27 abril, 2017

Cultura da iniciativa, mérito individual e empreendedorismo: é disso precisamos?

Nada mais nocivo do que a tendência lamentavelmente comum de apresentar uma discordância (radical ou pontual) como uma disputa entre o bem e o mal. E isso se faz de muitas maneiras e às vezes de modo bastante discreto. Como resultado, criam-se grupinhos — panelinhas, como os chamamos na Bahia — relativamente impermeáveis onde uma certa verdade (ou uma persona) é adorada.

Digo isso porque não são poucas as minhas diferenças com respeito às ideias de Mangabeira Unger, embora concorde com alguns pontos da análise que ele faz em entrevista à revista Época. Nossas perspectivas são radicalmente distintas. Mas eu não quero, agora, me demorar explicando detidamente essas diferenças. Queria apenas sublinhar e indicar en passant, a despeito dos nossos acordos, um aspecto que sugere o núcleo das nossas diferenças. Mangabeira começa a entrevista louvando uma revolução subjetiva e certas características que, segundo ele, tem despontado entre certo segmento social. Fala em cultura da iniciativa, do mérito individual e do empreendedorismo. Não é que não exista nada de interessante e prático nessas características, mas tendo em conta que estes são elementos que dão forma à própria subjetividade capitalista e neoliberal, aspectos profundamente enraizados no ethos de grande parte da humanidade, convém perguntar, com honestidade, se é isso mesmo o que nós precisamos? Responder negativamente essa pergunta exigiria justo aquilo que agora eu não quero apresentar, uma resposta demorada. No entanto, já dá pra ver que os planos de Mangabeira pro Brasil consistem em pouco mais do que adaptar ao Brasil parte do ideário predominante nos EUA e na Inglaterra. Eles tem dado certo por lá? Quer dizer, é isso o que o mundo precisa, dadas as circunstâncias meio-ambientais e políticas? Eu não tenho dúvida de que a receita funciona quando temos em vista a dinâmica produtiva de uma sociedade que precisa gerar empregos e “se desenvolver”, e que é isso o que os políticos tem que vender nas eleições, ou seja, essa perspectiva tem um forte apelo pragmático (e eleitoral). Mas esse roteiro já não é suficiente para enfrentar os novos desafios postos ao planeta e à própria democracia. O aprofundamento da colonização subjetiva que Mangabeira louva como revolução, no Brasil, irá apenas aplainar a especificidade da nossa existência tropical, da qual poderíamos, com um pouco de reflexão, extrair um modo de existência (uma forma de vida) verdadeiramente revolucionário, que substituisse o atomismo que contribue para o panorama que vemos no mundo de hoje. Eu aposto, entretanto, que o realismo dos que querem gerar empregos (mesmo que com boas razões, diga-se de passagem) prevalecerá e, alimentando a tendência já bem nutrida, seguiremos mais uma vez os passos das nossas metrópoles.

09 abril, 2017

Como tornar-se um vira-latas


A “razão” na linguagem: oh, que velha e enganadora senhora! Receio que não nos livraremos de Deus, pois ainda cremos na gramática... 
— Nietzsche, Crepúsculo dos ídolos

Ninguém precisa nos ensinar que os americanos, ingleses, franceses e alemães são bons, inteligentes e fantásticos. Tudo ao nosso redor nos conta e confirma isso. (Veja como mesmo nossas melhores mentes parecem fascinadas pelo teatro da política americana, não apenas pelo interesse estratégico que lhe é próprio, mas também como se ela contivesse algo de intrinsicamente significativo.) O valor de certas coisas é absorvido quase por osmose, sem que ninguém precise ensiná-lo. Mas aprender o valor das coisas brasileiras, ao contrário, exige um enorme esforço pela mesma razão: porque tudo no Brasil parece confirmar que somos desajeitados, mansos, acomodados, preguiçosos, etc. Tudo feito e pensado no Brasil é logo sombreado pelo espírito da quarta melhor prostituta do Cazaquistão que jénios como Diogo Mainardi não cansam de denunciar.

Não se trata de escolher um lado em nenhuma disputa nacionalista, patriótica, bairrista ou coisa que o valha. Trata-se apenas de reconhecer que as nacionalidades são elementos simbólicos que assumem o papel de eixo das nossas práticas: de pontos de articulação que estão sempre presentes como coisas a respeito das quais boa parte de nós estamos de acordo. Mas não estamos de acordo porque são verdadeiras, mas porque somos ensinados a agir assim (é o condicionamento, mais uma vez, mostrando sua importância). É nesse sentido que nossas práticas moldam nossas crenças mais fundamentais — e também o valor atribuído a cada nacionalidade (e a tudo o mais).

O importante é menos reconhecer o valor das coisas brasileiras e mais escapar das armadilhas e enfeitiçamento da gramática e de suas imagens, que fixam certas valores e moldam (às vezes indefinidamente) nossa maneira de ver o mundo.

02 abril, 2017

Dizer Sim!

Pode soar estranho, mas acho que o amor fati nietzscheano tem alguma afinidade com isso que eu considero uma certa perspectiva mística e religiosa. Claro, há diferenças significativas, mas tenho a impressão que uma atitude englobadora e abrangente é comum a ambas. Quer dizer, não estou seguro que toda experiência religiosa e mística seja meramente uma negação da vida e uma estratégia para dar sentido ao sofrimento. Às vezes também a religião pode ser uma forma de afirmação e celebração.

