que o censuremos.

João Ubaldo poderia ter usado sua inteligência para encaminhar a discussão num sentido importante, considerando a necessidade de construir ferramentas institucionais de controle de abusos e preservação, mas preferiu, talvez pelas limitações próprias a uma coluna, um tom panfletário e uma argumentação psicológica. Espero que a Ilha tenha melhor sorte que Salvador, mesmo que às custas de uma manobra precária como manutenção de seu isolamento, como única estratégia de salvaguarda. Embora eu prefira a segurança das leis e de uma fiscalização eficiente.

Atualização - Paulo Souto afirmou que "Wagner mostra que não aceita nem a crítica nem respeita o contraditório". As palavras de Wagner antes de ter discordado de João Ubaldo:
João Ubaldo é um grande escritor, não sei se é um grande urbanista, mas tem o direito de emitir a opinião dele
Desonestidade é instrumentalizar um debate necessário em benefícios de seus próprios interesses eleitorais. Mal disfarçando uma distorção proposital e grosseira. Aceitar o contraditório não é compactuar com a opinião contrária.

01 Fevereiro, 2010

O desmonte da blogosfera brasileira

Hermanauta abandonou o barco. Antes dele Idelber. A blogosfera pátria não repõem as perdas que sofre. É certo que muita gente boa começou a escrever nos últimos anos, mas lhes falta algo (mas não é uma falta que os diminua).

(Eu juro que andei pensando nos últimos dias, antes de saber da notícia da hibernação do Hermenauta, em pedir que ele fizesse um screencast do seu modus operandi. Porque eu sempre me considerei um usuário avançado de operadores de pesquisa e até tenho uma relativa habilidade, mas perto dos achados do Hermanauta eu pareço uma criança engatinhando. O sujeito entendia da coisa. Além de possuir uma memória absurda, coisa que, aliás, eu nunca terei. Enfim, esse é o domínio de certas técnicas e habilidades que um sujeito pode ter, e o Na Prática bem elencou as qualidades do novo papai.)

Mas, como eu disse, algo não se renovou. Quer dizer, não se trata tão somente de substituir pessoas talentosas e inteligentes. Essa boa gente que parte tem, além das sabidas qualidades, um certo poder agregador que é o diferencial. As qualidades dessas pessoas são exponenciadas pela capacidade centralizadora que os transformaram em pontos de amplificação do debate, em eixos de linhas de diálogo as mais diversas. Vejam as discussões do Idelber, ele pautava tanto as conversas de gente que o admirava, como era frequente ler, no blog de pessoas irmanada ao Tio Rei e ao Olavão, comentários nada lisonjeiros sobre seus posts. Para quem nunca entendeu a insistência em acompanhar o Tio Rei, Hermanauta fazia das suas constantes críticas apenas um expediente para apontar um certo um discurso político, muito em voga no Brasil, que não se vê obrigado nem mesmo a ser coerente -- quem dirá verdadeiro. E fazia isso com elegância, objetividade e, especialmente, com espirituosidade. Parecia divertido ler aquelas asneiras e procurar, na memória e nos artigos, as contradições mal disfarçadas.

Desde que eu entrei na blogosfera aprendi o valor da objetividade. Com muita gente que, ainda agora, ou antes, sabe identificar e expôr o núcleo de um problema sem se comprometer com nuances que o tornariam desinteressante -- coisa que um dia eu aprenderei a fazer. Aliás, que a maioria dos profissionais de filosofia deveria aprender. Mas, repito, o que eles deixam insubstituído é um certo espírito agregador, indispensável em tempos de eleição. Também a espirituosidade para lidar com as coisas sérias, tática mais que adequada para evitar problemas de pressão. Vamos torcer para que outros consigam cumprir essa função -- não sei como funciona a coisa a lá fora, mas aqui havia e ainda há muita camaradagem entre as pessoas que se frequentam, isso é muito saudável e aumenta ainda mais a sensação de perda sempre que alguém deixa de escrever -- ou para que os antigos, aposentados ou hibernantes, acordem do sono de inverno para novamente nos fazer companhia.

PS. Foi um desmonte tão bem orquestrado que eu penso que a diretoria do Corinthians está dirigindo também os rumos da blogosfera.

28 Janeiro, 2010

O pantanoso debate entre crédulos e ateus

6.52 Sentimos que, mesmo que todas as questões científicas possíveis tenham obtido resposta, nossos problemas de vida não terão sido sequer tocados. É certo que não restará, nesse caso, mais nenhuma questão; e a resposta é justamente essa. [Wittgenstein, Tractatus]
É difícil para mim entender porque o debate sobre a existência de Deus mobiliza tantas energias ainda hoje. Não que a questão não deva ser discutida, mas o embate travado entre representantes de lados opostos da discussão está de saída condenado a perseverar indefinidamente. Que entre os seus cada um encontre as melhores alternativas para apoiar ou refutar a crença em Deus, parece justo, mas trazer para arena racional uma questão cujo epílogo não pode ser atingido é intransigência das duas partes. Vaidade e orgulho apresentam-se aparentemente como os reais combustíveis da contenda. Os crédulos, desafiados pela pujança de uma razão que cavalga à toda força no lombo da ciência, não querem deixar de participar da festa, lutam para garantir ao seu Deus a chancela racional que pode capacitá-los a ampliar seus domínios. Os ateus, quase sempre racionalistas convictos, não querem introduzir na já combalida racionalidade contemporânea o às divino -- o esforço envolvido na busca por explicações científicas demarca espaços limitados e contextualizados para hipóteses ad hoc, a variável Deus faria ruir todo o edifício. Deus, como uma hipótese, pode ser indefinida e arbitrariamente convocado para explicar a mais recalcitrante anomalia, a ciência, assim, voltaria a se misturar perigosamente aos empreendimentos metafísicos (embora, é preciso reconhecer, uma parcela de metafísica ainda coexista no corpo da ciência em doses aceitáveis e até, diríamos, indispensáveis).

É perfeitamente compreeensível a relutância em admitir uma posição diferente da nossa, quando o que está em jogo são questões que dizem respeito às camadas mais fundamentais sobre as quais se apoia nossa visão de mundo. Isso já bastaria para declarar o debate improdutível, infrutífero e estéril. Entretanto, certas condições parecem concorrer para inviabilizá-lo de forma ainda mais contundente.

O discurso religioso quando pretende se valer dos instrumentos racionalistas deixa de considerar as (teoricamente) limitadas pretensões da ciência contemporânea. A ciência não é mais o espaço para certezas, seu discurso deve incorporar a contingência como algo estrutural. Quando opomos esse novo quadro às pretensões universalistas e absolutas de uma ciência que se justificava ancorando suas teorias no solo da experiência entendida como algo dado, portanto evidente, parece efeito razoável pensar a contingência como uma imperfeição, um defeito. Mas ela não é, a verdade das proprosições científicas não pode ser definitivamente afirmada, elas não podem evitar a sombra do falseamento, não podem ter o estatuto de necessidade que antes pretendiam e que é reservado apenas às proposições lógicas. É no horizonte de uma ciência imensamente produtiva mas compacta em seus propósitos que o discurso religioso quer instalar um Deus absoluto e necessário? É anacronismo sem par o projeto de racionalização de Deus, da fé. E um tributo que os religiosos prestam aos racionalistas a relutância com que eles mantêm-se presos à necessidade de explicar, provar, demonstrar a existência de Deus. Como se o que não pudesse ser provado, explicado, demonstrado não tivesse valor ou lugar. Nem tudo o que não se justifica é sem razão; porque não pode ser explicada a fé não é imediatamente tornada irracional. Se a racionalidade se definisse pelo conjunto das coisas que podem ser explicadas, teríamos que admitir que boa parte do nosso dia é dedicado à irracionalidade e assim ela não teria tão pouco prestígio.
An hypothetical explanation will be of little help to someone, say, who is upset because of love -- It will not calm him (...) Kissing the picture of one's beloved. That is obsviously not based on the belief that it will have some specific effect on the object which the picture represents. It aims at satisfaction and achieves it. Or rather: it aims at nothing at all; we just behave this way and then we feel satisfied. [Wittgenstein, Remarks on Frazer's Golden Bough]
Parece difícil aceitar que boa parte do nosso comportamento e que talvez as mais significativas experiências da vida não se deixam agarrar por explicações. Mas por isso mesmo é incompreensível à busca persistente pelo aval científico e racionalista, soa como manifesta baixa auto-estima por parte dos se põem ao lado de Deus.