De qualquer forma, eis o famoso parágrafo 276 de Gaia Ciência:
Hoje a todo mundo é permitido expressar seu desejo e pensamento mais queridos: pois bem, também vou dizer o que desejava hoje mesmo de mim e qual foi o primeiro pensamento que esse ano passou pelo meu coração — que pensamento há de ser para mim doravante a razão, garantia e doçura de toda a vida. Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas. Amor fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!

28 março, 2017

O que a ciência e a religião nos contam sobre a experiência e a totalidade

Pilares da criação
6.52 Sentimos que, mesmo que todas as questões científicas possíveis tenham obtido resposta, nossos problemas de vida não terão sido sequer tocados. É certo que não restará, nesse caso, mais nenhuma questão; e a resposta é precisamente essa.
Acho que consegui formular uma ideia geral sobre aquilo que me atrai nesse aforismo de Wittgenstein que aparece inúmeras vezes aqui. É que aí fica evidente até onde podemos confiar na ciência, e pra quê. Vivemos numa sociedade que confia cegamente na ciência: nós a colocamos no lugar de Deus — pra usar uma imagem nietzscheana. E é fascinante que Wittgenstein, em Cambrigde, escrevendo um livro que iria inspirar o positivismo lógico, não tivesse pudores em exibir uma desconfiança tão aberta em relação à ciência.

É claro que à ciência interessa a totalidade, o todo, a experiência entendida como um continuum sem partes, tal como a experimentamos cotidianamente, ao abrir os olhos. Entendida como um projeto ideológico racional, a ciência aspira responder a todas as questões científicas possíveis, mas isso não significa nada mais do que estabelecer um controle absoluto sobre os fenômenos. Por exemplo, gostaríamos de poder compreender e unificar as forças e leis quânticas (subatômicas) às leis clássicas, de sorte que todo fenômeno possível do universo pudesse ser determinado por um conjunto de leis relativamente homogêneo. A chave dessa perspectiva é: controle — e se olharmos mais de perto: segurança. O desejo de subsumir todos os fenômenos a leis muito gerais, leis que atravessam todo o campo do possível, não é senão o desejo de mapear todos os fenômenos de acordo com a cartografia científica, de determinar todo o campo do possível, de sorte que toda a expressão momentânea do desconhecido se traduza, pela aplicação dos nossos conhecimentos, num fenômeno imediatamente conhecido, explicado e, consequentemente, controlado. A ciência é ambiciosa, sua produtividade e eficiência são colossais, mas por sua própria característica ela está sempre pouco à vontade ante um fator importante da experiência e da experiência compreendida como totalidade: o desconhecido. Para a ciência, o desconhecido é aquilo que deve ser eliminado.

(Claro, o desconhecido não é mais que uma metáfora, um modo de designar algo que está necessariamente do lado de fora e que não pode ser excluído pelo esgotamento das questões científicas.)

O aforismo de Wittgenstein não faz mais do que enfatizar que o conjunto dos objetos (e questões) possíveis da ciência não coincide com o conjunto de questões que nos parecem importantes. A experiência do mundo transcende e transborda para além dos limites da ciência e do conhecimento. É um todo maior do que a soma das partes. Para mim, isso significa que de saída o projeto científico — de controle e segurança — tem algo de profundamente ingênuo e, em certo sentido, ineficiente. Quer dizer, nós moldamos nossa sociedade e nossos modelos de produção e de relação social em função de algo que não pode se dar. E aqui uma frase de Kafka, da sua Carta ao pai, talvez possa ajudar de alguma maneira: “A vida não comporta cálculo”. Quer dizer, a experiência do controle, da subordinação dos fenômenos a regras e leis definidas pela ciência não esgota o espaço total da própria experiência, a vida. E é assim que estamos sempre e inevitavelmente diante da vida: como quem não tem ferramentas suficientes para enfrentá-la. Então a questão talvez seja abandonar essa perspectiva predominantemente instrumental que é o sentido da própria ciência. Por sua vez, o que a religião nos oferece é uma perspectiva diferente. Claro, a própria religião se contaminou com o propósito produtivo da ciência, com seu poder, de sorte que suas próprias questões parecem exigir uma explicação (pra ilustrar uma outra ocasião em que o aforismo de Wittgenstein aparece). Mas a religião tem um sentido irredutível a esse enfeitiçamento pelo poder explicativo da ciência, um sentido que nos coloca diante da experiência (e do desconhecido) de uma outra maneira. Wittgenstein sempre manifestou enorme simpatia e respeito pela experiência religiosa (Dewi Zephaniah Phillips, conhecido wittgensteiniano, escreveu um livro que há tempos quero ler: Religion without explanation). Em certo sentido, esse estar à vontade diante de um universo pleno, não fragmentado analiticamente e cindido pela barreira intransponível do desconhecido, parece caracterizar a perspectiva religiosa e marcar sua diferença com respeito à ciência.

Quando não enfetiçada pelo poder que inevitavelmente engendra, a religião, ou pelo menos uma certa perspectiva mística, parece refletir um ethos mais ajustado a uma experiência que não pode elidir essa totalidade na qual o desconhecido se integra como componente inseparável. É bem verdade que esse ethos não tem como única fonte a religião e a mística (bem o sabia Nietzsche), mas convém reconhecer, nesses tempos em que a polarização entre os apoiadores da ciência e seus supostos detratores ganha evidência, que a experiência religiosa não é uma forma primitiva, proto-científica, mitológica, de lidar com a experiência. Ela tem algo de uma sabedoria que a própria ciência parece ignorar e que, por consequência, tem desaparecido do quadro das ferramentas com que lidamos com o mundo.