Os que querem representar a ciência, por outro lado, parecem ignorar rudimentos da lógica que a embasa. Uma negação é uma operação sobre uma afirmativa. Portanto o propósito de negar a existência de Deus estará sempre atrelado aos diferentes meios pelos quais se pretende afirmá-Lo. Se não temos acesso material a nada semelhante a Deus não podemos, a partir disso, extrair a conclusão de que Ele não existe. Essa é uma falácia óbvia. O que se pode fazer é combater cada uma das tentativas, a medida que elas surgem. Não há algo como uma negação absoluta da existência de Deus. Apostar que as futuras gerações haverão de se cansar de elaborar novos expedientes para provar que Deus existe é exibir uma ingenuidade inconfessável. Incompreensível também desse lado a insistência em combater, em persistir na disputa por um espaço infinito.

As energias que cada um reserva para o combate seriam melhor empregadas se dirigidas ao esforço por compreender uns aos outros, e a aceitação mútua. Não há nenhuma maneira privilegiada de lidar com a vida, por mais sedutor que pareça o empreendimento científico ou por mais abrangente e maternal que seja a promessa divina. Aceitar e compreender é uma mostra tanto de uma racionalidade evoluída, quanto de uma divindade manifesta -- e é disso que nós realmente precisamos.

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A necessidade implica a verdade de uma proposição e a falta de sentido do seu contrário. Por exemplo, "chove ou não chove" é uma proposição necessariamente verdadeira (uma tautologia), mas não faz sentido dizer que ela é falsa. Essa proposição tem a forma de uma lei lógica, a lei do terceiro excluído, se pudéssemos então falseá-la, ela não teria o estatuto de lei, não teria a estabilidade que a torna operativa. Agora pensem: em que situação real, empírica, podemos dizer que não faz sentido falar em falsidade? E a resposta servirá para fazê-los entender porque as proposições científicas são contingentes e a diferença entre proposições empíricas e proposições lógicas.

PS1. Considere que "chove ou não chove" não é uma situação empírica.
PS2. Há, contudo, lógicas que derrogam leis da lógica clássica, mas essa é outra história.

27 Janeiro, 2010

A "liberdade" da imprensa

À simples enunciação das palavras fiscalização e controle se segue uma tempestade histérica precipitada por setores supostamente ameaçados. A história é sempre a mesma: a liberdade de imprensa é perturbada pelo propósito de criar dispositivos que possam limitá-la. Censura, ditadura, gritam alguns. Mas que espécie de liberdade é essa, avessa a qualquer controle ou fiscalização? Uma liberdade natural, eu suponho. Isto é, uma liberdade anterior à constituição do Estado. Aquela que só encontrava limites nas barreiras que outros agentes livres poderiam lhe impor. A liberdade civil, essa que fruímos dentro de um Estado de direito, é uma liberdade balizada, plenamente ajustada a mecanismos de controle e fiscalização. As restrições que tais mecanismos impõem, longe de serem prejudicais, correspondem às condições de manutenção da ordem na nossa sociedade, na medida em que regulam a pluralidade de interesses entre os diversos membros que a integram. Assim, não é fácil de entender o que quer quem prontamente se levanta contra a mera proposta de discutir meios de fiscalização da imprensa, se o receio de perder a "liberdade" é sua principal arma. Censura, como eu já disse em outra ocasião, é um controle prévio da expressão. Confudir fiscalização e censura é envenenar o debate, contaminando-o intencionalmente a fim de fazer valer uma posição.

O que furtivamente parece animar a recusa é o interesse de se resguardar de qualquer responsabilização. Liberdade e irresponsabilidade não se equivalem, é preciso que saibam. Aliás, quem nos lembra isso é ninguém menos do que ilustre ministro Gilmar Mendes, em contexto diferente (e favorável a ele), claro. Mas ainda hoje ele parece manter a opinião de que responsabilidade não pode ser separada da seara comunicativa, embora sugira outros meios de controle. O importante é aceitar a premissa básica: de que não há nada de antidemocrático em propor meios de fiscalização -- ao contrário, a responsabilização é parte indispensável a democrática, é o fator que pode tornar a imprensa ainda mais democrática.

É preciso dizer ainda que a liberdade de imprensa não é um fim em si mesmo. Ela está à serviço da democracia, como tantos outros princípios. Por isso, na medida em que uma ação, a princípio abrigada sob a tutela da liberdade de imprensa, fere os valores democráticos, ela perde automaticamente a proteção que antes possuia. A democracia se estabelece por uma rede de princípios nem sempre harmônicos. No entanto, a harmonia é restituída pela prática judicativa no interior da ordem democrática, é ela quem distribuirá os pesos de forma a equacionar as diferenças entre os princípios. Sugerir que ações em princípio protegidas pela liberdade de imprensa se ajustam incondicionalmente à democracia, é dizer que nenhuma forma de expressão é antidemocrática, que nada pode ferir os valores de uma democracia. Militar contra a regulamentação é sustentar erroneamente o mesmo argumento.

Se alguma pergunta pode ser legitimamente dirigida à proposta de fiscalização que vem desde a primeira versão do Plano Nacional de Direitos Humanos, ela é algo mais prática: que tipo de problemas se pretende sanar? Claro que respostas evasivas podem ser dadas, alegações de que é preciso criar preventivamente dispositivos para evitar futuras afrontas. Talvez. Mas considerando o desgaste político que vem junto com a proposta, se ela aparentemente não tem na mira nenhum problema real, por que sugiri-la? Há problemas muito mais concretos e igualmente desgastantes que não são nem mesmo sussurados, como a reforma política. É algo a se pensar.

26 Janeiro, 2010

Ajustes

Como vocês podem ver, estou fazendo ajustes no blog. Por isso as coisas por aqui ainda estão precariamente arranjadas. O sistema de comentário ainda não está definido: não sei se perderei os antigos comentários voltando a usar o sistema do Blogger ou se opto pelo sistema pago que substituiu o Haloscan. Os links ainda não foram completamente restaurados. Enfim, momentaneamente a instabilidade reinará. Tenham paciência caso algo lhes incomode e qualquer coisa, escrevam, ainda que para sugerir.

Em todo caso, espero que tenham gostado das mudanças.

22 Janeiro, 2010

PNDH: aborto e direitos humanos

Alon em seu blog sugeriu, entre outras coisas, que fosse repensada a inclusão do aborto no quadro de questões de direitos humanos, em respeito à memória de gente que trabalha pelos direitos humanos mas tem opinião diversa sobre o aborto (considerando o contexto do PNDH e da morte de Zilda Arns). Como não poderia deixar de ser, eu discordei. Mas como acontece sempre que alguém aborda o tema, a cantilena anti-abortista não tarda a chorar pitangas, mobilizando argumentos como um poeminha que começa com o seguinte verso: "A mother is two lives", ou como a seguinte pergunta de uma outra comentarista: "o nascituro não tem diretos tambem ser defendidos?" Foi uma boa ocasião para sumarizar minha posição a esse respeito. Abaixo alguns dos comentários que enviei:
Difícil ter que explicar algo tão elementar, mas é preciso, diante do comentário da Dra. Tereza e do poema bobinho citado acima. Leiam com atenção:

Quem defende o aborto não está sugerindo que se mate ou torture uma criança ou um ser vivo, está defendo um conceito de vida que não abrange um certo estágio da gestação. Os defensores do aborto não o defendem incondicionalmente, em qualquer etapa da gravidez, o que eles admitem é a possibilidade do aborto até determinado estágio, onde convencionalmente, pesando inumeros fatores (e considerando mesmo a flexbilidade desses fatores), se determina quando a vida se inicia. Essa é uma discussão longa que envolve o difícil entendimento de que a vida é um conceito que não se justifica na experiência, ao contrário, que possibilita os usos e aplicações do conceito de vida -- inclusive a aplicação médica/biológica.

Dizer que "A mother is two lives" ou perguntar se "nascituro não tem diretos tambem ser defendidos" é já supor que o debate que estamos agora realizando esteja superado, em prol dos anti-abortistas. Ou seja, só para um anti-abortistas "uma mãe é duas vidas", só para ele o "nascituro tem direitos". Não que aqueles que defendem o aborto, como eu, pensem que as crianças não têm direitos.. nós só não achamos que eles começam na concepção. Porque não faz sentido pensar que é a experiência que nos ensina o que é (o que significa, o uso de) um conceito (vide todo o debate do início do século passado contra os [neo]positivistas). Só um "acordo" pode nos dizer o que é um conceito, e só depois dele estabelecido nos podemos aplicá-lo e determinar, portanto, o que é ou não a vida (do mesmo modo que só depois de definido um padrão de medida, é possível realizar medições; as medições supõem o padrão de medida, assim com quem diz "A mother is two lives", supõe que esteja dado aquilo que nós estamos, aqui e agora, discutindo: quando começa a vida).

Desculpe os exemplo aparentemente frios, é preciso simplificar um pouco e apelar para alguns exemplos distantes do tema, para fazer entender a confusão conceitual envolvida nesse debate e quanta retórica há nos apelos a uma suposta vida que ainda está em questão.

PS. A determinação dos "limites" da vida é uma discussão política que deve ser aberta e largamente difundida. Procurem saber como se posicionam a respeito os paises mais desenvolvidos, aqueles que tem indicadores satisfatórios de respeito aos direitos humanos.
Depois de algumas objeções que envolviam a afirmação de que o feto é um "ser morto" para quem defende o aborto e a consideração da possibilidade de que uma convenção ou uma decisão política decida que a vida começa aos 8 meses, respondi mais uma vez.
A simplificação é sempre uma boa arma.

Que seja uma deliberação não implica uma absoluta arbitrariedade. Há fatores a serem considerados e muitos, mas o fundamental é que o conceito se define não pela experiência. A experiência não pode dizer o que é um conceito, já que nós só podemos ir até ela, e dizer o que é ou não é a vida, tendo algum já disponível.

Quando se define esse tipo de coisa, em contendas como a que aconteceu no STF (no caso das células tronco), é preciso considerar aspectos científicos relevantes como a formação de órgãos e tecidos a serem definidos como essenciais, o risco para mãe, e especialmente as consequências de uma dada definição para as políticas públicas de saúde, para a organização jurídica do país, etc. Nós já temos experiência com um conceito de vida que se inicia na concepção, ele é vigente no Brasil, e representa um incrível índice de mortalidade feminina (conforme ilustrado no primeiro caso), problemas de saúde pública os mais diversos derivados das condições precárias (e ilegais) de assistências às mulheres que querem abortar. Qual é a solução para essas mulheres? Educação religiosa? Quem não quer abortar não é afetado pela descriminalização, mas para as milhares de mulheres que morrem ou ficam severamente doentes todos os anos nas mãos de açougueiros, em açougues, o acesso a um serviço de saúde público é determinante para suas vidas.

É fácil, em nomes de princípios religiosos bem abstratos, defender que não se mate um "ser vivo" ou supor retoricamente que uma "deliberação" política/jurídica chamada a definir o conceito de vida iria por hipótese estabelecer 8 meses como o estágio inicial (os abortos só são recomendáveis até antes dos 3 MESES, depois disso, o risco para a mãe é significativo e ele só deve ser feito em casos especiais), mas se sensibilizar pela mortes reais e incontestáveis de mulheres em clínicas clandestinas, isso parece impossível. Os jogos de palavras inúteis que tornam o feto no período posterior um "ser morto", pois não existe "um meio termo", só tem apelo retórico, e se endereçam aqueles que já estão convencidos de suas concepções anti-abortistas. Eu estou falando para quem quer argumentar, se você tem certezas, bem, volte pra igreja, o ambiente dialógico não é lugar para quem não admite a possibilidade lógica de estar errado. Se você quer jogos de palavras, então aqui vai um para desfazer sua retórica: só pode ser considerado um "ser morto" quem já viveu, se o feto não entrou no período abrangido por nossa definição de vida, ele não pode ser considerado morto (nem vivo), do mesmo modo como não falamos que uma pedra é um ser morto (porque ela nunca chegou a viver).
A discussão continuou por lá (aliás, ela está toda lá, para quem quiser acompanhar o contexto), sem nada realmente produtivo, é verdade, porque às objeções à minha posição eram meramente retóricas e o que solicitavam era que eu me desfizesse de jogos de palavras e apelos falaciosos. A discussão é importante, em todo caso, e seria interessante considerar respostas que pudessem dialogar com as posições apresentadas e não meramente impor perspectivas, como se elas se anulassem mutuamente. O aborto é uma questão política delicada e quanto antes deliberarmos sobre ele, melhor para centenas de mulheres que hoje se submetem aos porcos serviços de clínicas clandestinas.

19 Janeiro, 2010

Muito além da parcialidade

Eram frequentes, antes de Idelber parar, os debates entre ele e Sergio sobre a postura da imprensa diante das ações governo (por conta da insistência de Idelber em denunciar a parcialidade desonesta da Folha). Apesar do tom amistoso, às vezes a coisa faiscava. Compreensivelmente, Sergio defendia a classe, buscando resgatar da generalização os muitos profissionais comprometidos com a verdade e de postura irrepreensível. Idelber sempre reconheceu os profissionais respeitáveis que povoam os diversos canais de comunicação, mas nem por isso deixou de afirmar que eles não eram bastantes para mudar o comportamento dos grandes grupos em relação ao governo -- e nisso nós concordamos, a crítica à imprensa em geral não é uma crítica a todos os seus profissionais, além disso, ela não é indiferente às exceções, seja quanto às empresas de comunicação propriamente, seja quanto aos profissionais que nelas trabalham.

Porém, difícil sustentar opinião favorável quando confrontamos a posição da Folha em relação às três versões do PNDH. A terceira versão, lançada pelo presidente Lula no final do ano passado, tem como base as versões anteriores e pouca coisa se altera significativamente. No entanto, as alterações, por menores que sejam, foram o suficiente para disparar uma mudança completa de avaliação por parte do jornal -- os leitores de Nassif observaram.