As duas perspectivas (científica e religiosa) não são incompatíveis, mas a ciência tem um quê de totalitário, o que significa que entre outras coisas lamentavelmente suas limitações são cada vez menos percebidas, ainda que hoje, mais do que nunca, uma perspectiva crítica em relação à ciência seja necessária. Precisamos não apenas desenvolver uma presença não instrumental no mundo, mas reconhecer o próprio papel dos cientistas na determinação do seu panorama atual — e reconhecer que embora a ciência possa nos ajudar a alcançar todas as metas postas pela humanidade, seu instrumental não tem privilégios quando se trata de estabelecer as próprias metas.

Por fim, deixo um outro comentário interessante de Wittgenstein:
Quando alguém que acredita em Deus olha ao redor e pergunta: “De onde vem tudo isso que eu vejo?” “De onde vem tudo?” ele não está pedindo uma explicação (causal); e o propósito de sua pergunta é que é a expressão de um tal pedido. Assim, ele está expressando uma atitude com respeito a todas as explicações. Mas como isso se manifesta em sua vida? É uma atitude que toma certa questão com seriedade, mas então em determinado ponto já não lhe trata seriamente, e declara que outra coisa é ainda mais séria. Nesse sentido uma pessoa pode dizer que é muito sério que fulano tenha morrido antes de terminar um certo trabalho; e em outro sentido não tem nenhuma importância. Aqui nós usamos as palavras “em um sentido profundo”. 

Essa atitude com respeito a todas as explicações dá muito o que pensar.

PS. A ideia era comentar uma impressão causada pelo aforismo de Wittgenstein, e não o aforismo ele mesmo. Ainda que meu comentário tangencie aspectos vinculados ao aforismo, minha pretensão não era analisá-lo.
PPS. A ideia da psicanálise como uma ética (mais que uma ciência, como as psicologias comportamentais, por exemplo) me parece interessante porque ela não tem como objetivo uma cura, no sentido em que uma ciência busca uma resposta, mas uma certa atitude. Em alguma medida, apesar de tudo, essa atitude parece guardar alguma afinidade com certas questões religiosas e místicas.

03 março, 2017

A doença de um tempo

A forma de vida capitalista
Pra variar, não tenho conseguido cumprir a promessa de escrever mais por aqui. Pelo menos tenho conseguido escrever a tese. E, bem, na falta de algum assunto mais desenvolvido, achei mais um fragmento de Wittgenstein que convém comentar.

Há tempos me parece que o capitalismo não é mais um modelo econômico, mas uma forma de vida. O capitalismo apropriou-se de todos os extratos da vida, estendendo universalmente o domínio da concorrência, impondo a lógica do empreendedorismo como modelo subjetivo e intersubjetivo, enfim, colonizando todos os espaços possíveis e afirmando-se como eixo central e único modelo da experiência humana. Assim sendo, qualquer esforço de mudança requer armas apropriadas, não meramente a alteração do modelo econômico e produtivo, mas a transformação total de nossa forma de vida. E alguma medida é isso que está insinuado nesse comentário de Wittgenstein que, além do mais, sugere um exemplo fictício apropriado e profético.
A enfermidade de um tempo é curada pela alteração no modo de vida dos seres humanos, foi possível obter a cura para a enfermidade dos problemas filosóficos apenas por meio de um modo transformado de pensamento e de vida, não mediante o remédio inventado por um indivíduo.
Pense no uso do carro a motor produzindo e estimulando certas doenças, e a humanidade sendo assolada por tal doença até que, por uma causa ou outra, como resultado de algum desenvolvimento ou outro, abandone o hábito de dirigir.
— Observações sobre os fundamentos da matemática, i, § 23
Vamos torcer para que essa causa não seja o colapso.

15 fevereiro, 2017

Razões e causas: o chiste em Freud

Wittgenstein tem uma reflexão muito interessante sobre a diferença entre razões e causas. Uma das ocasiões em que se pode notar a aplicação dessa distinção é num comentário sobre Freud. Traduzi   joke por chiste imaginando se tratar de uma referência a um texto que eu li e que usava a mesma expressão.
Outra questão que Freud trata psicologicamente mas cuja investigação tem o carácter de uma investigação estética é a natureza do chiste. A questão, “Qual é a natureza do chiste”, é como a questão, “Qual é a natureza do poema lírico?” Eu gostaria de examinar de que modo a teoria freudiana é uma hipótese e de que modo não é. A parte hipotética da teoria, o subsconsciente, é a parte insatisfatória. Freud pensa que é uma parte essencial do mecanismo do chiste mascarar algo, digamos, o desejo de difamar alguém, e assim é possível que subconsciente se expresse. Ele diz que as pessoas que negam o subsconsciente realmente não podem lidar com a sugestão pós-hipnótica, ou com a ideia de despertar em um momento inusual segundo seus padrões (or with waking up at an unusual hour of one's own accord). Freud alega que usando a psicanálise nós podemos descobrir o porquê nós rimos sem saber. Eu vejo uma confusão aqui entre uma causa e uma razão. Ter clareza sobre porque você ri não é conhecer uma causa. Se fosse, então o assentimento à análise proposta como explicação sobre o porquê você ri não seria um meio de detectar a causa. O sucesso da análise deve se mostrar pelo assentimento (concordância) da pessoa. (Wittgenstein's Lectures, AWL)
Uma causa tem uma dimensão hipotética, mas não uma razão. Você pode descobrir experimentalmente uma causa, mas não uma razão. Daí que a razão porque alguém ri só possa se expressar no assentimento (na confirmação) do paciente de que a análise é verdadeira (na falta de uma melhor expressão). Causas e efeitos pertencem ao domínio empírico, da experiência. Razões e motivos pertencem ao domínio da lógica de um jogo de linguagem. Eu posso achar que sei a causa porque alguém fez alguma coisa e posso provar experimentamente a relação entre a causa e o efeito de uma ação, mas pra saber a razão porque alguém fez algo eu preciso que a pessoa a expresse — ou que confirme aquilo que eu exponho como sendo a razão.