Ou ainda quando consideramos a conduta frequente do Estadão, como a de hoje, externada num editorial que é, quando menos, desrespeitoso. Ele começa assim:
Vem aí mais um ataque à liberdade de informação e de opinião, preparado não por skinheads ou outros grupos de arruaceiros, mas por bandos igualmente antidemocráticos, patrocinados e coordenados pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
E continua:
A 2ª Conferência Nacional de Cultura, programada para março, foi concebida como parte de um amplo esforço de liquidação do Estado de Direito e de instalação, no Brasil, de um regime autoritário.
Psicologia do mais alto grau. Mas a coisa não para por aí:
O texto-base da conferência poderia figurar num museu de teratologia política, como exemplo do alcance da estupidez humana.
É um festival de estultices sem par. Argumentos nenhum. Aliás, nem isso posso dizer, pois não passei do segundo parágrafo. Meu estômago é fraco. Poderia bem ilustrar o caso da falta de talento para argumentar, mas o texto não pretende ser um argumentação, ele é antes uma peça de intimidação, uma conclamação à revolta diante do que se diagnostica como um atentado à democracia. Ele quer menos ser um objeção racional, do que uma virulenta doutrinação à maneira das mais descabidas imposições da igreja. É uma peça que não deixa lugar para o contrário -- e, ainda sim, pretende-se um instrumento democrático. Curioso que os mais empedernidos defensores da democracia, no Brasil, não se sintam obrigados a admitir a pluralidade de ideias que supostamente advogam.

É difícil não condenar, não militar contra uma imprensa tão rancorosa, ainda que reconheçamos as personalidades singulares e competentes que permeiam os ambientes jornalísticos os mais diversos (como o próprio Pedro Doria, no Estadão). É insensibilidade e passividade lesiva admitir que tais gestos de violência se mascarem de práticas democráticas. A parcialidade é o menor dos males da imprensa brasileira, seus maioroes vicio são a desonestidade e a dissimulação com que recobrem seus reais interesses.

14 Janeiro, 2010

Como fazer doações em dinheiro para sobreviventes no Haiti


O Haiti é um país assolado pela miséria, o mais pobre da Ámericas, que vive em pleno caos social, mergulhado em conflitos e violência sem fim. Mesmo assim sobrou espaço para um novo terremoto no plano dos acontecimentos reservados ao haitianos. Por isso, mais do que nunca, vale a pena o gesto prático de ajudar financeiramente os necessitados.

A ONG Viva Rio abriu uma conta para doações:

Banco do Brasil
Agência: 1769-8
Conta corrente: 5113-6
Favorecido: VIVA RIO DOAÇÕES
CNPJ: 00343941/0001-28

Pelo Tumblr encontrei outros canais para doação, por vias e para entidades internacionais. Por essas vias as doações podem ser feitas por cartão de crédito. Se possível, ajudem!

Atualização 1 - Nassif fez um post sugerindo outros modos de ajudar, outros canais para doações, vale a pena conferir.

Atualização 2 - O Blog do Planalto divulgou as contas que o Banco do Brasil e a Caixa Econômica abriram especialmente para receber doações para os haitianos.

13 Janeiro, 2010

Informação e opinião

Nos comentários de um post de Raphael sobre o PNDH, Joaquim, um dos comentarista, fez a seguinte afirmação:
Não acredito em informação pura. Sempre há opinião nas informações.
Isso me lembrou a importância da distinção entre as duas coisas. Mas o que significa afirmar que "sempre há opinião nas informações"? Significa que as informações são tão perspectivas como as opiniões. Por isso a declaração anterior: "não acredito em informações puras". O que é opinião e o que é informação não pode ser discernido pela chave do perspectivismo, pois ambas são igualmente perspectivas -- isto é, não há algo como uma ausência de perspectiva ou uma perspectiva absoluta (pura, pra usar o termo empregado). É como se o conceito de informação que ele contesta correspondesse a um suposto acesso direto, não perspectivo, não mediado, às coisas. Enquanto a opinião, em sentido contrário, seria a característica manifestação de uma perspectiva, da posição histórica, geográfica, moral e etc. de um sujeito.

É um equívoco de muitas consequências, mas de extrema importância ilustrativa. Parece realmente que não faz sentido falar em impressões absolutas, que todas as nossas informações sobre as coisas são marcadas por uma posição particular, regional e singular, que não podem ser impunemente absolutizadas. Se esse "perspectivismo" é inseparável de tudo que a gente pode manifestar sobre o mundo -- de sorte que não podemos negá-lo -- então também não faz sentido afirmá-lo. A informação que ele traz não é um conhecimento ou uma revelação sobre a nossa própria natureza. O conhecimento admite o erro e a negação. Onde a negação não faz sentido, não há conhecimento. Portanto, a observação sobre o perspectivismo inerente a todas as nossas manifestações sobre o mundo não pode ser nada além do que um comentário sobre a lógica dos nossos conceitos.

Se estamos inevitavelmente instalados em solo perspectivo, a diferença entre informação e opinião não pode se definir por aquilo que é ou não perspectivo -- pois em sentido lato, como já vimos, nada pode não ser perspectivo. Mas eu disse que não faz sentido afirmar o perspectivismo. Exato! Só faria sentido afirmar o perspectivismo, se nós pudessemos falar de um "absolutismo". Que significado tem falar sobre alguém que está em todos os pontos do mundo, que tem todas as posições históricas, que domina todas as perspectivas morais e etc? Se o par oposto ao perspectivismo não tem sentido, ele também perde o seu -- do mesmo modo como, se não houvesse luz, os conceitos de claro e escuro perderiam o sentido.

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Suponhamos que diante de um cenário eu afirme: "Uma mulher foi assassinada" -- enquanto outro declara: "Uma mulher foi violentamente assassinada a golpes de machado por um psicopata". Poderíamos classificar as declarações respectivamente como informação e opinião. Contudo, alguém poderia dizer: "mas você também está supondo um assassinato! talvez a mulher tenha caído de algum lugar não evidente e se machucado durante a queda". Mas o que distingue a informação da opinião não é o fato de que ela não pode ser falsa, mas que em condições normais as circunstâncias não favoreçam o falseamento, que em condições normais aquilo que foi trazido a título de informação não adicione ao cenário nada que possa ser considerado acessório ou não pertencente a ele. Supor que é impossível atingir um ponto no qual as pessoas estão de acordo sobre o que pode ser um relato fiel, é imaginar que a dúvida pode regredir infinitamente e que não é legítimo, em momento algum, fazer suposições. Como se, ao flagrar um "pressuposto", nós estívessemos diante de uma escolha -- que faria reintroduzir um perspectivismo insuperável -- porque seria uma escolha particular, e alguém poderia fazer uma outra escolha, diferente, e assim estaríamos novamente no ponto em que o perspectivismo contamina a informação com a opinião. Mas vamos voltar ao cenário hipotético e imaginar que ao ver o corpo todos concordassem com a minha informação -- mesmo os policiais. Os cortes pareciam indicar um assassinato, por todas as circunstâncias. Então um detetive experiente examina as variáveis e determina que lesões provocadas pelo choque do corpo contra objetos na rota de sua queda causaram a morte. Isso transforma a minha informação, errada, numa opinião? Alguém diria por isso que ela deixou de ser uma informação, ainda que errada? Ela se igualou à segunda declaração, àquela que menciona o "psicopata"? Bem, se alguém disser isso, eu posso retorquir alegando que o detetive pressupôs que a mulher não tinha uma doença mortífera que lesiona os tecidos musculares. Ou que supôs a continuidade da ação gravitacional. Em certos momentos as suposições não são meras escolhas particulares, manifestações de perspectivas singulares, mas a expressão de um modo comum de pensar. E é porque temos esse modo comum de pensar que nós podemos falar em informação, ainda que a possibilidade de erro não possa ser afastada.

A opinião, ao contrário, envolve escolhas que podem ser aceitas como verdadeiras, mas que mobilizam muito mais do que o que está apresentado como "fato", mais do que aquilo que em condições normais nós estamos dispostos a aceitar como fato -- e que esse conjunto de coisas não seja sempre nítido não é uma crítica aos limites entre a informação e a opinião. As opiniões em geral elas tratam do que está além da mera "aparência" do que se analisa: elas invocam causas, razões, intenções. A diferença entre opinião e informação pode ser sutil, mas isso não indica que elas compartilham mesmas características ou que podem ser niveladas porque têm em comum um dado perspectivismo.

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No caso que discutíamos nos comentários, sobre a postura de William Waack a respeito do PNDH, isso se faz claro. Aquilo que não pode vir a ser um a lei, não pode substituir uma Constituição. Ainda que as diretivas do PNDH possam servir de parâmetro para projetos de lei, ele mesmo não é um. Sugerir que o Programa é uma nova Constituição é mascarar essa diferença categorial elementar. Fazendo isso ele omite informações essenciais e mobiliza retoricamente uma imagem forte, cujo objetivo é pintar em tons ditadoriais as ações do governo (mesmo que fosse um projeto de lei, ainda sim não teria o teor ditatorial pressuposto, pois um PL está sujeito à democrática deliberação do Congresso). É uma opinião sobre as intenções do governo, não uma informação sobre o Programa. Ao apresentar como fato a afirmação de que o "O PNDH é uma nova Constituição" ele expõe sua má fé e o interesse que anima seu comportamento. E é esse interesse afirmado a qualquer custo que atrofia o debate democrático. Parcialidade é necessária, mas não uma que se vista com as roupas da imparcialidade. No fundo a recusa em aceitar as denominadas "informações puras" e a tentativa de confundir opinião e informação, mostrando-as como igualmente perspectivas e entrelaçadas, é a tentativa de eximir de críticas aqueles que desonestamente enfeitam suas opiniões pessoais e interesses com as roupas do discurso neutro, imparcial e objetivo. O problema não é a parcialidade da imprensa, mas os expedientes pelos quais ela vende seus interesses e propósitos como expressões incontestes do interesse público.

06 Janeiro, 2010

A falta de talento para argumentar

Das pessoas que produzem textos a serem associados à imagem de grandes grupos de comunicação parece que não é mais exigido nenhum talento especial para argumentar. Essa é uma impressão antiga que se precipitou hoje aqui em razão da pavorosa defesa que Barbara Gancia lançou em favor de Boris Casoy por conta do episódio em que ele se envolveu.

Se uma amiga me pergunta se seu vestido novo é bonito, há um forte constrangimento que me impele a ser político, a despeito da minha opinião sincera. Bem, eu não preciso explicar isso a ninguém, mas, certos contextos exigem discursos determinados, modos de ação determinados e até certa dissimulação. É certo que muita coisa errada se esconde por esses meios, mas só através deles nós podemos aparar as arestas do convívio social e torná-lo mais agradável. Tente dizer sempre a verdade e você logo perceberá uma catástrofe social em curso. É claro que, no meio político, as máscaras se confundem com a própria atividade. Entretanto, em qualquer caso, se houver um deslocamento, se um discurso, uma fala, uma frase sequer, dirigida a um determinado contexto, cai por acidente em qualquer outro, o dano logo se vê. Esse é o caso, por exemplo, do incidente envolvendo a declaração de Ricupero que foi trazida como analogia. Porém, o acidente não imuniza a declaração -- atenua, talvez.

Mas isso nada tem a ver com o caso. O que se critica aqui é: em nenhum contexto a declaração deixa de ser preconceituosa. Ela não seria menos preconceituosa se não tivesse vazado, não se trata meramente de um deslocamento de discurso. Mesmo que, como ela supõe, Boris estivesse contestando as escolhas da produção, isso não amenizaria o tom preconceituoso da contestação. Mas Barbara abusa da inteligência do leitor e transforma um comentário preconceituo, desses que saem da boca das pessoas quando elas se sentem à vontade entre interlocutores coniventes, num gesto profissional:
Isso é da natureza do nosso trabalho e não tem nada a ver com preconceito.
Como se pudéssemos confundir o tom jocoso de um gracejo com uma observação estritamente profissional, uma contestação. Além desse malabarismo, sobram apelos e testemunhos pessoais e profissionais sobre o caráter de Boris. "Um tipo que se incomoda com leviandades". As dos outros, na certa. E por fim, como não poderia deixar de ser, ela formula em duas linhas uma teoria para explicar a indignação geral:
Boris Casoy teve uma rusga pública com o governo Lula. Boris Casoy é identificado pela esquerda histérica como sendo um homem de direita. E, portanto, Boris Casoy deve ser atacado a cada oportunidade que se apresente.

Menas, idiotas latino-americanos, menas.
Por fim, a indignação se explica na sanha da esquerda histérica, dos barbudinhos, como ela mesmo diz, ansiosa em atacar o que ela identifica como um homem de direita. Nada melhor, para desabonar as razões de outro, do que pintá-lo como alguém com segundas intenções, certo?

O texto parece um tratado prático de falácias, equívocos e má retórica. É uma bela declaração de afeto, mas um atestado de incompetência para argumentar que, sem necessidade, transforma comoção legítima, em esperteza políticas de gente de esquerda. Como se a questão suscitasse comentários políticos -- e não éticos.

Talvez o primeiro indício de talento seja a capacidade para identificar temas defensáveis.
Isso é uma vergonha! (sic)

31 Dezembro, 2009

Informes

O servidor de comentários que eu uso no blog, o Haloscan, doravante será pago. A valor é relativamente baixo, mas esse talvez seja o impulso necessário a algumas mudanças que precisam acontecer por aqui. Como sabe quem me acompanha, o código do blog eu mesmo fiz, costurei-o de outros códigos e implementei coisas minhas. Ele é um colcha de retalhos, pesada e de poucos recursos. Pra que vocês façam ideia, eu ainda nem mesmo migrei do Old Blogger pro New Blogger -- a plataforma atual do Blogger. Portanto o primeiro passo deve ser providenciar um código para poder executar essa transição o quanto antes e assim abrir este espaço aos novos recursos e mesmo a miudezas como o uso de categorias e tags, coisas que eu não posso usar no Old Blogger.

Mas vocês também sabem que eu ando ocupado. Aliás, surpreendente que, embora o número de visitantes seja sempre baixo ou quase nulo, 60 a 70 pessoas assinem o feed. É incrível! Quer dizer, o que surpreende é que mesmo com minha infrequência as pessoas ainda insistam em ler as chatices que publico aqui. Se vocês aguardam tanto, não custa aguardar um pouco mais. Estou louco para escrever sobre ateus e crédulos mas não terei tempo até o início de janeiro. (O próximo ano também será bem corrido, mas depois eu conto tudo isso aqui).

Por ora o que precisa ser dito é: em breve os comentários do Haloscan não estarão mais disponíveis -- nem para leitura, nem para publicação. Tentarei fazer um backup, conforme sugestão dos administradores do servidor, mas não sei se será possível devolvê-los novamente ao blog. Talvez no caso de eu pagar um servidor dedicado: é uma possibilidade. Portanto, é preciso que vocês parem de se acotovelar e deixem de comentar até que eu tenha resolvido esse impasse. Será um período difícil mas, eu espero, curto. No mais devo dizer que até considerei deixar o blog de lado, abandoná-lo, mas isso iria contra minha vontade e minha expectativa quanto à importância da blogosfera para as eleições do próximo ano. Não quero estar fora dessa!