Enquanto as causas estão relacionados com fatos que podem torná-las verdadeiras ou não, numa hipótese, razões estão relacionadas à expressão de um agente racional. A expressão manifesta a razão (como o grito manifesta a dor) ou, no caso do analista, confirma, verifica (por assim dizer) a análise proposta — não os fatos.

PS. A tradução foi feita nas coxas, apenas com o propósito de apresentar a ideia.

Imagem: a questão do nosso tempo?

Qual é o papel da imagem e do outro na constituição de nossa identidade? Essa é uma questão antiga e uma das que salta aos olhos de qualquer pessoa que frequente os meios digitais. O que significa essa explosão narcisista refletida na necessidade obsessiva de controlar o modo como os outros nos percebem? O que isso nos diz sobre nós e sobre o nosso tempo?

Narciso refletido na tela do Instagram

08 fevereiro, 2017

Marketing e liberdade


Descobri por acaso que estava seguindo este perfil no Instagram. A melhor explicação que encontrei foi: alguém que eu seguia vendeu seu perfil pro sujeito, que herdou seus seguidores. Mais um dia normal de negócios no Instagram.

Isso me lembrou a matéria que li recentemente sobre a Cambridge Analytica (achei o texto em português), empresa que cria modelos psicométricos a partir de dados que circulam (e que são negociados) na internet. Qual é a exatamente o problema disso? Bem, talvez vocês tenham notado meu recente interesse pelo behaviorismo. Parte significativa do que nós somos é determinada por condicionamento (ou em outras palavras, por adestramento). Isso significa que somos também (embora não apenas isso) como uma máquina: apertando certos botões (causa) produzimos certos comportamentos (efeito). Claro, a coisa não é tão simples, mas a imagem tem fins pedagógicos. Se isso é verdade, então se soubermos que botão apertar podemos levar as pessoas a agir segundo nossa expectativa. Os perfis oferecidos pela Cambridge Analytica não são nada mais do que isso: um conjunto de informações tais que permitem aquilo que a matéria chama de comunicação dirigida por dados (data-driven communication). O marketing dirigido aos potenciais eleitores levava em conta algumas de suas características mais particulares. Mesmo sem examinar as informações sobre a eficiência real desse tipo de estratégia já dá pra prever um forte impacto tendo como base apenas a premissa behaviorista: grande parte do que somos é determinado por condicionamento.

Mas o que existe para além do condicionamento? Existe a liberdade (para quem acredita nela, claro). Para quem não acredita em liberdade, somos apenas efeitos de causas diversas, em sua maioria desconhecidas. Cada ação de nossa vida, cada escolha, seria o resultado de algum complexo feixe de causas determinadas pela miríade de estímulos a que estamos continuamente expostos desde que nascemos. Nesse contexto, as análises e perfis propiciados pelo uso de Big Data não fazem mais do que escandir essas causas.

(Se puderem, assistam ao documentário The human face of Big data — há um caso muito interessante e ilustrativo apresentado no filme. Um pai (pesquisador de Big Data) decide instalar câmeras em todos os cômodos de sua casa para analisar como seu filho recém nascido adquiriu suas primeiras palavras. 200Gb de informações diárias por 2 anos, façam os cálculos. Cada palavra aprendida — como “água”, por exemplo — é analisada em função das precisas circunstâncias e contextos que determinaram o surgimento da palavra. Tudo é traduzido em números, em análise incansável de movimentos, em projeções algorítmicas produzidas pelo uso de Big Data. É isso, nós somos dados!)

Enfim, se podemos agora, com ajuda de algoritmos e do estoque inesgotável de dados que produzimos diariamente, conhecer, registrar e analisar uma constelação de causas antes inacessíveis, então talvez não reste nada para além dessas causas. E o determinismo terá vencido o longevo debate contra a liberdade. Embora a noção de liberdade ainda careça de uma revisão, não acho que seja o caso. Sobretudo porque não há incompatibilidade entre a determinação causal resultante do condicionamento e a ideia de liberdade. Em termos estritamente negativos, a liberdade seria nada mais do que espaço lógico determinado pelo fato de que o condicionamento não gera necessidade. Uma pessoa condicionada não necessariamente agirá conforme seu condicionamento. A cegueira gerada pelo condicionamento tem limites e os limites apontam para a reflexividade. Ainda que isso seja o bastante para resgatar a ideia de liberdade, não é suficiente para evitar os abusos que podem resultar do uso dessas informações determinantes.