De resto, meus amigos, eu desejo a vocês um feliz ano novo, de sucesso, realizações e felicidade. E reitero que, pelo menos até agora, os comentários ainda funcionam. Grande abraço.

29 Novembro, 2009

O santo dos medíocres

Durante anos motivos insondáveis me impediram de assistir Amadeus. Semanas atrás, decidido a reparar o erro, baixei o filme. Após alguns dias de hesitação, resolvi finalmente assisti-lo. O filme é excelente, mas a premiada atuação de Fahrid Murray Abraham é assombrosa. Ele consegue reproduzir, ou melhor, ele vivencia a paixão pela música com perfeição. Felizmente, todas as cenas que me interessam estão no Youtube, alerto meus caros leitores que os próximos comentários contêm spoilers (mas quem além de mim ainda não assistiu esse filme?).



Antes de tudo, Salieri -- personagem de Murray -- é um apaixonado por música, o que, por si só, já vale uma identificação. Apesar da sua ambígua função no filme, as passagens em que ele comenta a obra de Mozart são nada menos do que fabulosas. Na primeira delas, quase entorpecido, Salieri descreve o início da Serenata No. 10 de Mozart para instrumentos de sopro. O áudio não é dos melhores, mas ao fundo se ouve a melodia enquanto a voz de Salieri se sobrepõe a ela. A simplicidade inicial mal deixa ver a grandiosidade que se avoluma à medida que os elementos vão se incorporando à melodia. Fagotes, trompas se avizinham quase despretensiosamente. Um oboé e então por fim um clarinete que, segundo Salieri, harmoniza o conjunto com enorme graça. É um abuso imperdoável de minha parte descrever a interpretação majestosa de Murray -- mas ao mesmo tempo é quase inevitável. O diálogo e a realização do ator tem a clara pretensão de mostrar como a genialidade de Mozart faz a composição de elementos aparentemente triviais um feito celestial. Não sem surpresa o diálogo termina com a constatação de que o que se apresenta ali não é outra coisa senão a própria voz de Deus. No mesmo diálogo, porém, já se entreve a inveja mortal que corrói as vísceras de Salieri.

A paixão pela música e sua incomparável sensibilidade são, ao olhos de Salieri, o céu e o inferno. Para alguém que com todas as forças desejava brilhar através dela, reconhecer a genialidade almejada na figura de Mozart era como sentir um punhal no próprio peito. Isso porque -- perdoem minha absoluta ignorância acerca da biografia de Mozart -- o compositor é apresentado como uma figura algo ingênua, irresponsável, quase um garoto. Um garoto a quem se investiu o privilégio de ser o veículo da própria voz de Deus -- inadmissível! É esse o sentimento que irá marcar a hipócrita relação que Salieri manterá com Mozart. Contudo, na sinceridade de sua própria alma, ele não deixará de manifestar uma completa devoção à sua obra. Quando na segunda cena Salieri toma em suas mãos algumas das peças inéditas de Mozart, êxtase e rancor se entremesclam. Era a mostra definitiva de que não havia acidente no que até então ele havia presenciado, Mozart era um gênio sem par e suas músicas a substância mesma da beleza em estado puro. Foi a gota d'água que precipitou o fim da estremecida relação entre Salieri e Deus. Inadmissível que ele seja o escolhido, um garoto arrogante, leviano, bárbaro -- um performing monkey, como o denominou debochadamente.

Cego de rancor, Salieri decide vingar-se da injustiça divina fazendo da vida de seu prodígio um inferno. E é assim que se estabelece a ocasião para o que há de soberbo no filme. De fato, reveses começam, um após o outro, a despontar na vida de Mozart. A personalidade forte mas sem direção vai se consumindo em bebidas e outros vicios degradantes. Surpreendentemente, Salieri parece estar vencendo o embate com Deus. Mozart enfim cai doente. É o próprio Salieri quem o assiste, levando-o até sua casa. Lá, dissimulando como sempre, Salieri se oferece para ajudar Mozar a terminar o Requiem que ele mesmo havia secretamente encomendado. Tudo parecia correr conforme seus planos. Mas a experiência de auxiliá-lo não pudia ser prevista e a cena que em que os dois trabalham juntos eu acompanhei com os olhos marejados de pleno entendido que de tudo que estava em jogo naquela circunstância. Salieri se esforçava para acompanhar a mente que, mesmo doente, voava -- a verve fervilhante de um gênio. Murray faz magistralmente transparente esse transbordamento das pessoas comuns, ele mal conseguia entender. Só após algum tempo, aí sim, tudo parecia não só natural, mas necessário. Salieri escrevia conforme ditava Mozart. Cada etapa, cada nota, era vivenciada como se ele estivesse tomando parte dos próprios desígnios divinos. O ritmo da criação era ele mesmo apaixonante; inicia com menor vigor até atingir um cadência inalcancável.  Um tal experiência vai fazendo ruir a máscara que ocultava a mediocridade de Salieri. Por seu turno o garoto irresponsável, insolente, leviano, arrogante, gradativamente se agiganta. E, ao contrário do que poderíamos imaginar, Salieri aceita seu papel. É como se aos poucos -- numa linha subliminar do próprio roteiro -- ele fosse se dando conta de suas próprias limitações, abrindo espaço para a vitória de Deus. Mas o triunfo divino vem num gesto de graça: após passar a noite trabalhando, Mozart está extenuado e em seus instantes finais. Ainda sim, pergunta generosamente a Salieri se este não quer descansar. Depois da negativa ele se ri em com a mesma ingenuidade que outrora havia sangrado Salieri, zomba de seus próprios pensamentos. Diz que foi um tolo ao pensar que Salieri não ligava para ele ou para sua obra e lhe pede perdão. Assim, a vitória de Deus não vem na força pujante de um gênio que esmaga a mediocridade alheia, mas na humildade cristã que põe a nu a mesquinhez dos sentimentos de Salieri. Ele se vêm ali não só como testemunha da própria criação divina manifesta, mas na presença de um espírito tão grandioso que é capaz de pedir perdão ao seu carrasco. O homem a quem havia matado, seu ídolo, mostrava-se uma criança frágil, desejoso da sua aprovação e angustiado por pensar que não era bem quisto. Era como se o próprio Deus através daquele perdão honesto, da sinceridade infantil de Mozart, descortinasse a grandiosidade do gênio ao tempo em que revelava a insignificância de Salieri. Não era uma vitória simples, era um triunfo sem igual, insuperável, e que haveria de deixar marcas indeléveis no próprio Salieri.

Claro, tudo isso é mero simbolismo, mas de um engenho e sutileza que fazem o filme certamente singular. A interpretação dos atores é incorrigível e contribui decisivamente para o êxito do filme.  No entanto o que realmente me fascina é a cena que descrevi e suas consequências -- o gênio perseguido que inadvertidamente pede perdão ao seu carrasco e o desarma. Salieri daí em diante só pode viver se penitenciado pela sua própria arrogância. Além da interpretação arrebatadora de Murray, o comportamento de Salieri inspira alguma identificação. É que apesar da mediocridade comum, eu penso que tenho, como tinha Salieri, uma sensibilidade para a beleza e para as significações subliminares que se instalam frequentemente na música, mas também em um sem número de outras situações. E de fato há algo de quase revoltante nessa inépcia senão para enxergar o beleza do trabalho alheio. Mas também algo de gracioso -- no sentido próprio da palavra. Dessa forma Salieri renegou seus próprios dotes, pois foi o único que realmente enxergou a dimensão da música de Mozart. A metáfora de vitória divina, do triunfo sobre a arrogância da mediocridade, é certamente o ponto máximo do filme e ainda hoje faz vacilar minhas convicções ateistas. É que a música, para mim, sempre foi o mais pungente argumento e sua irredutibilidade, sua impossibilidade de ser explicada pelos próprios termos que a constituem, é um argumento mais forte em favor de Deus do que a mais elaborada prova ontológica.

PS. A falta de tempo tem feito do cinema a minha única fonte de inspiração. Perdoem-me! Não faço outra coisa além de me ocupar de leituras filosóficas. Em breve, quem sabe, o cenário mude.

04 Novembro, 2009

O cinema em sua melhor forma

Quando o cinema tenta empreender uma reflexão linear, de maior alcance, põe-se em geral à sombra da literatura e da filosofia. Mas nem sempre é assim. Às vezes, alcançada a forma ideal, seus resultados e métodos transcendem o próprio expediente literário e filosófico. Recortei abaixo um dos diálogos mais instigantes de O sétimo selo, de Bergman. É absolutamente compatível com as mais cortantes reflexões de Kierkegaard, tanto quanto com os mais aterradores comentários de Camus (especialmente em O mito de Sísifo) a respeito da existência e da angústia que marcam um mundo sem sentido, "em que é preciso imaginar Sísifo feliz". Vejam vocês mesmos! -- é impecável em todo e qualquer aspecto.


25 Outubro, 2009

O moralista Tarantino



Spoilers: não leia a menos que já tenha assistido Bastardos Inglórios.

O novo filme de Tarantino é seguramente interessante, embora, talvez, supervalorizado. Queiram ou não, Brad Pitt mais uma vez é uma das figuras centrais e, mais uma vez, atuando com bastante competência. Quando ele diz buongiorno ao coronel Landa, naquele indisfarçável sotaque caipira, eu quase tive uma sincope. Mas Christoph Waltz rouba a cena, é sem dúvida o melhor ator do filme, encarnando o personagem mais elaborado. O que me faz pensar que Bastardos Inglórios balança em sua pretensão é exatamente o modo como ele trata seu melhor personagem.

Uma comparação talvez esclareça as coisas, uma comparação, aliás, nada inocente. É a minha velha mania de confrontar as soluções cinematográficas às soluções literárias. Diante do cinismo do Coronel Landa, de seu jeito aparantemente cortês, ou melhor, da mão de verniz que mal dissimula -- pois não o pretende -- suas intenções e seu poder, lembrei imediatamente do investigador Porfiri, de Crime e Castigo. A cena inicial lembra terrivelmente os encontros de Raskólnikov, o sentimento crescente que ia se apoderando de Rodia a medida que aprofundavam a conversa. "Ele sabe!" pensava. O terror de pensar que alguém sabe o ilícito cometido só se compara à angústia de não ter certeza, e é desse cenário que os personagens, tanto no filme quanto no livro, retiram sua força. Eles articulam de um jeito quase doentio a incerteza que vai crescendo no coração de seus interlocutores, fazem disso um jogo no qual a confissão pode vir a cada nova palavra, num gesto trivial, traídos por alguma negligência. Os algozes, esses nunca erram. Seus discursos soam como se estivessem há muito prontos e se revestem de uma artificialidade quase grosseira, como se no final das contas não quisessem mesmo disfarçar. Em Crime e Castigo, Porfiri é certamente o personagem mais inteligente. Raskólnikov é o veículo da trama, decerto inteligente, mas se sua inteligência não estivesse à deriva, em busca de um porto, não teria inspirado as ideias centrais da narrativa. Ródia é inteligente, mas sua insipiência é flagrante -- e tinha que ser. Porfiri, ao contrário. Difícil simpatizar com uma espécie de burocrata, ou imaginar que a inteligência se instale em alguém de carreira semelhante. Mas a verdade é que eles são altamente especializados, executam seus trabalhos com maestria e o comentário inicial do Coronel Landa acerca de seus próprios expedientes talvez servisse também para ilustrar o lugar de Porfiri.

Porfiri é o Judas da via crucis de Raskólnikov. Um personagem central cuja presença é indispensável. Dostóievski, como gênio que era, manteve-o íntegro. Tarantino, ao inverso, sacrificou seu melhor personagem num desfecho algo moralista. É claro que eu não queria que o nazismo vencesse, mas Landa deveria ter caído pela mão dos outros, e não ter se exposto pelas suas próprias ações. Se o cinismo era odiável, a perspicácia com que fazia todos os personagens curvarem-se à sua vontade era fascinante. A aversão a Landa já triunfava quando eu constatei com algum pesar, logo após ele ter matado a atriz Bridget von Hammersmark, que um final ao estilo "receba o que você merece" já não poderia ser o caso. Mas foi isso o que Tarantino fez. Por essa e outras coisas o arremate me pareceu uma enorme injustiça e uma imperdoável descontinuidade. Tarantino construiu um personagem a maneira de Dostóievski, mas acabou por inseri-lo num contexto sutilmente moralizante (ao modo de Saramago). É como se os personagens não tivessem independência e tudo pudesse ser subordinado ao propósito central de consumar a vingança judaica. Mesmo ao preço da ruptura e incoerência. A vingança de Shosanna talvez tivesse bastado. Claro, a cena final é totalmente cabida e mesmo redentora. Mas Aldo é um personagem grosseiro e pouco inteligente, um final semelhante poderia ter se realizado sem que pra isso fosse preciso envolver Landa numa negociata apressada, irrefletida e de consequências mais que previsíveis. A surpresa do coronel diante da morte de seu soldado pelas mãos do Apache é um atentado contra a inteligência minuciosamente construída ao longo do filme. Pareceu mera ocasião para o final "o bem derrota o mal", mesmo que mascarado pelo quê de humor em que a situação se embrulha.



Coerência num filme, como num livro, é tudo. Ao meu ver, a grandiosidade de um autor se mede em sua capacidade de arcar com as consequências de seus próprios engenhos. Um nazista livre de punição talvez não fosse conveniente ao painel de nossos valores e desejos, mas algo muito próximo era o que se deveria esperar de uma trama relativamente coerente. É excessivo aproximar Tarantino e Dostóieski, vocês devem ter pensado desde o início, a lembrança de Porfiri talvez tenha me traído. É que o russo me acostumou mal ao sentido de integridade capaz de fazer o próprio Cristo penar nas mãos de seus pretensos representantes, e depois ser piedosamente liberado qual um indigente a quem se dirige migalhas de compaixão (vide Irmãos Karamazov, em O grande inquisitor). O mau costume da literatura frequentemente sabota minha experiência com o cinema. Não é nenhum defeito próprio do cinema, é que o público, a audiência, parece uma variável excessivamente considerada na elaboração dos roteiros cinematográficos.

PS. O Apache não é judeu, e se é, não é puro. Portanto não dá pra considerar que Tarantino inverteu os papéis, mostrando judeus tratantes e nazistas civilizados. Até porque seria apressado levar a imagem de personagens em particular até uma regra geral. E igualmente difícil fazer a pecha de civilizado aderir à imagem de gente que pratica assassinatos.

Atualização - Vejam o erro que eu flagro no texto, depois de tê-lo lido quinhentas vezes: "é sempre dúvida o melhor ator do filme". Espero que as consequências desse sei-lá-o-quê que me causa lapsos desse gênero sejam toleráveis.