Quando nós lidamos com pessoas a partir de um ponto de vista no qual elas são compreendidas como um conjunto de informações determinantes para atingir um dado objetivo, nossa ação com respeito a elas se torna meramente instrumental. Isto é, aquele espaço de autonomia que compreendemos como determinante para a ideia de liberdade é posto de lado em favor de uma estratégia preocupada apenas com o efeito desejado. Vejamos um exemplo contrário: numa relação amorosa, às vezes nós chegamos ao ponto de conhecer muito bem uma pessoa, nós sabemos o que dizer e quando dizer aquilo que nos parece apropriado em vista de um certo objetivo. Mas é claro que esse conhecimento sobre as peculiaridades de uma pessoa não é meramente instrumental porque em geral nos parece importante levar em conta o que ela pessoa quer, o que ela deseja. Nossa ação é quase sempre uma negociação, dialética, um ajuste entre nossos próprios objetivos e o reconhecimento da autonomia dessa pessoa. Nesse contexto, a ideia (considerada em pensamento ou exposta em diálogo) de que o objetivo que visamos não favorece ou interessa a outra parte pode deter as ações que eventualmente poderiam executar para atingir nossos objetivos. Aliás, tudo isso aponta a uma diferença ilustrativa: o que distingue uma pessoa considerada manipuladora de outra meramente atenciosa?

As ações de uma estratégia de marketing orientada por perfis psicométricos não tem compromisso com a autonomia do sujeito — é claro que alguém poderia alegar a própria autonomia como defesa, afinal, as pessoas são livres para reagir como quiserem. São mesmo? A liberdade é um belo escudo quando estamos explorando massivamente os flancos determinísticos da alma humana. Mas é preciso compreender que, se não temos opção senão admitir que somos parcialmente determinados por circunstâncias estritamente causais, como bem sabem aqueles utilizam esse tipo de estratégia, então a liberdade não pode ser uma desculpa para o uso indiscriminado de certas informações. É preciso uma séria reflexão ética sobre efeitos desse tipo de estratégia.

05 fevereiro, 2017

O outro

Nos próximos meses precisarei escrever muito e eu acho que é preciso estar à vontade escrevendo. Resolvi então tentar reocupar meu blog. Isto é, voltar a escrever, escrever compulsivamente, escrever sobre qualquer coisa, escrever o que vier a cabeça. Tenho vontade de escrever sobre muita coisa, mas ao mesmo tempo uma enorme preguiça de traduzir as coisas que eu penso numa linguagem que me agrade e que não seja inacessível — que qualquer pessoa razoável possa entender e não apenas quem já pensou certos temas. Difícil satisfazer essa conjunção. Mas a verdade é que eu não sei se realmente me esforço pra isso. Nem se quero me esforçar.

Enfim, satisfazer essas exigências sem culpa e ainda responder a esse impulso (necessidade) de escrever espontaneamente, sem maiores crivos (o que implica também libertar-se um pouco da própria necessidade de ser entendido, por mais paradoxal que possa parecer), é quase como dar lugar a outro a outro.

O conceito de fato é um dos que mais me interessam. E isso faz tempo, na verdade. Mas sobre isso acho que nunca conseguiriam escrever algo que não fosse muito fechado (e tivesse que ser enorme). Então fiquem com uma tirinha.

24 janeiro, 2017

Aprendendo a lidar com o mundo

A maior parte das coisas que nos é ensinada desde que somos bebês tem como objetivo nos ajudar a lidar com o mundo. Como todos os animais, somos adestrados a reagir aos estímulos do mundo conforme uma herança que nos é legada por nossos pais e pelas pessoas com quem convivemos. A diferença em relação aos animais fica por conta do fato de que nossa herança constitui aquilo que denominamos cultura. Os animais são adestrados segundo sua natureza (que se contrapõe à cultura tal como ordinariamente contrapomos natureza e liberdade). Mas o fato de que sejamos capazes de ajustar e modificar o patrimônio legado às gerações vindouras (a cultura) não muda uma verdade poucas vezes enunciada (ou frequentemente mascarada): o processo de aquisição da cultura é essencialmente o mesmo dos animais. Somos condicionados (o que significa que para nós a cultura se transforma em uma segunda natureza).

O behaviorismo contem uma verdade desconcertante, mas que não podemos evitar: na base da racionalidade se encontra um processo de condicionamento — ou adestramento, se quisermos enfatizar o que há de comum com o que ocorre com os animais  — que constitui a regularidade necessária mesmo aos processos mais abstratos (como procedimentos matemáticos ou lógicos). O uso da linguagem supõe uma regularidade que só pode ser constituída por meio de processos de adestramento nos quais autoridades ensinam a alunos que não tem capacidade crítica para questioná-los — e só lhes resta aceitar cega e incondicionalmente o que lhes é dito. É preciso notar, contudo, que parte da regularidade dos nossas ações se constitui sem um ensino regular, apenas com base no que vemos e ouvimos. A reflexividade e a criatividade estão presentes desde sempre  — e desde cedo — mas elas não apagam a força e o papel do condicionamento no estabelecimento dos nosso modo de lidar com o mundo. O condicionamento cria a generalidade sem a qual não pode haver sociabilidade.