06 Outubro, 2009

Da importância do preconceito

Antes que me apedrejem, eu confesso que o título é estrategicamente polêmico. Não se trata de um elogio à discriminação racial, étnica, ou a coisa semelhante. Antes, é a tentativa de mostrar que nem todo preconceito é desprezível e dispensável, e que eles cumprem um papel fundamental na economia da nossa organização psicológica. Bem, vamos às explicações antes que a demora se torna uma inimiga.

Quem anda por aqui já me viu citando a conhecida frase de Lébrun: "não é possível pensar sem preconceito (prejuízo)". Eu mesmo não sei o contexto da frase, mas adotei-a com se fosse minha. Talvez devêssemos começar pensando: e se não houvessem pre-conceitos? Contudo, vamos com calma. Primeiro pensemos o aprendizado. O que é aprender ou ensinar? Grosseiramente, poderíamos responder assim: é tornar alguém capaz de responder de forma relativamente padronizada a determinados estímulos. Ensinar a ler (aprender a ler) é fazer alguém capaz de transformar sinais gráficos em uma linguagem cujo sentido ele entende. Aprender a jogar xadrez é saber o que fazer diante das peças de um tabuleiro. Mas o aprendizado só pode se realizar se as condições, os estímulos, como contextos de execução, permanecerem imutáveis. Mas e se as coisas cambiassem arbitrariamente, se os sinais gráficos mudassem a todo instante, sem regra aparente? Talvez pudéssemos ainda falar em aprendizado, mas decerto em sentido bem diferente do que hoje nós empregamos. O significado da aprendizagem exige o espaço da estabilidade como condição de exercício de seu método. Se as pessoas fossem incapazes de reconhecer aquilo que é comum às coisas com as quais elas foram ensinadas a lidar, não saberiam como reagir a elas.

Mas qual é a relação disso tudo com o preconceito? Bem, o preconceito é um instrumento, uma espécie de fórmula geral (como todo instrumento, admite práticas boas e más). Através dele as pessoas se programam para reagir a determinadas circunstâncias. Nós nunca estamos completamente despreparados para novo. Diante do desconhecido, é comum hesitarmos. Mas por quê? Por que não exultar, ao invés disso. Alegrar talvez. A hesitação é uma forma de preconceito útil, na maioria dos casos. Quando uma mulher diz: "os homens não prestam" (eu já citei casos semelhantes por aqui), após uma tortuosa sequência de maus relacionamentos, ela expressa um preconceito "útil", embora talvez danoso caso se mantenha por muito tempo. Ela aprende a reagir, ainda que traumaticamente, às sucessivas desilusões afastando-se daquilo que ela julga ter causado a dor que ela sente.

Mas deixemos os casos mais complexos de lado, voltemos à novidade. Nós estamos sempre, de algum modo, preparado para ela. Isso quer dizer que o desconhecido é sempre trazido ao terreno das nossas referências. Se não sabemos como lidar com ele, aplicamos alguns dos nossos conceitos. Agimos como se fosse uma ameaça, um perigo, ou podemos ter outra reação, mais positiva, a depender da personalidade de cada um. O fundamental é que: antes de termos razões para agir desse ou daquele modo, nós não ficamos sem reação, sem referências. Nós aplicamos os conceitos que já temos! -- nada escapa às nossas conceitualizações. Diante do desconhecido, o homem não meramente paralisa até obter informação suficiente para julgamento apropriado. Essa é a imagem ingênua que habita o espírito dos que não entendem o sentido da importância do preconceito. Imaginem nossa mente como um grande arquivo. Considerem que o desconhecido aqui assume apenas a forma de pessoas, pessoas que não conhecemos. Vamos pensar então como aquelas pessoas que imaginam que os preconceitos são sempre dispensáveis. O que acontece quando conhecemos alguém novo? Criamos um novo arquivo onde as novas informações sobre aquela pessoas são condicionadas. Mas antes de termos informações sobre ela, simplesmente suspendemos os juízos? Se suspendemos, isso quer dizer que agimos de forma equânime com todas as pessoas que nos são desconhecidas? Quando nos deparamos com um sujeito mal encarado que, com a mão no bolso, vem em nossa direção, deixemos que se as coisas se materializem até que possamos legitimamente formar um juízo? Bem, eu não quero apenas mostrar que pensar assim é ir de encontro ao que é mais trivial no senso comum: ao fato de que na maioria das situações cotidianas o preconceito é uma ferramenta útil e indispensável. Eu quero mostrar que as coisas são assim porque se fossem de outro modo, nós não agiríamos com agimos. Voltemos a imagem da mente como um arquivo: se cada pessoa nova, desconhecida, fosse uma ficha, um arquivo, se não houvesse uma categoria maior das quais elas pudessem ser unidades, como num conjunto. Se não pudesse haver um conjunto maior do qual o conjunto atual fosse um subconjunto e assim por diante, então, cada ficha e arquivo seriam únicos e incomunicáveis. Não poderíamos aprender a lidar com as pessoas, a reagir a elas, pela razão que apresentei no início. Não teríamos a estabilidade necessária ao aprendizado. Se as pessoas fossem únicas e irredutíveis, no sentido de que todo o preconceito fosse detestável, não poderíamos esperar delas reações com as quais aprendermos a lidar. No entanto, muitos fatores fazem com que as pessoas ajam de modo homogêneo, e isso dá respaldo ao nosso aprendizado. Talvez haja uma dimensão própria da nossa natureza como justificativa para certas ações. Talvez haja uma dimensão própria de cada cultura. Não sei. O caso é que as regularidades que podemos observar auxiliam nossa lida com as coisas, com os outros, embora essa identificação não esteja imune ao erro.

O preconceito, na sua versão pavorosa e detestável, é a face contrária da crença ingênua na desimportância do preconceito. É a expressão do atraso de pensar que se pode ler nas coisas os sinais das categorias gerais usadas para lidar com as pessoas. Como se o preconceito fosse, não um recurso psicológico geralmente útil, mas um conhecimento irrefutável.

Não ser preconceituoso, no sentido pejorativo, não é não ter preconceitos, é ser capaz de flexibilizá-los, de romper com eles, de jogá-los no lixo. Ou, em outros casos, de reconhecer de sua utilidade. Nesse sentido eu sou um sujeito livre dessa versão negativa do preconceito, pois tenho capacidade para me desprender dos meus juízos; mas por isso mesmo sou um preconceituoso, no sentido positivo do termo, não imponho rédeas aos meus juízos (claro, eles jamais transpõem os limites da minha inteligência, pois, por exemplo, o preconceito racial é antes de mais nada uma forma de burrice. Felizmente meus juízos não ancoram no espaço que não pode receber a chancela racional). Deixem que eu conte um dos meus preconceitos, dias atrás eu diverti uma conhecida com ele: eu tenho preconceito de fãs dos Los Hermanos. Sem contexto, se você me diz que é fã dos Los Hermanos eu dou passo pra trás. Nada de errado com a banda, ela é bastante boa se consideramos o deserto cultural que assola certos setores da música brasileira há alguns anos -- mas seus fãs são quase sempre insuportáveis. O discurso que eles constroem para enaltecê-la é em geral bobo e atesta frequentemente uma gritante escassez de referências (que é, na maioria dos casos, a razão real porque eles emprestam tanto valor a banda). Já tive gratas surpresas. Pessoas que ultrapassaram em muito as fronteiras desse meu juízo. Mas outras vezes, na maior parte dos casos (razão pela qual meu preconceito existe), eu me divirto afirmando orgulhoso meu preconceito diante desses fãs e, se o dia estiver inspirado, arrisco até descontruir a mitologia da banda, mesmo que com uma ou outra mentira. É divertido pirraçar essa gente preconceituosa, convenhamos.