Mas qual é o objetivo dessa aproximação entre homens e animais? Bem, se o condicionamento e a repetição (aspectos não reflexivos) são responsáveis pela constituição da maior parte das ferramentas com as quais lidamos com o mundo, é sempre e cada vez mais provável que nossas respostas aos estímulos do mundo não sejam adequadas. Vamos usar uma analogia para tornar as coisas mais claras. Imagine que um computador (hardware) seja o mundo. O mundo é um conjunto de estímulos que solicita nossas respostas. Agora imaginemos que alguém que nasceu em 1995 recebeu como ferramenta para lidar com o mundo o sistema operacional (software) Windows XP. Logo essa pessoa perceberá que o mundo muda assim como harware que utilizamos e que não será mais possível seguir utilizando o mesmo software para lidar com um mundo em constante transformação. É preciso atualizar nossas ferramentas. Diante disso, a questão que se coloca é a seguinte: como modificar nossa maneira de lidar com o mundo se grande parte das ferramentas de que disposmos se constituem por condicionamento e adestramento? (Isto é, se a relação que mantemos com nossas ferramentas é uma relação não-reflexiva, mas condicionada, moldada a partir de treinamento e repetição.)

Precisamos emancipar-nos das ferramentas herdadas. Num mundo que se transforma em ritmo cada vez mais rápido, é preciso o quanto antes entender o carácter provisório das ferramentas que nos são transmitidas. Sob o título genérico de ferramentas, leia-se conceitos e perspectivas, pois não se enganem, o condicionamento não tem efeito meramente causal, ele pode engessar também visões de mundo. Se queremos aprender a lidar com o mundo — se suspeitamos que os antigos paradigmas já não são bastantes — devemos refletir e, se for o caso, modificar ou mesmo abandonar nossas antigas ferramentas em favor de outras mais ajustadas. Se é verdade que partilhamos com os animais mais do que gostaríamos admitir, é verdade também que a reflexividade é uma característica que nos permite criar novas respostas e aprender. E para aprender muitas vezes precisamos admitir que nossos antigos parâmetros já não bastam e nos lançar num mundo instável de experimentações. O patrimônio que herdamos desde que somos crianças corresponde a um modo eficiente de lidar com o mundo, um modo útil e funcional durante muito tempo. Novas circunstâncias, no entanto, exigem novas respostas e novas maneiras de responder a estímulos que talvez nunca tenham se dado. Insistir em responder a novas circunstâncias segundo velhos parâmetros pode não apenas mostrar-se ineficiente, mas também causar imenso desconforto e mal-estar. Se o condicionamento determina o nosso pertencimento a uma dimensão de generalidade indeterminada sem a qual não podemos nos comunicar e nos entender com os nossos pares humanos, parece uma missão cada vez mais urgente aprender a emancipar-se dessa generalidade (sem nunca abandoná-la, já que isso seria impossível) a fim de aprender a desenvolver nossas próprias respostas. Aprender a lidar com o mundo exige o exercício da nossa singularidade.

06 dezembro, 2016

A falta de alguma certeza pode levar à loucura?

ALERTA: o texto contém spoilers do capítulo 8 da primeira temporada de Mr Robot.


Clique aqui para baixar o vídeo. Nenhuma plataforma permite hospedar um pedaço de 3 minutos de uma série.

“Se você realmente sabe que esta é uma mão, nós te garantiremos todo o resto”. O que significa essa enigmática frase, a primeira do livro Sobre a certeza, de Wittgenstein? Significa que as certezas são como as cartas na base de um castelo de cartas. E o exemplo utilizado para ilustrar uma certeza é a proposição “Esta é minha mão”. Se essa carta não estiver lá embaixo, se alguém retirá-la dali, todo o resto cai. No entanto, uma certeza não é um conhecimento! Ela é algo óbvio, que justo pelo fato de ser óbvio nós quase nunca notamos ou expressamos. Imagine que eu estivesse diante de você e dissesse: “Está é minha mão”. Você certamente perguntaria o que eu quero dizer com isso. É possível fantasiar e imaginar um contexto no qual essa frase tenha algum sentido, mas na maioria dos casos ela não tem. As certezas (o que é óbvio) não precisam ser mencionadas, porque elas estão sempre manifestas nas nossas ações e expressões, como condições (indeterminadas) de todos os usos significativos da linguagem.

Talvez essas distinções fiquem mais claras se aplicadas a um caso concreto. E aqui entra o fragmento de Mr Robot que eu coloquei acima. (A cena em que Elliot beija sua irmã.) Até quase a metade da cena Elliot reage normalmente. É importante realçar esse aspecto pragmático: ações, reações, atitudes — as certezas que nós temos ou não temos se manifestam fundamentalmente em nossas ações. Ele é capaz de responder a um chamado, interagir, elaborar frases complexas, manifestar desejo, reconhecê-los, toda uma série de ações e reações que identificamos em pessoas  “normais” em contextos em que a linguagem está sendo utilizada. Quando tudo isso muda? Quando ele perde sua capacidade de reação? E o que provoca isso? Tudo muda quando ele dá o beijo. Como o beijo pode ser o catalisador de uma mudança tão grande na sua perspeção de si mesmo e na percepção que as outras pessoas tem dele? Como um beijo pode fazer com que ele e os outros pensem que ele pode estar louco? O beijo mostra que ele não tinha uma certeza: a certeza de que ele estava diante de sua própria irmã. Na maioria das situações o verbo saber atrapalha mais do que ajuda, porque nós tendemos a dizer que ele não sabia que ela não era sua irmã. Mas não. Não é que lhe faltasse um conhecimento, o que lhe faltava era um certeza. A falta de certos conhecimentos nos leva a produzir afirmações falsas e agir de acordo com elas, mas a falta de algumas certezas nos leva a agir como loucos. O conhecimento (e a ciência) está associado ao binômio verdadeiro e falso — a certeza, por sua vez, está relacionada ao binômio sentido e o nonsense, e por isso também não raras vezes se associa ao par razoável e louco. A certeza é o fundamento de toda a linguagem e de todo o conhecimento, ela é tão fundamental que a própria dúvida pressupõe a certeza (só pode duvidar quem tem alguma certeza, quem não tem certezas não tem “objetos” aos quais aplicar a dúvida). Sem algumas certezas, nós não somos ignorantes, não estamos errados, mas corremos o risco de ser taxados de loucos.

Esse trecho de Mr Robot é muito interessante porque ilustra as consequências práticas da falta de uma certeza fundamental. Ele nos permite compreender de maneira muito clara que nossas ações se determinam segundo as coisas que nos parecem óbvias — e que algumas coisas tem que ser óbvias. Para todo mundo que estava assistindo o episódio o beijo de Elliot pareceu então perfeitamente significativo, normal — pois não supunha nada demais. Pensamos: “Ele se encantou por Darlene e, num determinado contexto, assumiu uma atitude mais ousada”. Mas até aquele instante o espectador, como o próprio Elliot, não sabia que Darlene era sua irmã. O espectador, no entanto, tinha razões para não ter um certo conhecimento (“não nos foi apresentado nada que nos fizesse supor um vínculo de irmãos entre eles”, seria uma razão sólida). Que razões alguém pode oferecer para, em circunstâncias normais  (sem estar drogado ou coisa que o valha), não ter a certeza de estar diante da própria irmã mesmo depois de ter falado com elas por dias a fio? As cenas que se seguem mostram Elliot pensando quase convulsivamente. Que prova mais incontestável de que estamos ficando loucos do que passar dias falando com uma pessoa sem reconhecê-la como alguém tão próximo como sua própria irmã? É uma mísera certeza, mas sua perda produz efeitos trementos.

PS. É claro que pensar certezas nessa chave ajuda a entender a loucura desde um ponto de vista lógico (sistêmico). Seria possível até arriscar uma representação tográfica de um sistema de certezas, mas bem, não vou chegar a tanto. O caso é que certas excentricidades estão sempre no limite da loucura, porque elas nos fazem questionar e refletir sobre a própria ideia de realidade.

Dois aforismos

Qualquer coisa pode contar algo de nós. (Não apenas nosso histórico de navegação, cookies e otras cositas más como bem sabem Google e Facebook.) O que podemos saber da cabeça de alguém que escreveu um dos livros mais difíceis da filosofia contemporânea praticamente nas trincheiras de uma guerra? Do Tractatus Logico-Philosophicus eu não compreendo inteiramente dois dos meus aforismos preferidos do livro, que são:
6.43 Se a boa ou má volição altera o mundo, só pode alterar os limites do mundo, não os fatos; não o que pode ser expresso pela linguagem. Em suma, o mundo deve então, com isso, tomar-se a rigor um outro mundo. Deve, por assim dizer, minguar ou crescer como um todo. O mundo do feliz é um mundo diferente do mundo do infeliz.

6.52 Sentimos que, mesmo que todas as questões científicas possíveis tenham obtido resposta, nossos problemas  de vida não terão sido sequer tocados. É certo que não restará, nesse caso, mais nenhuma questão; e a resposta é precisamente essa. 
Ainda me parece curioso que um livro dedicado à lógica ofereça ocasião para falar de temas aparentemente tão distantes, como a vontade ou como essa coisa genérica que ele chama “nossos problemas”. O certo é que nossos problemas — na perspectiva daquele que foi uma das maiores influências do positivismo lógico — não teriam sido nem sequer tocados se todas as nossas questões científicas possíveis tivessem obtido respostas. Acho que ainda há intuições incrivelmente luminosas nesse já antigo livro.

27 novembro, 2016

Sou também vadio e pedinte

Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?
Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.
Tudo mais é estúpido como um Dostoievski ou um Gorki.
Tudo mais é ter fome ou não ter que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.

Trecho do poema de Álvaro de Campos



10 novembro, 2016

Vencendo o cinismo

Certa feita recortei um pedaço do primeiro episódio de Mad Men para ilustrar um post. O vídeo saiu do ar porque estava numa plataforma que já rodou. Esses dias voltei a ver Mad Men e reassisti o episódio. O diálogo é muito bom. E acho que meu comentário ainda diz alguma coisa sobre o que ele apresenta. Leia e assista na ordem que quiser.
(Céticas ou crédulas, as mulheres frequentemente estão um passo à frente dos homens em alguns aspectos. Daí que, diante de questões como essas, mesmo a mais bem articulada segurança masculina se reduza a pó em face de um silêncio bem encaixado, interrompido somente pelo gesto seco e cortante que identifica o essencial e suficiente para desarmar. Jon Hamm traduz com perfeição o constrangimento de um homem desarmado. O constrangimento que raramente alguém verá estampado no meu rosto, pois estou protegido pelo sentimento de intimidação que alimento preventivamente. No entanto, posso ser traído pelo desconhecimento — Don foi uma das suas vítimas. Nunca se está a salvo da vaidade. De ceticismo, porém, não sofro).

Longe de qualquer "realismo", Don é apenas um pessimista que à maneira masculina se arma de um discurso bem articulado para manter o status. Rachel vê seu discurso como uma "reação traumática" ou como uma arma de defesa. Essa inteligência propriamente feminina é intimidadora e fascinante. E aqui vale o bom emprego da palavra, interllegere. A parte o aprisionamento dos gêneros, a fixidez e intolerância com que alguns lêem qualquer coisa que separe em características homens e mulheres, o homem traduz suas armas e seus medos num discurso de força, num texto político, numa arma pública de defesa. A mulher vai mais fundo, ela lê entre, seleciona, separa, depura esse espaço público, e chega até as causas. Daí que diante de determinadas mulheres os homens se achem como Don, constrangidos, intimidados. Claro, nem sempre até a estagnação, mas com a cautela e paciência que se deve manter diante de tudo que é complexo e desconhecido.

30 outubro, 2016

Respeito, raiva e violência

Aprendi algumas coisas importantes quando comecei a ler Um preço muito alto, do neurocientista Carl Hart. Parte do que aprendi está relacionado à ideia de que a desigualdade, o desemprego e a falta de perspectivas (especialmente entre os jovens) contribuem expressivamente pra aumentar a violência e criminalidade. No livro, Carl Hart apresenta sua vida, a vida de um jovem negro e pobre no subúrbio de Miami. A questão das drogas é central, mas o tema está vinculado a outros pontos igualmente importantes. O vínculo entre temas os mais diversos fica claro em muitos episódios relatados. Por exemplo, em certo ponto Hart fala do uso e do gosto de usar armas. E num dos casos que ele conta parece como se o uso de armas fosse representado como um meio para fazer ver como jovens negros sistematicamente desrespeitados pelo simples fato de serem negros e pobres podiam restituir pelo medo o respeito que não lhes era concedido.

O que você faz quando vive numa sociedade que naturalizou o desrespeito, o descrédito e a suposta inferioridade atribuída a uma raça ou a um grupo social qualquer? A raiva e a revolta não parecem reações perfeitamente compreensíveis nesse cenário? Isto é, um jovem que sente que mesmo sem ter qualquer tipo de oportunidade ou assistência ainda assim é visto como uma ameaça, ou como inferior, como alguém em quem não se deve acreditar, não tem razões para revoltar-se? Muito antes de entendermos minimamente o mundo — se é que chegamos a esse ponto — nossa cabeça é bombardeada por um amplo feixe de sentimentos. O que vocês acham que sente alguém que se vê punido sem nem mesmo ser capaz de entender o que fez de errado? Quem sente a força opressiva do racismo e da segregação pela cor ou pela classe social age e reage conforme seus sentimentos, como todos nós.

A violência, mas também a raiva e a revolta, são respostas quase automáticas, que insistem em se repetir porque insistimos em ignorar o efeito de relegar jovens, geração atrás de geração, a uma condição de marginalidade. Imersas numa sociedade que fomenta um desejo que pede sempre e cada vez mais, pessoas a quem não lhes foi oferecida a oportunidade de ampliar suas perspectivas simbólicas, forçadas a trabalhar desde cedo para poder viver, submetidas a uma educação precária, mecânica e meramente burocrática, se veem incapazes de realizar e conseguir aquilo que, aparentemente, todo mundo tem ou deveria ter. Essas pessoas vivem num mundo onde viagens para países distantes, restaurantes chiques, carros luxuosos e gadgets caros e outros elementos que circulam como indicadores sociais de sucesso não estão sequer no horizonte. E a julgar pelo que nos conta não apenas a publicidade, mas a timeline de tantas pessoas em diversas redes sociais, essa são algumas das coisas que devemos almejar. Se mesmos as pessoas que tiveram todas as oportunidades de ampliar suas perspectivas simbólicas (porque tiveram tempo pra estudar, um ambiente adequado, incentivo, estímulo, etc.) não raras vezes não entendem que não é possível atingir a felicidade de shopping center, como é possível esperar que pessoas sistematicamente desrespeitadas não se sintam mortalmente atingidas pela impossibilidade de realizar algo que aparentemente todos devemos ter?

É preciso estar fechado em si mesmo, não ter nenhuma gota de empatia, para não entender a dinâmica da violência dentro de uma sociedade (consumista) que já não oferece tradições como marcos de orientação da vida. E para não ver na raiva que muitas vezes se manifesta nos subúrbios dos centros urbanos como um efeito cego de um sentimento de injustiça mais que justificado. Ou ainda para encaixar todas essas variáveis no quadro simplório de uma guerra entre bandidos e mocinhos. Quem vê a violência como guerra, ou como uma dimensão estritamente moral, está sempre entre os mocinhos. — Mas é sempre tempo de se abrir ao outro, de tentar consertar por meio de ações os efeitos de uma desigualdade mantida deliberadamente. Só a ação sistemática pode alterar normas, leis e mentalidades. É preciso enxergar o outro com respeito e lutar para não ceder à tentação de naturalizar o desrespeito. Como tantos tem insistido: a injustiça epistêmica expressa na vontade de não-ouvir, de ignorar, de menosprezar o que os outros tem a dizer pelo simples fato de eles serem diferentes, tem forte efeito epistêmico. Uma sociedade que naturaliza o desrespeito e a desigualdade será sempre violenta e nenhum guerra poderá pacificá-la.

Recortei uma cena do filme Detachment que diz mais suscitantamente a maior parte do que tentei explicar aqui:



Quando aceitamos e reproduzimos uma dinâmica social naturalizada, que nos impele a negar respeito e credibilidade às pessoas apenas por sua condição natural ou social, essas pessoas tendem a entender a vida em sociedade como uma espécie guerra e os outros como inimigos, cujo respeito deve ser conquistado ainda que pelo medo. O ciclo não pode ser quebrado senão pela restituição do respeito e da credibilidade como parâmetros essenciais do convívio em sociedade.